Gisa Veiga: Jornalismo ou patifaria?

Gisa Veiga. Publicado em 30 de outubro de 2019 às 12:05

O jornalismo brasileiro, especialmente o investigativo, vem sendo constantemente colocado em xeque pelo Presidente Bolsonaro e seus asseclas. E, pior, vai além desses grupos histéricos. Até o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Adriano Galdino, que não votou “e nem votarei” em Bolsonaro, conforme fez questão de frisar, criticou nesta quarta-feira, 30/10, os “exageros” da imprensa nas críticas ao chefe da Nação. Ele esclareceu que não gostou do resultado da eleição, mas clamou por “mais respeito” ao presidente.

Esqueceu-se, porém, que isso é via de mão dupla. Afinal, é o próprio presidente que não se dá ao respeito. De certa forma, foi isso o que lembrou o deputado João Henrique – “eu votei em Bolsonaro” -, que não vê razão, agora, para jogar flores no dono da faixa presidencial. “Ele precisa ser contido em seu comportamento e deixa muito a desejar como governante”, analisou.

A Rede Globo, mais uma vez, foi alvo de novos ataques do histriônico presidente, por ter veiculado nesta terça-feira, 29/10, reportagem sobre o Caso Marielle Franco, no Jornal Nacional. Na reportagem, o chefe da Nação teve seu nome citado em depoimento do porteiro do condomínio no Rio de Janeiro, onde mantém residência.

Para lembrar: o porteiro se referia ao dia em que Élcio Queiroz, acusado da morte de Marielle e seu motorista, visitou Ronnie Lessa no condomínio na noite do crime. O porteiro depôs que Élcio havia dito que iria à casa de Bolsonaro, e não à do seu vizinho Ronnie. Disse ainda que ligou para a casa do então deputado e recebeu sinal verde “do seu Jair” para a entrada de Élcio. Mas a Globo esclareceu, também, que nesse mesmo dia Bolsonaro estava em seu gabinete em Brasília e, portanto, não teria sido “seu Jair” quem falou com o porteiro.

A Globo fez jornalismo, o que dificilmente o faria se recebesse gordas verbas do governo federal. E bastou fazer jornalismo investigativo – inclusive com o devido esclarecimento de que não foi o então deputado federal Jair Bolsonaro que deu sinal verde para a entrada do acusado – para que o paranoico governante acusasse o veículo de “patifaria”, em live nas redes sociais.

Bolsonaro inaugura uma nova versão do “nós e eles”, do ex-presidente Lula, só que muito mais delirante. Considera-se um leão cercado de hienas, algumas delas veículos da imprensa. Qualquer crítico é um vilão. Tem nas veias o fervor do absolutismo – odeia ser contrariado e, oh, maldita democracia, por que tens que dar voz a hienas? Tem apego a ditaduras e a todas as suas práticas nefastas – censura, ameaças, torturas… Exagera nas fantasias conspiratórias, conforme bem definiu o jornalista Bruno Boghossian, da Folha de São Paulo. Tem uma incontinência verbal preocupante e apego a ditaduras. E sou forçada a concordar com a estridente Joice Hasselman: Bolsonaro ainda não entendeu o tamanho do seu cargo. E jamais entenderá.

E também jamais entenderá de jornalismo. A Globo e outros veículos só não fazem jornalismo quando são agraciados com polpudas verbas governamentais – aí não há como negar. Mas chamar a reportagem do JN de patifaria, isso sim é patifaria.

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Gisa Veiga

Gisa Veiga é jornalista profissional (formada pela UFPB) e advogada (formada pelo Unipê), com experiência em jornalismo impresso, internet, televisão e assessoria de imprensa. Atualmente trabalha como assessora de imprensa na Assembleia Legislativa e apresentadora do programa Sobretudo, da TV Master.

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