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Homenagem póstuma a Roberto Coura

Benedito Antonio Luciano. Publicado em 9 de setembro de 2021 às 9:21

Foi por ocasião do I Salão de Artes Plásticas, evento organizado pelo Grêmio Cultural do Colégio Estadual da Prata de Campina Grande-PB, entre os dias 20 e 27 de outubro de 1971, que conheci Roberto Coura. Talvez tenha sido ali que conversamos pela primeira vez.

Na oportunidade, participávamos como pintores e o que me prendeu a atenção no trabalho dele foi o equilíbrio estético no emprego das cores. Não sei se aquela foi a primeira exposição coletiva da qual ele participou, mas foi a minha.

No ano seguinte, conforme depoimento do próprio artista, o pintor Roberto Coura daria lugar ao fotógrafo autodidata, pesquisador da linguagem e da estética fotográfica.

A partir de então, ele iniciou um trabalho sistemático de documentação fotográfica da Feira Central de Campina Grande. Isso resultou em mais de mil e setecentas imagens, dentre as quais algumas que serviram para ilustrar o livro “A Feira de Campina Grande: um museu vivo da cultura popular e do folclore nordestino”, obra de autoria de Francisco Pereira Júnior, publicado pela Editora Universitária da UFPB, em 1978.

Nesse livro, a força estética das imagens captadas pelas lentes de Roberto Coura é de tal magnitude que se sobrepõe ao texto, compondo e recompondo o real e o imaginário, ali no limite das lentes da câmara.

Na frente das lentes a feira, por trás das lentes o artista. Dentro da feira o povo, dentro do povo o espírito da feira, traduzido na arte e na cultura popular representadas pelo violeiro cego, o declamador de cordel, o tocador de rabeca, as vendedoras de meizinhas, as latas e os pneus velhos convertidos em utensílios.

Entre 5 e 13 de maio de 1979, numa exposição fotográfica realizada no Museu de Arte Assis Chateaubriand “A Feira de Campina Grande” voltou a ser usada como tema em quarenta e três fotos em preto e branco assinadas por Roberto Coura.

Nessas fotos, o jogo de luz e sombra, linhas, volumes, escalas e direções impressos em cada fotograma nos remetem a um subtexto vivo dotado de sons e cores. Assim, diante dos fotogramas nos sentimos como se estivéssemos no meio da feira, percorrendo os seus corredores formados pelas mercadorias expostas à venda, ouvindo o barulho das conversas e sentindo os aromas das mercadorias.

Transcorridos vinte e oito anos, em 19 de junho de 2007, Roberto Coura realizou em Campina Grande uma nova exposição fotográfica: “Nas cores da Feira”, acompanhada do lançamento do livro “A Feira de Campina Grande”, publicado pela Editora Universitária da UFCG.

No livro, as fotos da Feira de Campina Grande são apresentadas em preto e branco; e na exposição, as fotos são coloridas, fazendo jus ao título.

Puxa! A vida sempre nos reserva surpresas, umas boas e outras não! Semana passada, na segunda-feira, estava organizando alguns livros na estante quando, por acaso, folhei o livro “A Feira de Campina Grande” e li a dedicatória do autor: “Ao mestre Bené, amizade de tantos anos”. No dia seguinte, recebi, com pesar, a notícia da morte do inesquecível colega e amigo Roberto Coura, ocorrida em João Pessoa-PB, em 31 de agosto de 2021.

Que Deus misericordioso acolha na morada eterna a alma desse grande artista!

Campina Grande, 9 de setembro de 2021
[email protected]

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Benedito Antonio Luciano

Professor doutor, titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

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