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João do Vale não precisa ser descoberto, precisa ser cantado!

Ribamildo Bezerra. Publicado em 4 de junho de 2016 às 11:18

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* Por Ribamildo Bezerra

Não acredito que doce de leite faça poeta, nem que um diploma defina um Doutor. Para ser poeta tem que correr vida nas veias, com a cor do sofrimento, e o pulsar da vitalidade.

João do Vale era um poeta puro, forjado na vida, sem firulas acadêmicas. Brotado das terras maranhenses, cantava o que via e nunca aceitou sua alma cativa. Era uma vertente autêntica de um Brasil oral, cantado nas ruas, feiras, garimpos, engajado não por ideologias, mas pelo sofrimento e discriminação.

Nascido no povoado de Lago da Onça, em 11 de outubro de 1933, foi batizado João Batista Vale, um dos cinco filhos do casal de agricultores, Cirilo e Leovegilda. Era um criador alquímico. Sabia transformar adversidades em pérolas musicais diluídas em seus baiões e sambas. Se americano fosse juraria que teria sido um grande bluesman, alguém para dividir o espaço histórico com o mítico Robert Johnson. Mas Pedreiras no não era a Memphis, nem o Rio Mearim o Mississipi. João do Vale é que sempre foi nosso. Tão nosso que você leitor já deve ter cantado uma ou várias de suas músicas e mal sabe disso:

A ema gemeu no tronco do juremá (2x)/Foi um sinal bem triste, morena/Fiquei a imaginar/Será que é o nosso amor, morena/Que vai se acabar?…

(Canto da Ema)

Logo ao chegar em Pedreiras, uma das maiores cidades produtoras de arroz do Maranhão, foi morar na Rua da Golada (soa algo familiar?) e lá não só tinha vistas para o Rio Mearim mas dele retirava água para consumo e higiene da família, pois a política de saneamento básico não estava na cartilha dos Coronéis como prioridade para os mais pobres da época. Mas nada que no futuro, na mente genial de João que não se subvertesse em uma marcante e compassado xote:

Um dia desses/Fui dançar lá em Pedreiras/Na rua da Golada/Eu gostei da brincadeira/

Zé Cachangá era o tocador/Mas só tocava/Pisa na fulô…

(Pisa na Fulô)

Porém, foi um marcante e decisivo episódio que viria soltar as amarras, se é que existiam algumas, do jovem garoto negro, que ainda sonhava que na escola iria ser alguém. Durante o terceiro ano primário, foi obrigado a ceder a sua vaga na escola para um filho do coletor que acabava de chegar em Pedreiras. Sua revolta foi tão grande, que consciente de que por ter sido negro e pobre foi o escolhido para a troca, prometeu nunca mais entrar numa escola, reafirmando seu intento no ato de jogar pedras naquela instituição, simbolizando uma cicatriz que somente a poesia iria minimizar.

Preferiu ser forjado nas ruas, vendendo mungunzá e pirulito e lá seus versos livres, ganhava o povo, por sua simplicidade, porém de uma beleza tocante até para jingle dos seus produtos:

Pirulito, enrolado no papel, enfiado no palito/ papai eu choro, mamãe eu grito/ me dê um tostão pra comprar um pirulito

Para uma alma inquieta como a de João nas asas de uma poesia autêntica, Pedreiras logo seria pequena demais para ele, e logo depois de tentar a vida em Fortaleza, Teresina e Salvador, onde trabalhou em circo, como garimpeiro e ajudante de pedreiro, João do Vale levava na bagagem o verniz poético de um criador nato, e a cada experiência, novos baiões iam surgindo:

Deu meia noite, a lua faz o claro/Eu assubo nos aro, vou brincar no vento leste/

A aranha tece puxando o fio da teia/A ciência da abeia, da aranha e a minha

Muita gente desconhece/Muita gente desconhece, olará, viu?/Muita gente desconhece/

Muita gente desconhece, olará, tá?/Muita gente desconhece…

(Na Asa do Vento)

Os elementos da poesia de João do Vale são naturais. Matizes colhidas nos caminhos das experiências, filtradas em um olhar onde a rudeza se harmonizava com um senso pueril sem que isso fosse sinônimo de conflito ou estranheza.

No início dos anos 50 desembarca no Rio de Janeiro. E aquele ajudante de pedreiro, tendo as construções como guarida, logo se aventura nas noites boêmias cariocas, e não demora muito para que sua verve poética venha a ser conhecida, por nomes como Tom Jobim, por exemplo, que ressaltava a força e a autenticidade da poesia.

Ainda levava balde de massa nas construções quando ouviu certa vez Marlene, uma das vozes de ouro do Rádio, cantar uma das suas pérolas, de Teresina a São Luiz, e riu muito quando ninguém acreditava que ele era o autor daquele baião.

Diz Luiz Vieira que de tanto conviver com intelectuais, João já escrevia coisas que nem ele mesmo conhecia…mas era falando do povo e da sua gente que João era um gênio sem diploma:

Seu Malaquia preparou/Cinco peba na pimenta/Só do povo de Campina/

Seu Malaquia convidou mais de quarenta/Entre todos os convidados/Pra comer peba foi também Maria Benta/Benta foi logo dizendo/Se ardê, num quero não…

(Peba na Pimenta)

Seu maior sucesso, “Carcará”, apresentado no famoso show-manifesto em Opinião, dirigido por Augusto Boal em 64, foi uma das grandes ironias dessa vida. A música se tornou o hino de resistência dos estudantes da época. Logo esta canção, criada por um compositor analfabeto, que pedia favores aos outros para ver sua poesia escrita. Por causa disso João, o menino pobre preterido na escola de Pedreiras para um filho de um funcionário público, viria a receber o título de Poeta do Povo pela Universidade de São Paulo.

A luta poética em vida deu um caráter de vitória no momento de sua morte, em dezembro de 1996, vítima de um AVC. João do Vale imortalizou-se por sua obra, sendo eleito o Maranhense do Século. Enterrado em Pedreiras, saiu de cena no tempo certo para não ver calcinhas, chifres e bebida sendo mote para versos…Afinal hoje em dia para a boa poesia…vale o que já foi cantado…muita gente desconhece o lará, viu? Muita gente desconhece…

*  Jornalista

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