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Campina Grande - PB

Geneton glauberiano

23/08/2016 às 9:42

Fonte: Da Redação

Foto: ParaibaonlinePor Josemir Camilo*

Chocado! Geneton faleceu! Foi meu aluno, em Jornalismo, na Católica, onde ensinava Problemas Sociais e Econômicos Contemporâneos, na década de 70, pelo departamento de História. Ou talvez ele tenha sido de outra turma e o tenha conhecido do movimento super 8. Terminamos colegas de filmes super 8, eu, querendo aprender a fazer, e ele, bem avançado. O movimento surgiu sob a liderança de vários jovens cineastas e sem esquecer os veteranos de outra bitola (a de 16m e 35m), que se juntaram ao movimento superoitista, como Celso Marconi, Fernando ‘Visão Apocalíptica do Radinho de Pilha’ Spencer, e Fernando Monteiro, ao lado do comunicador Jommard Muniz de Brito, com o seu “O Palhaço Degolado”, de 1977, um libelo anti-gilbertiano e anti-ariano (Suassuna).

Geneton formava com Amin Stepple, Paulo Bruscky e Paulo Cunha, e alguns de quem não recordo o nome, os ‘enfants terribles’ do movimento. Geneton realizou os filmes de denúncia do vazio cultural sob o regime de exceção. “A Flor do Lácio é Vadia”, declamado por Jommard, e “Funeral de uma Década em Brancas Nuvens”.

Até ali tinha visto seus filmes em super 8. Lembro de um sobre os dois Gilberto, o Gil e o Freyre. Eu vivia no Recife e pude acompanhar a febre desta bitolinha de cinema. Outros colegas dele, como o jornalista Félix Filho, me incentivaram ao slogan que se diz ser de Geneton, de pegar uma câmera super 8, chamar a turma e sair pra rua pra filmar.

Eu mesmo cheguei a realizar, com alguns amigos, o filminho alegórico “A Danação de Mateus”, em 1977, quando, no 1º de abril (logo nesse – meu – dia?!) Geisel fechou o Congresso. Assim, fiz com Félix Filho, “A Danação…”, com o Mateus sendo interpretado pelo arte-educador e meu amigo, Alcino Ferreira. Rodei em Olinda. Ainda fiz outro, “Sem Direção”, um filme sobre a greve dos motoristas da Companhia de Transportes Urbanos, do Recife, numa época em que apoiar, incentivar este tipo de atitude política era perigoso, vivia-se a ditadura. Daí um filme meio velado e meio anarquista no fazer, já que faltaram recursos até para o letreiro e o filme começava com uma voz em ‘off’: “Camilo apresenta seu filme sem direção”. Ou seja, os ônibus parados, sem direção, e o filme sem diretor, apenas filmagem, com algum som, uma marcha fúnebre.

Geneton começou cedo, trabalhando no Diário de Pernambuco. Depois veio a sucursal de O Estado de S. Paulo, no Recife. Por volta de 84, pesquisando para a minha tese, em Londres, quem eu encontro? E ele me pedia dicas de estudantes brasileiros desenvolvendo pesquisas importantes para entrevistar. E eu indicava. Ele me chamava, brincando, de chefe de reportagem. Depois disso nunca mais nos encontramos, a não ser lendo seus livros de reportagens e vendo suas entrevistas. O último vídeo que vi foi sobre Glauber Rocha.

Busquei minha agenda dos tempos londrinos. Lá estavam nossos encontros, em 84, e me contava do sistema social inglês, já que havia se tornado pai. Visitei-o várias vezes e ele me falava de como os ingleses jogavam no lixo coisas que só precisavam de um pequeno conserto. Foi assim que retirou de uma caçamba de entulhos (se não me engano) uma máquina de datilografia, que com um ligeiro desamasso voltou a funcionar bem. Ele me falou para dar uma entrevista sobre ferrovia no Brasil, para um programa da BBC, mas creio que não a realizamos, embora eu tenha ido a sua casa para gravar a entrevista. Noutra vez, ele me convidou para jantar com sua família. Ou seja, no segundo semestre de 84 nos encontramos quase que mensalmente, fomos ver Lula, lá (sem trocadilho), numa palestra, acompanhei o aniversário de sua filha e em dezembro, me convidou para o almoço de minha despedida. Foi a última vez que nos vimos.

Em sua volta (e soube, agora, pela tv, que fora até camareiro, em Londres) perdemos o contato. Começou a trabalhar na Globo e foi transferido para a sede, no Rio de Janeiro. Fiquei apenas acompanhando sua produção e seus prêmios, como o da Embratel de telejornalismo de 2010, entrevistando generais, como o durão, Newton Cruz. Dirigiu documentários, como o que fez com os artistas Caetano e Gil (que viveram em Londres, e andavam por Portobello, lugar também de nossas visitas aos sábados, mas cada um na sua – ou seja, não sei se ele ia, regularmente, àquela feira do ‘third world’ [terceiro mundo]. Recebeu da Academia Brasileira de Letras, em 2012, a Medalha João Ribeiro, pelos serviços à cultura.

Foi marcante, para mim, como historiador, ver a sua audácia, em qualquer entrevista, mas e principalmente na entrevista que ele fez com Eric J. Hobsbawm, em 1995. E, aí, tivemos a mesma sintonia, cinco anos depois de eu ter feito, com outro colega brasileiro, em Londres, um entrevista também com o mestre marxista.

Ultimamente eu tinha assistido tudo que ele produzia pela Globonews, como o documentário “Garrafas ao Mar: a Víbora Manda Lembranças”, entrevistas com o jornalista Joel Silveira, que, segundo a mídia, foi o nosso maior repórter. E, mais recentemente, assisti ao Cordilheiras no Mar: a Fúria do Fogo Bárbaro, um documentário sobre o polêmico discurso de Glauber Rocha que acreditava que Golbery iria realizar a distensão política no país. Com o filme, ganhou o Prêmio Especial do Júri no 25 Festival Ibero-americano de Cinema, de Fortaleza.

Como jornalista das barricadas de papel, não esqueceu o ofício da escrita, publicando 11 livros de reportagens, dossiês, críticas, ensaios e versões escritas de grandes entrevistas em vídeo. Nosso último contato foi por e-mail em que elogiei seu trabalho, ‘Garrafas ao Mar’. Ainda, nos anos 80, eu tinha lido dele Cartas ao Planeta Brasil (1988), que comentei em artigo de jornal e lhe mandei.

A mídia e o cinema estão de luto. Eu também!

Geneton desequilibrava esse jornal meio marrom, meio pasteurizado. Vai fazer uma falta danada. Acho Geneton um tanto glauberiano.

(*) Professor, historiador

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