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Isadora, Sofia, Belinha…

Jurani Clementino. Publicado em 9 de março de 2017.

 

Por Jurani Clementino (*)

Admiro quem tem animal de estimação em casa. Às vezes penso em criar um cachorro. Penso, logo desisto. Acho fofo, mas não tenho coragem. Sou um fraco. Graças a Deus. Tentarei explicar. Você vai entender. Para isso, citarei apenas três casos ilustrativos. Meu Primo e sua cachorra Belinha, meu vizinho e sua gata Sofia, e uma colega de trabalho contando as aventuras carnavalescas da cachorra vira lata Isadora. Três histórias, três traumas, três diferentes emoções. Vejamos.

Sobre Belinha, já publiquei um texto aqui nesse espaço, narrando o desespero de meu primo no dia que a danada da cachorra resolveu dar a luz. Coube a mim, auxiliar o parto de Belinha através de consultas no Google. Era a cachorra parindo e ele sentindo as dores. Uma noite de agonia. Chorava ele, chorava a mãe com o sofrimento da danada da cachorra. Horas de tortura e finalmente, três filhotes. Duas sobreviveram: Laila e Lyla. Hoje Belinha está velha e cansada. Já entregando os pontos. Fico imaginando quando ela resolver partir de vez. Quero nem pensar no sofrimento do dono.

Meu vizinho dizia que não gostava de gatos. Achava-os falsos e interesseiros. Certo dia me apresentou a gata Sofia, seu novo investimento sentimental. Ela se transformou numa espécie de troféu. Ele viva se gabando da gata. Coisa linda pra cá coisa linda pra lá. Comprava areia pra ela fazer as necessidades, comprava ração, cama, coberto, produtos de beleza… a gata tinha uma vida de madame. A pobre da diarista de meu vizinho dava banho com ducha morna na gata e depois secava com toalhas limpas e cheirosas. Quando Sofia entrou no primeiro cio, sofria ele e sofria a gata. Disse-me: “Jurani, Sofia não consegue andar, vive tão triste, o que faço com ela?”. E eu, segurando a resposta. Poucos dias depois eu via Sofia se equilibrando na janela do apartamento de meu vizinho. Um quarto andar. Pronto, melhorou, imaginava. Eu via a hora a gata perder suas sete vidas de uma só vez. Cair e… adeus gata. Certo dia, um fim de tarde, estávamos caminhando no Canal de Bodocongó quando, tomado por um susto teatral (marca registrada dele) meu vizinho disse: “Olha onde Sofia estar!?” Ao que respondi: “que história menino! Que danado Sofia tá fazendo aqui”. E segui caminhando para não perder o ritmo. Insistente meu vizinho disse: “Jurani aquela gata é Sofia”. E eu abusadamente retruquei “que danado de Sofia, vamos caminhar”. Quando nos distanciamos da gata e sua vida de favela, ao lado de outros gatinhos, ele disse: “menino eu não te contei!? SOFIA FUGIU”. Resumindo numa dessas crises do cio de Sofia, ele compadecido, desceu com a gata, soltou no condomínio e ficou observando a bela, recatada e do lar, Sofia, paquerar os gatinhos que ali estavam. Resultado ela fugiu pra nunca mais voltar. Deixou-o a ver navios. O pobre. Bye bye querido!

Essa semana, mais um caso. A cachorra de estimação, de uma irmã de uma amiga minha, resolveu passar o carnaval fora de casa. Danadinha ela! Resultado: estragou a festa de momo de toda a família de minha amiga. O pai e a mãe que tinham ido pra Cajazeiras voltaram aos prantos por causa de Isadora (a cachorra fugida). Pra que a irmã não morresse do coração, ou fretasse um avião de Maceió a Campina Grande, minha amiga omitiu o fato até as últimas circunstancias. A minha amiga ficara responsável por cuidar de Isadora, durante o carnaval, já que a irmã (dona da cachorra) ia viajar. Minha amiga saiu pra tomar uma cerveja no domingo de carnaval (o que é de lei né?) e quando voltou, cadê a cadela? Isadora que não é boba nem nada, tinha aproveitado pra sair também. Loucura geral. Por morar no bairro da Palmeira, logo ela imaginou que a cadela tinha ido pras bandas do Jeremias, Jenipapo, Buraco da Jia, Araxá … não pensou duas vezes: colocou a foto de Isadora com uma recompensa imaginaria de 500 reais num panfleto e saiu distribuindo pelas redondezas. Disse que forneceu seu WhatsApp a todos os maloqueiros da região. E mais, entrava nas igrejas durante cultos e missas e pedia que distribuíssem as informações sobre o sumiço da cachorra nas redes sociais. Três dias de sofrimento ininterruptos. Até que, na terça-feira de carnaval, eis que, duas horas da madrugada (adoro cachorras malandras), Isadora bate no portão. O pai de minha amiga escuta e vai ver quem estava chegando. Felicidade geral da nação. ISADORA VOLTOU!

Por essa e outras prefiro, por enquanto, a solidão de uma casa sem animais de estimação. Ser recebido pelo silencio de um apartamento vazio. Já comentei com meu primo sobre o dia do adeus a Belinha. Meu vizinho disse que não quer mais Sofia nem pintada de ouro. E minha colega de trabalho não consegue viver sem um gatinho (de estimação) em casa. Acho fofo, repito, mas sou muito sentimental.

Campina Grande – 09 de março de 2017

(*) Jornalista, Escritor, Professor

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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