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História do Acervo e Museu Assis Chateaubriand

Josemir Camilo. Publicado em 1 de dezembro de 2017 às 9:29

Por Josemir Camilo de Melo (*)

Para o campinense médio, falar de Museu Assis Chateaubriand (MAAC) implica primeiro num visual, o prédio do museu, ao lado da integração (endereço esquisito, de poucos anos para cá). Museu sem acervo.

No entanto, o acervo, administrado pela Furne, se encontra no prédio desta fundação: acervo sem museu? Estamos falando de contradições.

Primeiro, um acervo que chegou e não havia lugar para ele; segundo, em tempos recentes, se construiu um museu, sem acervo, elefante cinzento? E ainda há uma terceira variante, um acervo que, finalmente, encontrou guarida, no prédio da Furne.

O belo prédio moderno (funcional) construído na gestão de Williams Arruda, pela prefeitura, para receber o acervo doado por Assis Chateaubriand, foi engolido, anos a anos, pelo descuido das novas administrações e, hoje, parece um fóssil, embora datável.

Perdido entre bares e lanchonetes – o bebódromo – ex-Parque Evaldo Cruz, sim, porque só pode ser ex-, quem não exerce mais as funções para as que se destinou, o museu (hoje, Secretaria de Cultura do município), é um prédio desqualificado.

Só falta esconder o preso, para quem olha de dentro da integração, o busto do doador, agora perdidinho, entre pedestres, vendedores e grades. Deveria o busto seguir o acervo?

Prédio e museu vêm da década de 1960, bem como a Universidade Regional do Nordeste, quando o polêmico jornalista doou ao ‘povo campinense’ uma joia (várias, por sinal), embora não houvesse cofre forte na cidade.

Criado sob a égide de Assis Chateaubriand em 20/11/67, fazia parte de sua política de dotar o Nordeste de um aparato cultural relevante, daí, tê-lo criado junto com o de Olinda e o de Feira de Santana.

Sem lugar próprio, o acervo foi colocado, provisoriamente, no prédio em que hoje funciona o Museu Histórico; depois, foi localizado no antigo Grupo Escolar Solon de Lucena (onde, ironicamente, ou não, está hoje – digo ironicamente, devido ao percurso que fez, ao ir para o prédio próprio, no Parque Evaldo Cruz, e hoje se encontrar, no antigo prédio do Solon de Lucena, casa da Furne).

Segundo o ex-reitor, Edvaldo do Ó, co-fundador da URNE, expôs ao Diário da Borborema sobre a fundação do museu de Artes Assis Chateaubriand: “O saudoso Assis Chateaubriand quando resolveu criar o museu de arte em Campina Grande, fez o lançamento de uma campanha nacional de museus regionais que tinha como principal objetivo o museu de nossa cidade.

A primeira a apresentação de quadros ocorreu na associação comercial do Rio de Janeiro com representantes de todo o Nordeste e eu estava lá em nome de Campina Grande.

Assis Chateaubriand mandou chamar o prefeito Williams Arruda para comunicar que o prédio tinha sido doado para o museu (hoje o museu histórico) mas segundo os técnicos não serviria e que ele teria que encontrar um terreno para construção do MAAC”.

O prédio redondo, modernoso, do Parque tornou-se um ícone para a cidade. Dotado de um pequeno, modesto e acomodatício auditório (ali, fui responsável por exibições do Cine Clube Ruy Guerra, no começo dos anos 80), tornou-se, com a dinâmica da URNE/FURNE, um palco de tudo: exposições, lançamento de livros, minicursos, e, sobretudo, muita reunião dos funcionários da própria Universidade Regional.

Greves eram tiradas, ali; a reitoria se reunia, lá; visitas de autoridades civis, militares e eclesiásticas davam o toque nobre ou autoritário, dependendo da época e do motivo.

O museu de artes Assis Chateaubriand começou, a enfrentar dificuldades, pois faltava mão de obra exigida pela museologia, para administrar um acervo de cerca de 300 obras de artistas brasileiros e internacionais.

O prefeito Williams Arruda designou Edvaldo do Ó para ir ao Rio de janeiro e informar a Chateaubriand que o acervo ficaria no prédio onde funcionava o grupo Solon de Lucena onde funcionava, então, a reitoria da URNE.

E, dali, Edvaldo visitou o acervo doado, em São Paulo. As despesas com o transporte dos quadros ficaram a cargo da Rádio Borborema, FURNE e Prefeitura.

A inauguração do Museu ficou dependendo do estado de saúde do doador, que, chegou até mesmo vir para o Nordeste, ao lado de autoridades políticas nacionais, mas a doença se agravou, quando no Recife, e não pode vir a Campina.

