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Iluminação pública e luz interior

Benedito Antonio Luciano. Publicado em 25 de agosto de 2018 às 21:51

Na condição de pesquisador interessado pelo uso eficiente da energia elétrica, já orientei trabalhos monográficos de alunos de graduação e de pós-graduação sobre o tema, incluindo o desenvolvimento tecnológico voltado para a redução de perdas em sistemas de iluminação pública.

Geralmente, em um trabalho de pesquisa é comum a realização de um recorte histórico sobre o tema do trabalho. Foi pensando nisto que me vieram à mente dois textos: o livro “Do azeite de mamona à eletricidade: anotações para uma história da energia elétrica na Paraíba”, de autoria do engenheiro eletricista Marcelo Renato de Cerqueira Paes, e o soneto “O acendedor de lampiões”, de autoria de Jorge de Lima.

O elo entre os dois textos está nos sistemas de iluminação pública utilizados em tempos remotos, caracterizados pela presença dos lampiões que, para serem acesos, necessitavam da intervenção do acendedor de lampiões, profissão extinta nos dias atuais.

No caso específico da Paraíba, segundo o pernambucano Marcelo Cerqueira, “a primeira notícia que se tem de iluminação pública em João Pessoa data de 1822, quando o Governador mandou instalar na Cidade Alta vinte lampiões alimentados a azeite de mamona. Antes daquele ano, a iluminação a azeite existia nos conventos, nas portas dos quartéis, nas Igrejas e nas Casas de guardas do Palácio do Governo Provincial”.

No poema “O acendedor de lampiões”, um dos primeiros da fase parnasiana do alagoano Jorge de Lima, há no texto e no subtexto questões de ordem política, moral, filosófica e religiosa, conforme o leitor pode constatar ao ler as estrofes do soneto:

Primeiro quarteto: “Lá vem o acendedor de lampiões da rua! /Este mesmo que vem infatigavelmente/Parodiar o Sol e associar-se à Lua/Quando a sombra da noite enegrece o poente!”.

Segundo quarteto:  “Um, dois, três lampiões acende e continua/Outros mais a acender imperturbavelmente, /À medida que a noite aos poucos se acentua/E a palidez da Lua apenas se pressente.”

Primeiro terceto: “Triste ironia atroz que o senso humano irrita/Ele, que doira a noite e ilumina a cidade, / Talvez não tenha luz na choupana que habita.”

Finalizando, no segundo terceto: “Tanta gente também nos outros insinua/Crenças, religiões, amor, felicidade/Como este acendedor de lampiões da rua!”.

Efetivamente, se à luz da eficiência energética houve avanços nos sistemas de iluminação pública, passando dos lampiões alimentados por azeite de mamona para as atuais lâmpadas de LED (Light Emitter Diode, Diodo Emissor de Luz), o mesmo não se pode dizer com relação à clarividência humana.

Dos tempos remotos aos dias atuais, há muitos exemplos de quem “nos outros insinua crenças, religiões, amor, felicidade”, como aquele acendedor de lampiões da rua que talvez não tivesse luz na choupana onde habitava. Iluminação interior, no sentido figurado.

Nesse rol, podem ser incluídos muitos líderes políticos e religiosos. Pessoas que na falta de luz interior, tentam ofuscar os incautos com suas narrativas hipócritas, levando muita gente a cair no discurso falacioso e no proselitismo desses tigres de papel.

E, aos que acreditam nesses enganadores, o que falta é senso crítico, clareza de espírito e perspicácia que os permitam distinguir o joio do trigo e as luzes das trevas.

*O autor é professor Titular do Departamento de Engenharia Elétrica da UFCG.

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Benedito Antonio Luciano

Professor doutor, titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

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