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João, Maria, Pedro

Jurani Clementino. Publicado em 1 de junho de 2017 às 13:06

Por Jurani Clementino (*)

 João tem pouco mais de vinte anos. A maior parte deles vividos intensamente como um gay excêntrico. As pessoas gostavam de dizer que ele era “afetado”. Mas o que se comentava mesmo, era que ele era uma “bicha fechosa”. Numa cidadezinha de dez mil habitantes, não era pra menos. Quando tinha oportunidade, João se vestia de mulher. Comportava-se publicamente como uma lady. Não abria mão de batons fortes, glitter, maquiagem no rosto. Equilibrava-se, com agilidade e elegância, numa sandália arezzo, salto quinze. Pra ser mais exato, sambava na ponta dos pés. Chama a atenção de todos. Não podia ouvir as musicas de Ivete, Beyonce, Lady Gaga que rebolava lindamente, “fechosamente” diriam as invejosas. João roubava pra si a atenção de todos.

Certo dia, do mês de junho, ele decidiu organizar uma quadrilha junina na comunidade em que morava. Delicado para certas tarefas, coube a João, selecionar tecidos e confeccionar os vestidos das meninas da quadrilha. Junto dele, à frente da organização, estava Maria. Uma dona de casa. Mãe de família. Casada. Também apaixonada pelas festas da colheita. João e Maria passaram a comprar os tecidos, desenhar os trajes, costurar as peças de roupa, enfim, organizar a festa. João vivia na casa de Maria. Já o marido dela, Pedro, passava o dia trabalhando. Naturalmente que João era do tipo que não metia medo a marido nenhum. Afinal de contas, aparentemente, João era uma quase mulher. Até que, certo dia, Maria resolveu implicar com o esposo sem motivo aparente. Brigava todos os dias com ele. Não havia razão pra isso. O pobre de Pedro não entendia aquela mudança repentina de comportamento da esposa. Desconfiou que ela estivesse interessada em outro. Suspeitou de um primo. Jamais suspeitaria de João.

Maria continuava implicando com Pedro. Até que decidiu se separar do esposo. Pediu divorcio e foi morar com João. Isso mesmo, como marido e mulher. Isso gerou uma polêmica dos diabos na comunidade dos dois. Como pode isso acontecer? João era mais mulher que Maria!! E agora!? Quase um ano depois, as fofocas continuam. Contudo, a única coisa mais ou menos concreta é que Maria está grávida de João. Vem aí o primeiro filho deles. Uma menina. João se diz realizado ao lado de Maria, mesmo ninguém acreditando nisso. E quem se importa?! Ah, quer saber, nada está completamente decidido nesse mundo. Viva João! Viva Maria! E boa sorte ao esposo traído, Pedro. Que em breve ele encontre uma nova Maria, ou quem sabe um João.

Campina Grande – Terça-feira 30 de maio de 2017

(*) Jornalista, escritor, professor

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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