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Campina Grande - PB

História de Campina em debate

11/10/2017 às 8:45

Fonte: Da Redação

Por Josemir Camilo de Melo (*)

Convidado para participar da bancada do programa Canal Livre da TV Itararé, tive o maior prazer em conversar com os colegas, ali, presentes, sob a direção de Anchieta Araújo. O entrevistado foi o prof. Cícero Agra, ex-colega de corredores da UFCG (quando ainda era UFPB- Campus II). Foi um prazer rever o ex-aluno e agora colega de ofício e seu humor histriônico. Acompanhava, na bancada, o colega Bruno Gaudêncio, também confrade, tanto na Academia de Letras, como no Instituto Histórico de Campina Grande. O tema, bem oportuno, foi a História de Campina Grande, nestes 153 anos de elevação à categoria de cidade (e não, emancipação).

O humor do entrevistado provocava sempre desafios, mas sempre se concentrava nos aspectos de uma história violenta, talvez, aqui, fruto de seu presente momento profissional e de suas escolhas políticas. Defensor do patrimônio histórico (escasso) de Campina, de olhar crítico sobre as elites, Cícero provocava a bancada com suas antinomias, como dizer que Elpídio de Almeida falou mal do movimento Quebra-Quilos e sua maior obra, o ISEA, se situa na rua que tem este nome. Ou de que Irineu Joffily, grande político, era escravista.

Sobre o caráter de violência da história local, tem havido diferenciações, mas aleguei que nas sociedades de base agrária, as lutas pela terra têm sido responsáveis por fases bem agressivas. A estas tem se juntado a política. Neste sentido, a terra vem deixando de ser o móbil número um, como era há um século atrás; mas a política não deixou de produzir cenas lamentáveis, como a morte João Moura, o massacre da Praça da Bandeira, três anos depois e quase que de imediato, a de Félix Araújo e a de seu assassino, executado na cadeia. A violência, hoje, é de outro feitio, é a violência urbana, caótica, pontual e, como cheguei a dizer, fractal.

Mas para outros desafios lançados pelo entrevistado, valeria a pena citar algumas contradições, no caso de Elpídio de Almeida e Irineu Joffily. Quanto ao ex-prefeito, embora suas posições façam parte do cadinho político de sua geração e de sua cidade, em que os Almeida (José Américo, Horácio e Elpídio, mais estes dois últimos) parecem ter uma versão mais conservadora, quanto ao Quebra-Quilos, quanto ao Caso Carlota. Mas, mostrei outro lado, o do historiador Elpídio, premido por novo ambiente político, esteve a rasurar seu livro, tirando algumas palavras, para não ser mal entendido, no pós-64, já que, sobre a Praieira, tinha se apoiado em Amaro Quintas, cassado pelo regime.

Quanto a Joffily, escrevi, nos anos 90, um artigo indagando se ele teria sido abolicionista. Parece que não houve movimento na Paraíba, ou talvez a ele não tenha aderido. Seria um escravagista? Provavelmente, sim, dentro dos padrões de um cidadão urbano, com alguma terra (fazenda em Bodocongó), necessitaria de trabalhadores. Assim como, esquerdistas de hoje têm empregada doméstica, o que, no futuro, será tido como uma contradição ideológica. Quantos aos trabalhadores de Joffily, não sabemos se eram livres ou escravizados. Quanto aos escravos domésticos, parece que tinha três e, ao que a crônica narra, uma delas, mesmo liberta, permaneceu como criada da família. Aquela coisa errada da Lei Áurea: “acabou a escravidão!”. Pronto! E o resto, madame Izabel? Indenização, terra, trabalho, capital etc?

Preferi apresentar uma versão pouco conhecida de Joffily, a do advogado que ficou a favor dos Quebra-quilos, ou, pelo menos, evitou, como Juiz, proceder a condenação. Mas o caso mais emblemático foi o de advogado. Queria a igreja desalojar uns negros de suas terras, no litoral, e Joffily fora contratado para defender os interesses da igreja. Revolta, no caso, Joffily se posiciona a favor dos camponeses negros, surgindo, daí, uma rixa muito forte na política campinense, entre o Monsenhor Sales e Joffily.

Outros temas poderiam ser extraídos da entrevista. Voltaremos à temática.

(*) Professor, historiador, presidente da ALCG

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