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Jesus o Pão de Deus

Padre José Assis Pereira. Publicado em 11 de agosto de 2018 às 16:33

O profeta Elias (cf. 1Rs 19,4-8), deprimido e solitário face à incompreensão e à perseguição de que é alvo, sente que falhou, que a sua missão está condenada ao fracasso; sente medo e está prestes a desistir de tudo: “Agora basta, Senhor! Tira a minha vida” (v. 4).

Este pedido do profeta reflete o seu profundo desespero. Neste contexto, o amor de Deus vai se revelar: “Levanta-te e come! Ainda tens um caminho longo a percorrer” (v. 7). É a confirmação de que Elias não está abandonado por Deus. A cena garante-nos a presença contínua de Deus e o seu cuidado com aquele que chama e a quem dá o alimento e o alento para ser fiel à missão, mesmo em contextos adversos.

Repare-se como Deus não anula a missão do profeta, nem elimina os perseguidores; mas limita-se a dar ao profeta a força para continuar. Alimentado pela força de Deus, ele caminhará durante “quarenta dias e quarenta noites até ao Horeb, o monte de Deus” (v.8).

Elias testemunha essa condição de fragilidade que está sempre presente na nossa experiência de fé. É um quadro que todos nós conhecemos bem. A nossa missão profética está, muitas vezes, marcada pelas incompreensões e perseguições; outras vezes, é o sentimento da nossa impotência no sentido de mudar o mundo que nos angustia e desanima; outras vezes ainda, é a constatação da nossa própria fragilidade, dos nossos limites, da nossa finitude que nos assusta.

Como responder a um quadro deste tipo e como encarar esta experiência de debilidade? A solução será desistir ou abandonar a luta? Quem pode ajudar-nos a enfrentar o drama da decepção? Atentemos na forma de atuar de Deus: Ele não resolve os problemas do profeta. Elias deve continuar, enfrentando os mesmos problemas; mas Deus “apenas” o alimenta.

Por vezes, pedimos a Deus que resolva milagrosamente os nossos problemas, enquanto nós ficamos de braços cruzados, a olhar para o céu. O nosso Deus não ocupa o nosso lugar, não estimula com a sua ação a nossa preguiça e instalação; mas está ao nosso lado sempre que precisamos d’Ele, dando-nos a força para vencer as dificuldades e indicando-nos o caminho a seguir. 

Esse pão e essa água que revigorou o profeta Elias, é para nós cristãos, prefiguração do pão descido do céu, que é o próprio Jesus. É tal a força desse pão divino que vence toda amargura. Esse pão do céu tem sustentado e dado força a milhões de milhões de seres humanos no transcurso dos séculos. A Eucaristia não só a fonte e o centro de toda vida cristã, mas também a maior força do cristianismo.

Quando parece que nada tem interesse e que está tudo perdido, fica a secreta energia de um “pão” que pode revigorar-nos se escutarmos Deus e acreditarmos em Jesus Cristo, Palavra do Pai e Pão da vida. Ambas as realidades, a fé e o pão eucarístico, darão vida eterna. É o ensinamento de Jesus no evangelho de hoje.

Seguimos contemplando o capítulo 6 do Evangelho segundo João (cf. Jo 6, 41-51). No domingo passado, escutamos que os judeus se entusiasmaram pela revelação feita por Jesus acerca do “pão da vida” e até disseram: “Senhor, dá-nos sempre deste pão!” (Jo. 6,34) Hoje, esta situação mudou:

“Os judeus murmuravam, então contra ele, porque dissera: “Eu sou o pão que desceu do céu”. (v.41) Protestaram dizendo: “Não é este Jesus, o filho de José? Não conhecemos seu pai e sua mãe? Como então pode dizer que desceu do céu?” (v.42)

É a mesma oposição que Jesus encontrou quando foi a Nazaré e seus parentes não o aceitaram (cf. Mc 6,1ss). É que a sua encarnação escandaliza e é a razão da incompreensão dos lideres judeus. Jesus não irá responder, mas sim aprofundar o significado do pão da vida: “Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo”. (v. 51)

Quando o evangelho de João foi escrito existia um confronto entre judeus e cristãos provenientes do paganismo e do judaísmo. As comunidades cristãs tiveram, desde o início, de se firmar muito bem para defender com energia e convicção o significado de Jesus para a história da humanidade. O texto que nos é hoje proposto apresenta-nos uma dessas histórias de confronto entre cristãos e judeus ou entre Jesus e as lideranças judaicas.

