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Campina Grande - PB

Ideologia de Gênero: para que ou para quem?

21/10/2017 às 21:00

Fonte: Da Redação

POR: Flávio Romero

Tenho acompanhado com especial interesse os comentários nas redes sociais que se multiplicam às centenas, no que se refere ao combate à Ideologia de Gênero, como uma ameaça “à moralidade, aos bons costumes e aos valores da família”.

Apesar de professor e pesquisar da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) que, inclusive, defendeu uma segunda tese de doutorado na Universidade de Salamanca (Espanha) cujo objeto: “estudo social e jurídico da construção da identidade das trabalhadoras domésticas no Brasil” perpassa, en passant, pela questão do gênero, numa perspectiva bem mais focada em aspectos que envolvem o universo patriarcal e a divisão social do trabalho, alicerçado nos gêneros, não tenho uma posição cientificamente consolidada sobre o tema.

Neste sentido, também não tenho lido nos comentários críticos à Ideologia de Gênero, qualquer fundamentação de natureza acadêmico-científica.

Reitero, portanto, que nem sou estudioso da citada ideologia e nem tenho fundamentação teórico-conceitual para sustentar um debate mais consistente sobre o tema. No entanto, como professor e pesquisador, gostaria de analisar os comentários contrários a ideologia, alicerçados em aspectos que não estivessem tomando como referência a moral e os costumes.

Por uma razão muito simples: moral e costume são dimensões subjetivas que socialmente vão se estabelecendo, construindo tessituras de padrões e marcadores sociais para um determinado povo e um certo contexto. Moral e costume não são aspectos iguais e comuns a todos os povos e sociedades. Mudam de acordo com diversos fatores. Apenas a título de exemplo, não há relação de semelhança entre a moral e os costumes dos povos muçulmanos e das civilizações de matrizes europeias. Assim, essa reflexão com base na moral e nos costumes não deve ser a trilha de análise crítica de quem faz e ajuda a construir o conhecimento científico.

A Ciência lida com paradigmas e não com dogmas.

Didaticamente, talvez fosse interessante que os opositores da Ideologia de Gênero informassem aos (às) leitores (as) dos seus comentários pelo menos os livros ou artigos científicos que fundamentaram suas contundentes críticas.

Caso contrário, se pode abstrair que os comentários críticos são absolutamente desprovidos de base científico-conceitual, expressando um “achismo” que vai sendo construído e se fazendo “forte”, inclusive como resposta à provocação feita pela novela “A Força do Querer”, produzida e exibida pela Rede Globo, que teve como autora Glória Perez e que ao introduzir na trama a questão dos conflitos vividos por um personagem transgênero, despertou o “gigante adormecido”, que se levantou para defender a moral, os bons costumes e os valores da família.

O que será que se passou na cabeça de milhões de brasileiros e brasileiras que assistiram, ao vivo e a cores, em horário nobre da TV hegemônica, o primeiro beijo de trans gay como desfecho da telenovela em seu último capítulo?

De minha parte, como falei anteriormente, tenho uma leitura superficial sobre o tema. Mas, tenho uma leitura política muito clara desse “fenômeno” de críticas à Ideologia de Gênero. E isso se deve a um traço da minha formação acadêmica – sou professor de metodologia científica. Assim, fui talhado a lidar com aspectos da dedução.

Basta analisar o perfil da maioria dos ácidos críticos para chegar a uma conclusão: há clara vinculação dessas pessoas às religiões ou aos movimentos políticos de tendência mais conservadora – sob a minha ótica, certamente.

Sei bem quais as forças que “despertaram” o gigante adormecido e quais os objetivos, inconfessáveis, que desejam alcançar.

Respeito, inclusive, quem se opõe a Ideologia de Gênero com base nos princípios religiosos e, portanto, dogmáticos. Estas pessoas estão no campo próprio de suas visões de mundo e merecem que suas opiniões sejam acolhidas com absoluto respeito. Afinal, não se pode exigir respeito quando não se tem.

Finalmente, apenas a título de sugestão para quem deseja fazer uma leitura mais científica do tema, passo a fazer algumas referências:

O primeiro registro que se tem da expressão está na obra “Who Stole Feminism?” (em Português, Quem roubou o feminismo?) , de 1994, escrita pela norte-americana Christina Hoff Sommers, doutora em Filosofia que se considera uma “feminista da equidade”, mas não uma “feminista de gênero”. Portanto, trata-se de um ramo do conhecimento que tem uma abordagem diferente do feminismo clássico.

Entre os expoentes da Ideologia de Gênero, cito Shulamith Firestone, autora do livro The Dialectic of Sex (A dialética do sexo), de 1970 e Judith Butler, autora do livro: Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity (Questão de gênero: o feminismo e a subversão da identidade).

Diversos autores e pesquisadores que se opõem à Ideologia de Gênero. Muitos alicerçam seus estudos nas Neurociências. Pessoalmente, fiz leituras de publicações do pedagogo Felipe Nery, presidente do Observatório Interamericano de Biopolítica, entidade crítica à teoria de gênero. Certamente, no campo científico, há muito a ser discutido. É a esse debate que a academia deve se propor.

Coisas de costume e de moral, deixemos para outros espaços sociais, a exemplo das Igrejas.

Isso é o que penso – hoje!

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