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Gisa Veiga: A vez dos deep-fakes

Gisa Veiga. Publicado em 26 de outubro de 2019 às 12:18

Vivemos uma era de desinformação. A campanha presidencial passada foi contaminada por uma avalanche de fake news. Muitas tão bem feitas que enganaram milhões de incautos, como ainda hoje acontece. O WhatsApp, por exemplo, admitiu pela primeira vez que a eleição brasileira de 2018 teve uso de envios maciços de mensagens, com sistemas automatizados contratados de empresas, conforme notícia do site Folha Online postada no dia 8 deste mês de outubro.

Mas o que vem por aí, e poderá ser utilizado pela direita, esquerda, centro ou anarquistas nas eleições de 2020, é muito mais compartilhável e perigoso para a normalidade democrática – se é que vivemos em condições normais, hoje em dia. São os chamados deepfakes, vídeos adulterados por inteligência artificial que permite a manipulação de imagens com um aspecto bem realista. Para quem deseja ver como funciona, sugiro acessar o link https://youtu.be/4scX1V1c6D8.

Numa tradução bem básica, é a utilização de imagens de terceiros sobrepostas ao produtor de um vídeo com falsas informações. Esse produtor faz um determinado candidato (ou qualquer outra pessoa com relevância pública, de preferência) falar inverdades e desinformações de uma forma tão natural e convincente que parece quase impossível distinguir o fato do fake. Uma sociedade que compartilha fake news sem o menor constrangimento – inclusive grupos de jornalistas que deveriam ser os primeiros a se interessar por uma checagem mínima -, que prefere uma desinformação, alinhada à sua ideologia, à verdade nua e crua, não parece madura o suficiente para discutir sobre política e destinos de um país.

Mas, antes uma democracia um tanto infantilizada do que a imposição de uma ditadura. Antes o mal-estar de uma desinformação – e aí que se multipliquem e se aperfeiçoem os antídotos para contê-la – do que o constrangimento da volta da censura.

Acredita-se em tudo: em limonada quente que cura câncer, que vacina contra sarampo faz mal à saúde, que o Presidente Bolsonaro fez isso, que Lula fez aquilo outro… E isso sem a menor inclinação para reflexões e dúvidas. Poucos exprimem um simples “Será que isso é verdade?” antes de sair compartilhando.

No início desta semana, a deputada federal Joice Hasselmann (PSL), já rompida com Bolsonaro, divulgou que os três filhos do presidente seriam líderes de uma rede especializada em campanhas de difamação e notícias falsas usando aplicativos de mensagens. Seriam 1.500 perfis falsos.

Provas? Não apresentou. Seria também um fake? A julgar pelo histórico do 01, 02 e 03, Joice pode, sim, estar dizendo a verdade. Há verossimilhança entre a denúncia e o comportamento de Carlos, Eduardo e Flávio nas redes sociais. Ainda mais quando eles se recusam a receber a imprensa para explicações. Mas o fato é que foram apenas declarações.

Eu recomendaria que toda e qualquer informação compartilhada em redes sociais, por mais aparência de verdade que apresente, seja tratada por todos – principalmente jornalistas – com cautela e desconfiança.

Há quem defenda atividade curricular ou extracurricular nas escolas secundárias educando adolescentes para a responsabilidade na comunicação digital e seus efeitos. Eu acredito que seria o salutar início de um antídoto orgânico contra a desinformação, que antecederia os antídotos jurídicos.

Por enquanto, estejamos preparados para o pior nas próximas eleições presidenciais, com “estágio” já no próximo pleito municipal de 2020.

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Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

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Gisa Veiga

Gisa Veiga é jornalista profissional (formada pela UFPB) e advogada (formada pelo Unipê), com experiência em jornalismo impresso, internet, televisão e assessoria de imprensa. Atualmente trabalha como assessora de imprensa na Assembleia Legislativa e apresentadora do programa Sobretudo, da TV Master.

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