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Inadimplência e endividamento

Arlindo Pereira de Almeida. Publicado em 19 de setembro de 2018 às 8:35

No ardor da campanha eleitoral, muitas ideias são lançadas pelos que disputam cargos públicos, principalmente no poder executivo. Umas malucas, outras inexequíveis e algumas merecedores de uma avaliação mais aprofundada.

Queremos nos deter hoje na questão da inadimplência que já atinge aproximadamente 62 milhões de pessoas, que equivalem a 30% da população de nosso país. Em levantamento da Serasa Experian, “empresa brasileira de análises e informações para decisões de crédito e apoio a negócios”, a dívida dessas pessoas alcança um valor de R$ 272,5 bilhões, o que significa R$ 4,4 mil por indivíduo.

Importa salientar que o baixo nível de crescimento da economia cria uma espécie de “camisa de força”: o desemprego se mantém em níveis elevados, e, consequentemente, cai o poder de compra e de honrar os compromissos.

Partindo da hipótese de renegociar essas dívidas, que estão “inchadas” pelas exorbitantes taxas de juros cobradas no país, seria possível imaginar alguns cenários.

O componente individual de maior peso nessa avaliação é o de financiamentos bancários, cheque especial e cartão de crédito, que corresponde a 30,1% do total, ou seja R$ 82 bilhões. Os demais componentes da inadimplência – contas básicas (água, luz e gás), telefonia, compras no varejo, financiamentos, leasing, condomínio, e outros – montam a R$ 190 bilhões.

Fatiando o problema em duas soluções, teríamos que renegociar com os bancos e com outras empresas não bancárias uma dívida que supera em muito o orçamento da educação e da saúde no próximo ano, perto de R$ 252 bilhões.

É bem verdade que as dívidas bancárias estão infladas pelas exageradas taxas de juros; o cartão de crédito, nos maiores bancos, está na faixa superior a 10% e o cheque especial em patamares um pouco mais elevados. Se fosse possível um rebate (desconto) de 50% no montante da dívida, ainda assim, seriam necessários recursos da ordem de R$ 41 bilhões, ou 16% do orçamento da educação e da saúde em 2019.

É de se esperar que as instituições bancárias refinanciem as dívidas, sem grandes dificuldades, pois possuem poderosa estrutura financeira.

Restaria tratar a inadimplência com outros credores, a forma de renegociação. Seria possível algum abatimento no valor da dívida acumulada em R$ 190 bilhões? Mesmo na hipótese otimista de uma redução de 50% – dificílima pelo perfil dos credores, empresas que não possuem as dimensões e a solidez dos bancos, nem suas margens de lucros, seriam necessários mais R$ 95 bilhões.

No conjunto, juntando bancos e outras empresas não financeiras, careceríamos de recursos em montante de R$ 136 bilhões. Em operações dessa natureza sempre há necessidade de recursos imediatos para servir como entrada. De onde sairia esse dinheiro? Do Governo, às voltas com déficit nas contas públicas?

Como seria amortizado o valor financiado?

Como se comportaria o brasileiro após esse perdão parcial?

À falta de uma educação para finanças pessoais, voltaríamos, com a mais absoluta certeza, a nos endividar futuramente, repetindo os erros do passado e criando nova bola de neve.

Como é um traço cultural inextirpável do brasileiro, as benesses temporárias do governo tendem a se cristalizar, como nos excelentes programas de cunho social, modelo para todo o mundo, que nasceram com data certa para terminar e, por falta de controle, continuam a sorver recursos de um orçamento minguado. No caso da inadimplência corremos o risco de, daqui a algum tempo, o atraso nos pagamentos voltar a nos assombrar.

É interessante atentar para algumas particularidades do perfil dos endividados, estabelecendo um padrão de tratamento especifico para cada um deles.

1º – A maior taxa de inadimplência está para as pessoas entre 36 e 40 anos de idade, mas a faixa etária em que mais cresceu o atraso nas contas foi a da população acima de 61 anos, justamente o grupo que conta com grande número de aposentados. Dos idosos do país, com ficha suja no SERASA, 21,4% estavam em São Paulo, 12,2% no Rio de Janeiro e 9,9% em Minas Gerais; já os jovens – 18 a 25 anos – mostram a menor taxa de endividamento e a maior queda entre junho de 2016 e julho de 2018 (-2%).

2º – Segundo o estudo, a região com maior percentual de pessoas com dívidas atrasadas é a Sudeste, com participação de 45,2%. Em seguida vêm: Nordeste, com 25,2%, Sul, 12,8%, Norte, 8,8% e Centro-Oeste, 8,1%. Releva notar que as regiões Sudeste e Sul, as mais desenvolvidas, tem níveis de inadimplência superiores a participação no total da população do país (41,8% e 14,3%, respectivamente)..

O estado com maior percentual foi Roraima com 58,5 e a Paraíba obteve a melhor performance com 33,2%, em melhor posição que Santa Catarina (33,8%) e Rio Grande do Sul (33,8%).

Pelo formidável impacto sobre a economia, repetimos: esse ajuste nas contas pessoais é matéria muito interessante e urgente, mas que necessita de estudo aprofundado, secundado por um amplo projeto nacional de educação em finanças pessoais, única forma de, senão eliminar, reduzir ao mínimo a tragédia da inadimplência das pessoas, fator inibidor do desenvolvimento e geração de novas oportunidades de emprego.

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