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Coluna de Jobson de Paiva Sales: Homo Economicus…? Ecce homo!*

Jobson de Paiva Sales. Publicado em 10 de abril de 2019 às 11:46

* Expressões latinas, sendo a segunda título de livro do filósofo Nietzsche e frase atribuída a Pôncio Pilatos.

“A ambição universal do homem é colher o que nunca plantou”

Adam Smith

Homem Econômico?

Respondamos: em substância, o que você deseja? E você, empreendedor? Ou você, empregado? Ou você, funcionário público? E você agricultor? Com o que sonha você, sem teto? Você autônomo? E quanto a você, investidor?

“Não é da benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que eu espero que saia o meu jantar, mas sim do empenho deles em promover seu auto interesse”. Asseverava o pai da economia moderna e do liberalismo econômico, o escocês Adam Smith, entronizado ao panteão dos grandes pensadores.  Postulou sua crença na regulação da “mão invisível do mercado” como mecanismo de ajuste suficiente ao funcionamento do cosmos econômico. Cada agente social estaria empenhado nos próprios intentos (você não?) ao fornecer seus produtos e serviços, o que apenas por decorrência também beneficiaria os demais.

John Maynard Keynes, outro britânico, promoveu a revolução econômica seguinte na primeira metade do século XX, duvidando do credo liberal quanto à sua velocidade de reação aos distúrbios mercadológicos, digressava que os ajustes necessitavam da “mão visível do Estado” para catalisar seus efeitos. O mercado sozinho não os proveria tempestivamente.

O sucesso fático das ideias de Keynes nos Estados Unidos da grande depressão de 1929, com maciças obras e investimentos públicos, aumento de endividamento estatal e consequente fragilidade fiscal, fizeram (naquele contexto e época) emergir a maior potência mundial que se consolidaria durante e após a Segunda Grande Guerra. O Keynesianismo sobrepujou assim a própria ciência econômica, e perdurou inconteste até o advento de John Muth, Milton Friedman e os “Chicago boys”. A teoria das Expectativas Racionais do meio oeste americano desafiou a hegemonia Keynesiana, ao colocar no centro do palco o Homo Economicus: racional o agente econômico não reagiria a estímulos estatais de fomento imediato se experiências pretéritas semelhantes fizessem parte do seu plantel empírico a rememorar insucessos. Cidadãos e agentes econômicos escaldados por planos de estímulo ao consumo, por exemplo, não reagiriam consumindo diante de plano econômico similar, teriam presente a lembrança do endividamento (consumidor) e fracasso do investimento (empreendedor).

A Economia rememorará pragmatismo, para alguns rinque da luta de classes, etc. Em verdade versa sobre a satisfação dos desejos humanos, individuais ou coletivos, que manifestam-se no consumo: diferenciação ou pertencimento. Desejamos pertencer a algum grupo e ojerizamos outros, nosso comportamento procurará consumir e ostentar os totens, signos e iconografia da classe que nos apetece: (os relógios, jóias, carro, local do zoneamento urbano onde moramos, lugares que visitamos e frequentamos, etc, são os artefatos que ostentam esse credo). A Economia resume os desejos humanos.

As Expectativas são Racionais? Aqueles que se locupletaram de políticas macroeconômicas não sustentadas, focadas no consumo, como por exemplo populações pobres que ali adentraram o mercado de consumo de bens duráveis (em virtude de políticas de fomento a crédito e desoneração tributária), inegavelmente terão em sua memória de longo espectro apreço por tais políticas. Ou não? A mesma política pela qual nutrirá desapreço o imprevidente investidor/empreendedor que tendo invertido em imobilizado e contratações não observou a transitoriedade daquela política. Desapreço igualmente nutrido pelos experts, empreendedores sagazes e estadistas, mas por motivos diversos: para estes é sabida a ineficácia dessa política no longo prazo (o que não os impediria de aproveitar parcimoniosamente o instante). As experiências não são racionais, são emocionais!

Os detentores da compreensão dos mecanismos macroeconômicos preditivos (questiona-se quem verdadeiramente os tenha) não lograrão êxito na transição para sustentados caminhos de crescimento se olvidarem a realidade histórica recente: grande parcela da população brasileira realizou seus desejos, e com isso criou irreparável memória afetiva de apreço, sob a égide de políticas imediatistas de estímulo ao consumo e desoneração (consumidores, fornecedores e governantes). Sim, as expectativas racionais nos são tão válidas porque também explicam tal efeito. Para muitos que tiveram em tais políticas sua experiência exordial de pertencimento e diferenciação consumista, de pouco valerá meros argumentos retóricos contrários. Suas experiências subjetivas foram demasiado palpáveis. Seria contra intuitivo exigir cálculo diverso.

Tampouco será com desdém, inabilidade política e por vezes desprezo tácito/explícito e preconceito intelectual que se construirão os necessários caminhos para os consensos mínimos exigíveis por amplos processos de mudança.

A empresa ganha contornos de impossibilidade no tempo das redes sociais que acentuam extremos. Os algoritmos de engenharia de software das redes estão desenhados como gamificação que premia o maior número de likes e visualizações, atributo das opiniões extremas. Essa mesma engenharia nos cerca daqueles que já pensam como nós, diminuindo a pluralidade, desestimulando empatia e proibindo uma séria reflexão sobre pensamentos diversos. Na regra de que “êxito” é medido em número de likes, sequer sabe-se de fato o quanto de conteúdo está sob escrutínio.

O que queremos homens de negócios, receptores de bolsa família, empregados, desempregados, empregadores, investidores, membros do governo, agricultores e sem teto? Todos dividimos o anseio ancestral por viver melhor! Sendo diversos temos em verdade muito em comum: apreciamos as políticas e métodos que nossa memória afetiva atesta que nos foram particularmente benéficas! Ao passo que execramos as opostas. Essa miopia, não rara, nos impedirá de vislumbrar o que de fato precisa ser feito. O prazer do autoengano de que se está sempre do lado certo entorpece os sentidos e desfavorece a razão.

A ambição humana de colher o que não foi semeado segue economicamente bastante atual; expectativas racionais e experiências reais se mesclam para um desfecho atroz se cada um de nós não reconhecermos nossas inépcias.

Eis o homem!

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Jobson de Paiva Sales

Mestre em Gestão de Sistemas de Seguridade Social, Madri, Espanha. Gerente Executivo do INSS em Campina Grande. Articulista. Consultor e Palestrante.

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