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Istambul, istambulus

Josemir Camilo. Publicado em 18 de julho de 2016 às 22:11

Por Josemir Camilo

Por indicação do amigo, historiador, Alarcon Agra, fui ler Istambul (Companhia das Letras, 2007), do prêmio Nobel de literatura, Orhan Pamuk, em busca de subsídios literários para rascunhar algumas memórias e, principalmente, porque envolve a história da cidade. Por coincidência, a indicação fora depois do ataque terrorista ao aeroporto daquela cidade. Agora, Istambul volta a ser palco da mídia e do ódio. Como mergulhar em Istambul? De que lado?

O atual golpe (julho/2016) teria sido contra o conservadorismo e autoritarismo do presidente, que já vinha comandando o país, como Primeiro Ministro, há 11 anos e agora fora eleito, em 2014, presidente. Seu partido tem apoio dos muçulmanos e ele tem reprimido movimentos sociais e até a imprensa, chegando até a pensar em pena de morte. Por outro lado tem forte apoio de parcela da população. Mas, fiquemos em Istambul.

Talvez seja a cidade que todos desejem conhecer, pelo melting pot que apresenta, mas antes de prosseguir em alguma descrição, pulo logo para uma releitura que o autor faz de um ‘fato’ histórico, a tal ‘Queda de Constantinopla pelos turcos’. Não é assim que aprendemos numa historiografia que se pretende ser verdadeira, universal? Pamuk nos alerta que isto é uma criação ocidental e, no fundo, cristã. Não é queda, nos diz, é a Conquista de Istambul, em 1453. Isto foi revigorado, a ‘istambulização’, principalmente pelo nacionalismo turco.

Quem diz Constantinopla está a dizer cidade dos gregos ortodoxos (bizantinos) que a comandaram por 1.100 anos, submetendo os turcos muçulmanos à sua dominação (lavagem cerebral?). Nos últimos 50 anos, a população grega, que já foi dominante, tem diminuído na Turquia, por conta de agressões nacionalistas turcas, a partir do quinto centenário desta polêmica Queda/Conquista de Constantinopla/Istambul.

Com 50% da população mulçumana, a democracia vacila entre esta e minorias, como gregos, armênios (e Pamuk é um dos que acusam o Estado Turco pelo genocídio dos armênios e já teve de responder à justiça por isto), judeus e curdos (em tempo: em minha residência universitária, em Londres, quando pesquisador da CAPES, conheci um cineasta curdo e vi filmes deste povo, que espera paciente e, mais das vezes, ‘bombasticamente’, por sua independência).

O livro de Pamuk é lindo, ricamente ilustrados, mas, infelizmente, em branco e preto. Não se enquadra numa classificação acadêmica, editorial, definida (como antecipara o amigo); é memória, biografia, arte, é história e é, antes de tudo, cidade. Pamuk nos guia num passeio, como um dandy freyreano (?), proustiano (?), pintor que é, e fino escritor um escritor com rara sensibilidade, pelas ruas e passados turcos, um verdadeiro istambulus de classe alta que já fora, e que, em sua juventude, fora de esquerda, que a viu se digladiando pelos corredores das universidades. Dá espaço ao nacionalismo turco, mas o refreia; mostra o país dividido entre o ocidente e o oriente, Europa e Ásia, entre o cristianismo e o islamismo; entre o passado e a herança do Império Otomano, derrubado na Grande Guerra de 1914/19; se identifica com esta ocidentalização, mas sofre de uma ‘hüzün (o termo mais próximo parece ser tristeza, nostalgia) de uma aura e de um era passadistas, que toda a cidade, segundo o autor, parece carregar às costas e na alma. É como se um espírito vivesse desde a antiga colônia grega de Bizâncio, à cristianização de Constantino, em quase suas 5 décadas de reinado (até o ano de 337), que oficializou o cristianismo, por mais de um milênio de hegemonia cristã-greco-bizantina, trocando a identidade da velha colônia para uma cidade internacional com seu nome. Depois desta hegemonia veio a mulçumana de quase 500 anos, a partir de 1453, para retornar a um estado laico com a revolução de Ataurk e um alfabeto turco ocidentalizado, por volta de 1920/8.