Os judeus não aceitam Jesus se apresentar como “o pão que desceu do céu”. Eles conhecem a sua origem humana; e, na sua perspectiva, isso exclui uma origem divina. Em lugar de discutir a questão da sua origem, Jesus prefere denunciar aquilo que está por detrás da atitude negativa dos judeus face à proposta que lhes é feita:

O Pai apresenta-lhes Jesus e pede-lhes que vejam nele o “pão” de Deus para dar vida ao mundo; mas os judeus, instalados nas suas certezas, amarrados às suas seguranças, já decidiram que não precisam deste “pão” de Deus. Não estão, portanto, dispostos, a escutar nem a acolher Jesus, “o pão que desceu do céu”.

Então diz Jesus: “Quem crê, possui a vida eterna” (v. 47). Crer, não é neste contexto, aceitar que Ele existiu, conhecer a sua doutrina. Crer é aderir de fato a essa vida que Jesus nos propôs, segui-lo no caminho do amor, do dom da vida, da entrega aos irmãos; é fazer da própria vida, como Ele fez da sua, pão para a vida do mundo: “quem comer deste pão viverá eternamente” (v. 51). O pão que Jesus oferece sacia verdadeiramente a fome de vida.

“Os vossos pais comeram o maná no deserto, no entanto morreram” (v. 49). O “maná” representa aqui todas as propostas de vida que, tantas vezes, atraem a nossa atenção e o nosso interesse, mas que vêm a revelar-se falíveis e ilusórias, porque não geram vida plena. É preciso aprendermos a não colocar a nossa esperança e a nossa segurança no “pão” que não sacia a nossa fome de vida definitiva; é necessário aprendermos a discernir entre o que é ilusório e o que é eterno; aprendermos a não nos deixarmos seduzir por falsas propostas de realização e de felicidade; a não nos deixarmos manipular, aceitando como “pão” verdadeiro os valores e as propostas que a opinião pública dominante continuamente nos oferecem.

Nunca como hoje, a humanidade ou grande parte dela, dispõe de tantos avanços tecnológicos e recursos ou bens materiais em abundância e, em contraste, tanta escassez e desigualdades. Nunca como hoje, a humanidade, teve tanto e nunca teve tanta sensação de insatisfação, de infelicidade. Algo ocorre em nosso globo quando, tantas pessoas, dizem ter pouco apego à vida e tanta adesão à “cultura de morte”.

Quando as drogas, o suicídio ou outras práticas de risco se convertem em uma chamada de atenção que nos deveria fazer refletir: a vida, não só é ter, açambarcar, conquistar, acumular, consumir ou comer. É muito mais. Temos que descobrir ou chegar a algo mais que lhe dê sentido.

Não é de estranhar, precisamente por isso, que muita gente encontre no saudável desprendimento, na entrega generosa aos outros, muitas razões para viver ou sentir-se realizado. E, ao contrário, não é de estranhar tampouco que outros – tendo tudo – não saibam o que tirar para alcançar um equilíbrio razoável em sua vida.

Onde está a resposta? Para nós, os cristãos, em Cristo, Pão da vida. E a partir daí temos de trabalhar. A exterioridade, a aparência, o material e o puramente superficial, se podem converter em um cruel muro que nos impede a dar o salto da fé em Deus.

Aos judeus lhes aconteceu o mesmo: estavam tão aferrados à lei e aos seus próprios privilégios que passar do código de normas à boa nova de Jesus lhes resultava escandaloso, impossível, inadmissível. Entre outras coisas porque, aquilo supunha desmontar muitas ideias e muitos interesses.

Hoje, como antes, também nos encontramos com o mesmo dilema dos judeus. Não será no fundo que seguimos sem crer no Deus encarnado? Não será que, muitos, seguimos pensando que Deus é um Deus a nosso desejo e submetido à nossa própria lei? Sigamos na busca e no conhecimento de Deus, alimentados e crendo em Jesus o Pão de Deus, o Pão da vida.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

falecom@fhc.com.br

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