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Frei Filipe

Benedito Antonio Luciano. Publicado em 26 de agosto de 2021 às 8:57

Em 28 de setembro de 2002 fui agraciado com um exemplar autografado do livro “Sombra e Luzes do meu caminho”, obra de autoria de Carlos Almeida Pereira.

Cearense, natural de Fortaleza, nascido em 1923, logo cedo ingressou na Ordem Franciscana e, ao ser ordenado sacerdote, passou a ser conhecido como Frei Filipe.

Estruturado em sete capítulos, “Sombra e Luzes do meu caminho” é um livro autobiográfico, no qual o autor escolheu para cada um desses capítulos títulos quase poéticos/meteorológicos para narrar o percurso de sua vida, desde a infância até a idade madura quando o livro foi escrito.

No capítulo I, intitulado “Madrugada de Estrelas”, o autor relata a saga de sua família (pai, mãe e irmãos), partindo do interior numa viagem de trem da Rede Viação Cearense rumo à capital, Fortaleza.

O título escolhido para o capítulo II, “Claridade Matinal” encerra em si uma belíssima imagem metafórica para relatar lembranças de sua infância, divididas em três subtítulos: “Canindé”, “Paraíba” e “Rio Negro”.

Na epígrafe de “Canindé” há uma citação bíblica pertinente do livro Gênesis 12,1: “Sai de tua terra, da parentada e da casa de teu pai, para a terra que te mostrarei”. No texto, o futuro frade narra sua passagem pelo Colégio de Canindé, cidade do interior do Ceará.

Em “Paraíba” a narrativa se dá em torno dos estudos do garoto cearense no Colégio Seráfico, em João Pessoa-PB, e sua passagem da infância para a puberdade.

“Rio Negro” diz respeito ao antigo Colégio Seráfico de Rio Negro, localizado a cerca de três quilômetros da cidade Rio Negro-PR, local onde o adolescente Carlos realizou seus estudos preparatórios para a futura vida religiosa.

O capítulo III, intitulado “Sol entre Nuvens”, começa com um “Entreato”, no qual o autor relata uma quadra de transição em sua vida, entre a sua saída de Rio Negro, com pouco mais de quinze anos de idade, e a sua entrada no noviciado, em Pesqueira-PE.

O noviciado é o primeiro passo para o candidato que deseja ser frade. O que de fato aconteceu com Carlos Almeida ao concluir seus estudos de Filosofia, em Olinda-PE, e Teologia, em Salvador-BA, onde foi ordenado, em 25 de novembro de 1945.

A escolha do título do capítulo IV, “Sob o Sol do Meio-Dia”, foi emblemática, por comportar duas imagens: a passagem cronológica do tempo e as condições meteorológicas favoráveis à visão mais clara dos fatos, pois o Sol não estaria mais entre nuvens. Novos desafios estariam por vir, começando pela atuação como professor no Seminário Franciscano de Ipuarana.

E foi no Seminário de Ipuarana, em Lagoa Seca-PB, onde Frei Filipe dedicou grande parte de sua vida religiosa e como professor, desde a sua chegada, em 16 de janeiro de 1946. No exercício da docência, talvez o seu maior legado tenha sido a criação da Sala de Física Experimental, em 1960.

No Seminário de Ipuarana, Frei Filipe lecionou diversas disciplinas, dentre elas: matemática, português, física, química, alemão e religião. Em 1967, quando foi facultado, aos que desejassem, voltar ao nome do batismo, o até então Frei Filipe passou a ser chamado Frei Carlos, como antevendo outras mudanças que viriam a ocorrer a partir de 1970.

E essas mudanças vieram. Conforme narrado no capítulo V, “Instabilidade Vespertina”: nomeação como secretário da Província, primeira visita a Alemanha, Suíça, Itália e Portugal, em 1971; mortes de familiares, a crise que se abateu sobre o Seminário de Ipuarana; em 1972, convite para atuar como professor de Física Experimental no Campus II da Universidade Federal da Paraíba, em Campina Grande-PB; decisão de deixar Ipuarana, em 1974; aprovação no exame vestibular para Licenciatura em Física, na Universidade Regional do Nordeste (atual Universidade Estadual da Paraíba); atuação docente nos colégios Estadual da Prata e Redentorista; cargo de capelão no Mosteiro das Clarissas, onde celebrou sua última missa, em 15 de novembro de 1975; desligamento da Ordem Franciscana, em 5 de março de 1976; casamento religioso com efeito civil, cerimônia realizada na Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, bairro de Bodocongó, em Campina Grande, em 17 de julho de 1976. Nome da esposa: Maria do Socorro Guedes Almeida.

No fim do capítulo VI, intitulado “Cores Crepusculares”, inspirado nas palavras dos Salmos 119 e 120, Carlos Almeida escreveu: “Na minha tribulação clamei ao Senhor, e ele me enviou socorro. / Na minha tribulação clamei ao Senhor, e ele me enviou – SOCORRO! ”

As “Cores Crepusculares”, prenúncio da noite, descritas no Capítulo VI podem ser comparadas com as últimas pinceladas sobre a tela representativa da vida do escritor Carlos Almeida.

Em 9 de agosto de 2010, o Pai celestial chamou à Sua morada eterna a alma de Seu filho, o saudoso professor e tradutor Carlos Almeida Pereira, Frei Carlos, Frei Filipe.

 

Campina Grande, 26 de agosto de 2021
[email protected]

 

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Benedito Antonio Luciano

Professor doutor, titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

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