A república turca de hoje é filha daquela implantada por uma revolução (os otomanos chamariam de golpe?) pelo oficial do exército Kemal Ataturk, que fez o país se despedir do passado otomano e se ‘modernizar’ à la ocidente e por um Estado laico contra o religioso que parece querer retornar.

Os jovens turcos (primeira década do século XX) e a revolução liderada por Kemal Atartuk significaram o banimento do sultão, o fechamento do harém, e dos mosteiros dos dervixes; os janízaros não mais existiam desde a terceira década do século XIX, agora era a vez dos ‘jovens turcos’ que tiveram influência, até, como supostos modelos, na política brasileira, como os dissidentes epitacistas, na Paraíba se autodenominaram, por volta de 1916, e, quem sabe, o movimento tenentista.

Portanto não é de se estranhar uma tendência militarizada para tentar por em alguns trilhos uma pesada máquina histórica com tantas composições, tanto étnicas, quanto religiosas e fronteiriças, e o controle respectivo de seus diversos setores econômicos, sociais, culturais. De 1960 para cá, já houve cinco golpes de estado, militarizados, contando com este de agora. A crise continua numa democracia que vacila entre uma democracia multiétnica e uma tentativa regressista e repressiva que, aqui e acolá, representa um setor perseguido ou insatisfeito com o andar ou atropelo desta temporalidade presa e esta volatilidade do presente.

A mistura e conflito não se dão em contradições internas apenas, pois o país tem fronteiras (muitas delas, beligerantes) com Irã, Iraque, Síria, Grécia, Rússia, Bulgária. Hoje, a manutenção de certa memórias e práticas se mantêm por atividades clandestinas de cada grupo étnico ou religioso. Os sufis, comunidade contemplativa derivada do Islã, banida, tem suas práticas clandestinas ou afastadas dos grandes centros, mantinha, no passado otomano, seus conventos e mestres dervixes, a divinização do espírito pela dança, de origem persa e talvez tibetana. A tradição da militarização turca pode estar ligado a certo orgulho e passado dos janízaros (tropa de elite do Império Otomano, por quase quatro séculos, constituída de soldados-escravos, geralmente crianças cristãs escravizadas para servir na tropa); a cultura otomana do harém, seus salões, mulheres que amavam mulheres, como fora pintado por pincel ocidental, num passado que se poderia achar isto incrível; a cultura que a isto circundava, concubinas, poligamia e mulheres educadas, cortezãs. O próprio Pamuk, quando pequeno conheceu uma senhora casada, que jogava cartas com sua avó e que se tratavam de ‘madame’, tinha sido do último harém, quando adveio a República.

Além de tudo isto já resumido, aqui, em termos étnicos, sociais e religiosos, Istambul, coração da Turquia, é uma cidade dupla, europeia, de um lado do Bósforo e, asiática, do outro. E, mais do que esta ambivalência, o país vive o calo histórico, entre gregos e turcos, em termos geopolíticos, que tem persistido até hoje, com a divisão da ilha de Chipre, independente como país, mas a Turquia mantém quase 40% da ilha para os turcos-cipriotas, onde os greco-cipriotas só entram com passaporte.

Talvez se possa fechar este artigo com a opinião de Pamuk sobre estes golpes. Diz ele: “Se a burguesia ocidentalizada de Istambul deu apoio às intervenções militares dos últimos quarenta anos, nunca se opondo com muito vigor à interferência militar na política, não foi porque temesse um levante esquerdista (os turcos que restaram neste país nunca tiveram a força suficiente para tanto); na verdade, a tolerância dos militares pela elite tinha suas raízes no medo de que um dia as classes inferiores juntassem forças com os novos-ricos que afluíam das províncias para abolir o modo de vida burguês ocidentalizado sob a bandeira da religião. Mas seu me estender mais sobre golpes militares e o islã político (que tem muito menos a ver com o Islã do que se pensa), corro o risco de destruir a simetria deste livro”.

Grande Pamuk!

 

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

falecom@fhc.com.br

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