José Edmilson Rodrigues: Memória afetiva

José Edmilson Rodrigues. Publicado em 2 de junho de 2021 às 11:03

Para Luíra Freire

Nós construímos nossas memórias através de afetos e também dos não-afetos. Dos ódios, das intrigas, das relações tumultuadas fixam-se, também, em nós, as reminiscências do que passou, e seguimos um caminho apontando nossos sentimentos. Vivemos relacionados e compartilhando experimentos, sensações, emoções e nos construímos psiquicamente a partir dessa troca. Se recordamos por impulso ou provocado, vamos construindo nossa vivência, nossa história que tanta gente faz parte da nossa memória, relembrando, por meio de uma emoção triste ou alegre, ou simplesmente por lembrar. A memória é composta por lembranças, mas também por esquecimentos. Não lembramos apenas o que queremos, ou esquecemos o que desdenhamos, já que nossas memórias passam por um vigoroso processo psíquico que não cabe explicar neste artigo.

Das memórias que carrego da minha infância, são fortes as lembranças da Feira da Prata. Visualizo seu espaço (antes do atual) ocupado e distribuído por barracas, feirantes, e transeuntes ávidos por consumir secos e molhados, dos legumes, das verduras e das frutas que faziam o colorido enchendo os olhos de tons multiculturais e de tantas quinquilharias. O jogo de baralho, a roleta e o “tapia” no jogo dos copos, a bolinha está no um, no dois, ou no três? E como caíamos. Ao lado da feira num terreno, um circo em que o palhaço e sua trupe vinham ao mercado e faziam suas chamadas, suas palhaçadas. Rememorar esses fragmentos do que foi a velha feira prova o quanto a memória pode ser doce e excitante.

Feira da Prata, 2005 – José Edmilson Rodrigues

Feira da Prata, 2005 – José Edmilson Rodrigues

Feira da Prata, 2005 – José Edmilson Rodrigues

Feira da Prata, 2005 – José Edmilson Rodrigues

Às vezes, a memória é múltipla, quando sua leitura do que se foi se apresenta nos espaços sociais do presente, interligando-se com o passado. Não se muda sua história, ela pode ser contada de maneira diferente, mas seu conteúdo é o mesmo, embora em muitos casos caia no esquecimento, graças as falhas de memória e da ausência de outros registros. Porque a memória não está apenas na “lembrança” dos indivíduos, mas se encerra também nos registros variados (escritos, fotos, filmes, canções, entre tantos outros).

A minha memória afetiva está viva em relação ao Cine Capitólio. Os filmes que ali assisti, o medo de pedir dinheiro ao pai para pagar a entrada, a emoção de ali chegar, para ver as meninas, o trocado para comprar um doce na bomboniere e a vontade de levar consigo a foto do artista, exposta nos quadros de publicidade do filme em cartaz e até o banheiro do hall, usado para lograr o fiscal do cinema, e ali se esconder entre um filme e outro, impróprio para idades mais tenras…

O prédio do velho cinema permanece ali na praça, embora nada mais seja que quatro paredes. Sua identidade visual se desgastou, se quebrou. As suas linhas arquitetônicas não mais se mostram como deveriam, de tantas intervenções estéticas que sofreu, impactando a memória dos que conheceram seus tempos áureos, em que suas portas se voltavam para o passeio da praça Clementino Procópio. Suas cadeiras, com assentos vermelhos, a testemunhar as gerações que por ali passaram.

Ela, a memória, descreve, externaliza, conta e escreve uma história que por vezes se compreende entre si, por meio de outras vozes. É aí que se abanca a questão do patrimônio histórico e seu artefato, a sua relevância histórica e a importância cultural para o povo, que identifica o bem como agregado na identidade dos locais.

O Patrimônio Histórico tem que ser preservado necessariamente dentro de um padrão que se exige as normas constitucionais. Não há salvo conduto, embora a crítica aos órgãos responsáveis seja necessária, uma vez que – mais que agregado à questão de memória e responsabilidade sobre determinado patrimônio – muitas vezes recaia na politicagem pura e simples, tão danosa para os fins a que vieram.

Cine Capitólio, anos de 1930.

Cine Capitólio, anos de 1930

A memória tem vida e exprime suas relações no cotidiano das coisas, das pessoas, se fazendo presente num simples relance de vistas, num deslocar espacial.

É assim que, voltando o tape do tempo, chego até ao Clube dos Caçadores, alí em Santa Terezinha, beirando a BR 230. Não mais vejo a decrepitude em que se encontra um dos mais afamados lugares do lazer campinense; somente ouço os “Pholhas” tocando “My mistake”, num salão cheio de “minas” bonitas, momento muito divertido e interessante. Lembro-me do Clube onde se praticava tiros, uma confraria de caçadores e que tinha um pequeno zoológico.

Soçobro nas recordações de Ermírio Leite sobre o Casino Eldorado. Em sua rememorações, Ermírio relata que, por volta dos seus 15 anos, foi levado por Antonio Ribeiro (Tota Ribeiro) numa tarde, pois à noite só entraria a partir dos 18 anos. Aquele “lugar de perdição”, cuja memória pérfida do passado hoje é acalentada com uma saudade estranha pela memória coletiva da cidade que o vivenciou, é rememorado por mim a partir das reminiscências de outrem, que o viveu, veja só! Segundo a descrição de Ermírio, o ambiente era composto por: “um salão altamente luxuoso, com um tapete vermelho ao centro e em volta das mesas, o palco, do lado direito de quem entrava, tinha um recepcionista na chapelaria para se guardar chapéus, capas, guarda-chuvas e no segundo pavimento ficavam os quartos. Mulheres bem vestidas, elegantes e quem fazia a apresentação dos atores, dos cantores e das dançarinas, era o Príncipe Mário, sujeito bonito, muito elegante, de gravata, bem vestido.”

E nessas lembranças, me remeto à visão do meu pai, quando estive com ele algumas vezes na Feira Central, ainda meninote, que me falava do Eldorado, do seu tempo de ouro, seu glamour. Ele era jogador inveterado, sempre que podia, estava em uma mesa de jogo, às vezes bilhar, perdendo ou ganhando.

Graças ao poder da memória lembro-me das festas do GRESSE – Grêmio dos Subtenentes e Sargentos do Exército era localizado no Alto Branco, hoje, Jardim Tavares. Naquele lugar, por ocasião de um show de Ângela Maria e João da Praia, rememoro João da Praia entoando seu maior sucesso Aonde a vaca vai o boi vai atrás, ao som de um violão (acho…) com uma corda e de poderosa vaia. Lembro também de Ângela Maria, que aproveitou o ensejo e deu uma lição de profissionalismo e de boa educação ao público presente, ao defender o rapaz e sua pobre apresentação. Reclamava ela que atentassem o público pagante para o fato dele ser novo na arte musical.

Gresse. - Retalhos Históricos de Campina Grande.

Gresse – Retalhos Históricos de Campina Grande

E dando comando novamente à memória vou adiante, e chego até ao presente tentando vislumbrar um futuro, porém, é de costas que me espelho no passado e cato toda história que a memória resgata e a transforma em tempo presente massageando o instante, e a reminiscência que aflora com sabedoria a memória afetiva.

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* Advogado/Mestre em Literatura e Interculturalidade/Ensaísta.

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