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Gisa Veiga: Em debate, o etarismo do Porta dos Fundos

Gisa Veiga. Publicado em 31 de janeiro de 2021 às 13:20

O Brasil é um país profundamente preconceituoso. Em vários sentidos. O Brasil está encharcado de racismo, xenofobia, de machismo estrutural, de preconceito e discriminação aos mais velhos e a qualquer pessoa “diferente”. É preciso aprender a desconstruir. Mais: é preciso querer desconstruir, se despir de conceitos ultrapassados e ter, pelo menos, um pouco mais de empatia, leitura e civilidade.

Em relação à discriminação aos idosos, o nome correto é etarismo. E é sobre isso que vou falar.

A questão do etarismo vem ganhando destaque ao nos depararmos com empresas que jamais contratam alguém após os cinquenta anos. As dificuldades aumentam com o passar do tempo, embora alguns empresários já tenham percebido que, para várias funções, os mais avançados em idade até contribuem mais. E esses estão empreendendo, também, com muita eficiência. O Sebrae informou que os empreendedores idosos (legalmente falando) contratam, em média, 10 empregados, enquanto os mais jovens apenas seis.

Há algumas tentativas de se reconhecer o valor desse nicho da população. No campo das artes, por exemplo, a Rede Globo enfim se deu conta do talento dessa parcela da população que também está ávida por conteúdos interessantes, e está realizando uma edição especial do The Voice Brasil com esse segmento. Boa sacada.

Mas ainda há muito caminho a percorrer para que a dignidade das pessoas nessa faixa de idade seja mantida ou resgatada, dependendo do caso.

Uma pessoa de 60 anos (para ficar na faixa oficial dos idosos), hoje, continua trabalhando e produzindo muito. Está em sintonia com as novas tecnologias. Geralmente se estressam menos, pois a maturidade e experiência lhes dão mais segurança.

Recentemente um episódio do Porta dos Fundos deu o que falar. Era uma conversa em aplicativo de videoconferência, entre colegas de trabalho, em que a mãe de um deles, interpretado por Fábio Porchat, o interrompia pela internet para conversar assuntos cotidianos. Ele, um tanto estressado, respondia a ela como quem falava com uma gagá ou uma criança sem discernimento. Forçava paciência. Ela estava sozinha em casa. Os colegas de trabalho passaram a questioná-lo sobre sua responsabilidade com aquela senhora que – pasmem – tinha 59 anos. Diziam que ele não podia deixar uma senhora “naquela idade” sozinha em casa.

Fábio Porchat não é nenhum garotinho de praia. Tem 37 anos e seu personagem, de idade equivalente, se comporta como um jovenzinho alienado e preconceituoso, um sem-noção. Um personagem que ele mesmo construiu, com suas crenças e convicções do que seja uma pessoa com idade de 59 anos.

A publicitária, escritora e blogueira (no bom sentido, como ela costuma dizer) Cris Guerra publicou um vídeo com um texto irreparável. Tem 50 anos, tatuagens, cabelos totalmente brancos por opção – ou libertação, como ela define; trabalha diariamente. Produz conteúdos interessantíssimos. Indignou-se com o etarismo escancarado de alguém que ela admira como artista e produtor de conteúdo. Pasmou com tamanho desconhecimento e ignorância. Sentiu-se ofendida e se fez porta-voz de uma população crescente. Sem, em nenhum momento, partir para ofensas pessoais, como costumam fazer inúmeros brasileiros quando se deparam com o contraditório.

Um colega de profissão, que diariamente assina coluna num veículo de comunicação local, já foi vítima de bullying no local de trabalho. É apenas um entre tantos. Muitas vezes, os mais jovens insinuam que um profissional na faixa de idade dele está ultrapassado. Como se conhecimento envelhecesse.

Uma jovem mestranda em Jornalismo Profissional na UFPB, Marcella Machado, está debruçada numa pesquisa sobre como os profissionais do jornalismo com mais de 50 anos estão fazendo para se manter no mercado, ou como eles encaram uma volta ao mercado – no caso dos que estão fora do “batente”. Ela asculta suas preocupações, inseguranças e revoltas. Avalia eventuais discriminações salariais, a produção dos resistentes, a persistência dos que deixaram os empregos – ou foram demitidos – para se tornarem empreendedores do setor da comunicação. Faz isso não apenas com primor técnico-científico, mas com sensibilidade e reverência.

O Brasil é um país cuja população está envelhecendo rapidamente. Eu coloco o etarismo no mesmo patamar da discriminação racial, de gênero, sexual e da xenofobia. É preciso políticas públicas eficientes para manter ou tornar essas pessoas mais ativas e participativas da produção de riqueza no Brasil.

Desconstruir conceitos e preconceitos é fundamental. Porque todos, se não morrermos antes, vamos envelhecer. Por que muitos ainda agem como se nunca fossem chegar à idade mais madura? Por que acreditar que essas pessoas “já deram o que tinham de dar”?

Abrir espaços para elas, seja na cultura, nas artes ou no mercado de trabalho não é oferecer nenhum privilégio. É reconhecimento, é fazer justiça, democratizar as oportunidades, como também querem as mulheres, pretos, indígenas, homossexuais. É, até, uma questão de inteligência e estratégia.

Que tal começar agora esse processo de desconstrução?

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Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

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Gisa Veiga

Gisa Veiga é jornalista profissional (formada pela UFPB) e advogada (formada pelo Unipê), com experiência em jornalismo impresso, internet, televisão e assessoria de imprensa. Atualmente trabalha como assessora de imprensa na Assembleia Legislativa e apresentadora do programa Sobretudo, da TV Master.

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