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Gisa Veiga: Sobre cancelamentos e incoerência

Gisa Veiga. Publicado em 26 de abril de 2021 às 11:49

Há vários anos eu não acompanhava um Big Brother Brasil. Acompanhar mesmo, do começo ao fim, só a primeira edição até então. Mas, instigada pela curiosidade sobre a atuação de uma paraibana desconhecida na edição deste ano – e que acabou conquistando o Brasil – conferi os primeiros programas. E não consegui mais parar.

Não foi apenas a performance da paraibana Juliette que me prendeu ao programa. Foram os debates mais acalorados ou mais profundos, as múltiplas personalidades dos inquilinos da casa, a reação do público a qualquer pessoa que se mostrasse intolerante, agressiva, preconceituosa ou mostrasse sinais de contínua falsidade ou soberba. São milhões de votos a cada paredão para expulsar os “vilões”.

Até parece que os brasileiros foram tomados por uma onda de bom-mocismo, de empatia com os injustiçados, fazendo nascer a necessidade de eleger, entre os seus preferidos, os que revelam bom caráter, sensibilidade, tolerância e comportamento aceitável para se viver em sociedade.

No mundo real, fora da casa mais vigiada do Brasil, a realidade parece diferente. Acreditava-se que a pandemia fizesse amolecer duros corações, rever conceitos (ou preconceitos), aperfeiçoar caráteres. O que se vê, no entanto, é a multiplicação de haters, o recrudescer da intolerância, o gosto pelas fake news, pela violência, pelo caos, o desrespeito aos direitos humanos, a insensibilidade pela dor alheia.

Um traço da personalidade da maioria dessas pessoas adeptas do defenestramento de “vilões” revela uma interessante incoerência: o prazer em estender o tal cancelamento à vida real. Como se todos os telespectadores fossem irrepreensíveis no seu dia a dia e recebessem aprovação em massa por todas as suas atitudes. Duvido que muitos resistiriam às indiscretas câmeras 24 horas por dia.

Jogo é jogo e o público tem mais é que cancelar quem não corresponde ao ideal de uma pessoa minimamente aceitável em sociedade. Mas vida real é outra coisa. Por que continuar odiando as pessoas canceladas no Big Brother? Por que continuar se comportando como juízes implacáveis dessas pessoas que, sim, têm o direito de rever suas posições e recomeçar ou continuar suas vidas com todas as possibilidades de sucesso? Por que continuar jogando fora do jogo?

Se todas as pessoas que votam freneticamente no Big Brother usassem essa disposição para eliminar maus políticos e governantes incompetentes e insensíveis, nosso Brasil seria “big bom”.

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Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

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Gisa Veiga

Gisa Veiga é jornalista profissional (formada pela UFPB) e advogada (formada pelo Unipê), com experiência em jornalismo impresso, internet, televisão e assessoria de imprensa. Atualmente trabalha como assessora de imprensa na Assembleia Legislativa e apresentadora do programa Sobretudo, da TV Master.

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