Nos anos 70, o Museu tentou implementar uma série de atividades, como um programa de Bolsa/Arte, sob a responsabilidade dos professores Umbelino Brasil, Nely Lima e Rômulo Azevedo.

Em outra ocasião, assinando convênios (1978), para um Programa de Ação Cultural através do MEC/FUNARTE, envolvendo de Artes Plásticas, Cinema, Música, Teatro, Folclore.

No entanto, havia denúncias na imprensa, em nível nacional (jornalista Zózimo Barroso do Amaral) de que o Museu estaria abandonado (1978).

O Museu rebatia com fotos, para comprovar que o Museu não estava abandonado e que dispunha de uma infraestrutura compatível com seu acervo e os seus objetivos culturais.

Por outro lado, a Prefeitura Municipal e a Universidade Regional do Nordeste criaram um convênio para manter o Centro de Documentação, acoplando o Museu de Arte e Som.

No começo dos anos 80, o Museu passou a ser administrado por Edvaldo do Ó, na ação de aproximar a população do museu.

Artistas criaram uma galeria de arte com apoio do Museu de Arte, para o qual a entidade fez um empréstimo de Cr$ 300.000, 00, além de um livro de ouro (1982).

Essa administração terminou por provocar uma baixa no quadro, com a saída de Eleonora Bronzeado (1984), como também deixou no ar uma grande preocupação, quando surgiu a intenção de colocar o Museu à disposição da Bolsa de Mercadorias, fundada por Edvaldo do Ó, que tinha se tornado uma agenciadora e financiadora, parcial do Museu.

Ocorreu, também, no começo da década de 80 a ideia de transferir o acervo para o Centro de Cultura do Município, então em construção, já que o museu estava ficando pequeno para as várias atividades do local.

Apontavam-se, também, as oscilações do clima e falta de segurança, o que fazia com que o Museu de Artes da FURNE não tivesse condições de expor suas mais de 300 obras, e a reserva técnica apresentar insuficiência.

Uma dessas atividades em 1983, foi a realização do curso de História da Arte Brasileira, ministrado pelo professor e museólogo Aércio de Oliveira, diretor do Museu do Homem da Fundação Joaquim Nabuco no Recife.

Tentou-se também um convênio MOBRAL/URNE, em 84, para a ampliação do Museu de Artes Assis Chateaubriand, para estreitar os laços educacionais.

No entanto, a decisão do Reitor Sebastião Vieira de ceder à Fundação Bolsa Mercadorias o MAAC e todo o seu patrimônio, gerou resistência por parte da comunidade acadêmica da URNE, sob a alegação de a manutenção do Museu de Artes ser muito custoso para a instituição.

Mas, os docentes não concordaram por acreditar que tratar-se de uma dilapidação do patrimônio.

De fato, fora uma proposta da Bolsa de Mercadorias para administrar aquele patrimônio e consequentemente assumir todos os encargos financeiros necessários à administração do Museu, indo de encontro aos comentários de que o Reitor pretenda doar a instituição.

A URNE não possuía recursos suficientes para a restauração das obras do museu e não perderia seu patrimônio, dizia o Reitor; seria apenas a transferência da administração, já que a própria Bolsa cortara a ajuda financeira.

Em 1991, a situação do acervo era de cuidado com a ação do tempo, com a UEPB tentando recursos para a restauração adequada.

Até o Secretário da Cultura da Presidência da República, Ipojuca Pontes, se sensibilizou com a situação e prometeu que as peças seriam restauradas com recursos de sua Secretária.

Enquanto isto, a imprensa divulgava um SOS para o Museu Arte Assis Chateaubriand (com foto).

O Museu de Arte Assis Chateaubriand passava por uma grande crise. As obras danificadas, e as verbas destinadas ao museu não supriam as carências do acervo.

A direção do Museu enviou projetos para fundações brasileiras com objetivo de conseguir fundos para recuperação do museu. Um dos projetos foi enviado à fundação Roberto Marinho para a recuperação de 345 quadros.

Em 1993, foi lançado o catálogo geral do acervo de documentos e objetos do museu de Artes Assis Chateaubriand, organizado pela museóloga Cristina Gomes Negrão e financiado pelo ministério da cultura e pelo governo estadual.

O acervo de documentos/ objetos do MAAC reúne 351 obras da arte brasileira e estrangeira, do século XIX, à década de 1960.

O último episódio envolvendo o MAAC, digno de registro, foi a contenda jurídica, entre Furne e UEPB pela guarda do acervo Assis Chateaubriand, em que saiu vitoriosa a antiga Fundação.

Hoje, o acervo está bem acomodado, sob cuidados de museólogos e com apoio do BNDES que financiou a última restauração e conservação das obras e documentos. Longa vida ao MAAC!

(*) Professor, historiador, presidente da ALCG

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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