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Futebol amador

Jurani Clementino. Publicado em 26 de outubro de 2018 às 10:33

Quem passou pela adolescência sem nunca pegar uma caminhonete C10, aquelas da Chevrolet, pra ir, de um sítio a outro, assistir a um jogo de futebol amador, ou até mesmo para jogar bola, desconhece algumas coisas boas da vida. Às vezes o jogo nem era tão interessante, mas a viagem, essa sim, era um evento cheio de emoção, um acontecimento em si. Começava pela disputa por um lugar naquela carroceria apertada, porque antes dos caminhões paus de arara fazerem esse tipo de transporte, a gente ia para esses jogos amadores era nas C10. E claro que não cabia muita gente, porque lá em cima, além dos jogadores, suas namoradas e/ou esposas e a torcida de uma forma geral, tinha ainda os vendedores de dindin, que já começavam a comercializar o produto ali mesmo, dentro do carro, porque o calor era sufocante, e, claro que não podiam faltar os tomadores de cachaça. Os litros de cachaça ypioca circulavam de mão em mão. Às vezes misturada com coca-cola, outras vezes pura mesmo. Os jogadores e a torcida levavam instrumentos musicais (triângulo, zabumba, pandeiros) e faziam a festa, independente de terem vencido ou perdido as partidas e os campeonatos.

Os organizadores dos times e responsáveis por agendar as disputas entre os sítios (os famosos treinadores ou técnicos), levavam garrafas com água para hidratar os jogadores. Como os eventos esportivos amadores geralmente aconteciam no domingo à tarde, o deslocamento entre os sítios ocorria ao meio-dia. Debaixo de muito sol. Eram uns carros velhos, surrados, com motoristas sem experiência nenhuma na direção. Certa vez, meu tio, Leone, ia dirigindo o carro de meu avô até um desses jogos. Era uma C10 velha, anos 1970, que ia tão cheia de gente que não cabia nem recado. Se não me engano, o time do Queixada ia jogar contra a equipe do sítio Riacho do Meio dos Bilicas. Mas, chegando ali próximo à comunidade do Capão o carro diminuiu a velocidade e o motorista foi puxando o veículo pra margem da estrada até que parou. Todo mundo desceu, foi aquele movimento, porque até nessas horas o povo fazia uma festa. Era uma gritaria danada. E começou o desafio em descobrir o que danado tinha ocorrido. Mexe daqui, mexe dali e nada. Um dizia uma coisa, outro opinava diferente, mas ninguém conseguia descobrir porque o carro tinha dado o prego e muito menos qual era o prego. Foi aí que Canô, um primo legítimo de meu tio, desses matutos que quase nada falam, e que parecem viver num mundo paralelo e às vezes a gente não dá muito cabimento, se ajoelhou, olhou por baixo do veículo, bateu com a mão direita fechada no tanque do carro umas três vezes, se levantou, olhou pra meu tio e disse: “Leone, tanque tá sequim. Não tem um pingo de gasolina”. Pronto, descobriu o problema.

Bom esse é apenas um caso de tantos outros que aconteceram durante aquelas aventuras em forma de viagens. E ainda, quem tivesse frescura em ficar perto de homem suado, com a roupa cheia de barro, fedendo a cachaça e chulé, nem inventasse de ir numa daquelas viagens porque quando terminava o jogo, por volta das seis da tarde, e a gente se organizava pra voltar não havia quem escapasse. Tinha que tomar um banho quando chegasse em casa. Mas a lição maior que aqueles carros cheios de jogadores deixaram, acredito que a muitos de nós, foi de como não se media esforços para sustentar uma tradição. Como, em nome de uma paixão individual e coletiva, os jovens atletas enfrentavam, com um estranho prazer, aqueles desafios semanais. Faziam tudo aquilo com um sorriso no rosto, uma roupa banhada de suor, umas doses de cana na cabeça e acima de tudo isso: uma grande paixão pelo esporte preferido de milhões de brasileiros: o futebol. Nesse caso em particular, o futebol amador.

Jurani Clementino

Campina Grande – sábado 03 de outubro de 2018

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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