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Fraqueza forte de Deus

Padre José Assis Pereira. Publicado em 7 de julho de 2018 às 20:50

Quando o culto era impossível em Israel, naquela situação de diáspora, o sacerdote Ezequiel acompanhou o povo no exílio da Babilônia num mundo pagão (cf. Ez 2,2-5) sendo investido de uma maior responsabilidade: “Eu te envio aos israelitas, nação de rebeldes, que se afastaram de mim… que se revoltaram contra mim. A estes filhos de cabeça dura e coração de pedra, vou te enviar”.

Deus chama Ezequiel para que com a sua Palavra fortaleça a fé do seu povo no exilio. O envio desse homem é mais um sinal do amor de Deus ao seu povo. Deus queria a sua conversão porque o amava. Até aos dias de hoje, nunca desistiu nem desistirá de chamá-lo aos caminhos da felicidade.

Ao sacerdote e profeta o Senhor não lhe enviava enganado, mas sim o advertiu claramente sobre a possibilidade de que os seus ouvintes não fossem precisamente um “público agradecido”, esse público que desejamos ter à nossa frente. O profeta deverá falar-lhes em seu nome, como seu porta-voz, mesmo ante a fácil previsão de que não o escutarão.

A experiência da presença e da grandeza de Deus e da debilidade do seu profeta foi para Ezequiel tão forte que ele cai por terra, mas “o Espírito entrou em mim e me fez levantar” e o mantém em pé! Ezequiel, cujo nome significa “Deus é forte”, vai necessitar toda essa fortaleza divina para cumprir sua difícil missão profética.

O Apóstolo Paulo (cf. 2Cor 12,7-10) também aprendeu a reconhecer e a apreciar o mistério da “fraqueza forte” de Deus. É só na fragilidade do apóstolo que pode exprimir-se o poder de Deus. É uma grande revelação para Paulo que grita: “Quando eu me sinto fraco, é então que sou forte”.

Deus manifesta-se à humanidade na fraqueza e na fragilidade. Normalmente, Ele não se manifesta na força, no poder, nas qualidades que o mundo acha brilhantes e que as pessoas admiram e endeusam; mas, muitas vezes, Ele vem ao nosso encontro na fraqueza, na simplicidade, na debilidade, na pobreza, nas situações mais simples e banais, nas pessoas mais humildes e despretensiosas…

É preciso que interiorizemos a lógica de Deus, para que não percamos a oportunidade de encontrá-lo, de reconhecê-lo em sua encarnação na fragilidade humana e perceber os seus desafios, de acolher a proposta de vida que Ele nos faz.

Jesus volta a Nazaré (cf. Mc 6,1-6) sua terra, rincão risonho e escondido da Galiléia, cenário e marco de sua vida oculta feita de cotidianidade, da simples convivência familiar, sem nada de extraordinário ou fantástico. Dia a dia de pequenos deveres, de um simples trabalho, mas ocasião para oferecer ao Senhor com delicadeza e carinho esses retalhos de vida que vão ora ficando ao lado ora compondo a nossa história de vida.

Como judeu piedoso e cumpridor da Lei Jesus foi à sinagoga de Nazaré no dia de sábado, dia sagrado na lei de Moisés. Fazendo uso da palavra que tinha direito qualquer um dos assistentes na liturgia sinagogal judaica começa a falar. Não sabemos o conteúdo da sua homilia, sabemos apenas que suas palavras transcendem sabedoria, força e luz para quem lhe escuta com boa disposição.

Já para quem ouve com espírito critico, essas mesmas palavras provocam a desconfiança e até o escândalo: “De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos? Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria…” (vv. 2-3)

No meio dos seus conterrâneos, entre aqueles que o conhecem desde pequeno e conhecem a sua família Jesus só encontra perplexidade, preconceito, escândalo, enfim rejeição. Como diz o quarto Evangelho: “Veio para o que era seu e os seus não o receberam.” (Jo 1,11)

Nem sempre a pregação de Jesus foi acolhida com entusiasmo e fé, mas certamente foi em Nazaré que obteve um resultado pior do que em qualquer outro lugar. Jesus cita então um antigo provérbio: “Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares”. (v. 4)

A recusa generalizada da proposta que Jesus traz coloca-o na linha dos grandes profetas de Israel. O povo teve sempre dificuldade em reconhecer o Deus que vinha ao seu encontro na Palavra e nos gestos proféticos. O fato de as propostas apresentadas por Jesus serem rejeitadas pelos líderes religiosos, pelo povo da sua terra, pelos seus “irmãos e irmãs” e até pelos da sua casa não invalida, portanto, a sua verdade e a sua procedência divina.

Na recusa dos habitantes de Nazaré, fica claro que não podemos nos deixar levar pelo espírito crítico quando escutamos quem nos fala em nome de Deus. Por trás das aparências da palavra humana temos que descobrir o brilho da Palavra Divina.

Cada cristão deve ser um eco profético da voz de Deus. Mas não é fácil ser profeta, em nenhum tempo o foi. A cristandade acabou na maioria dos lugares do mundo. O catolicismo oficial e massivo passou na história. É melhor que seja assim, para que a vivência da nossa fé seja mais pura.

Não devemos cair num pessimismo injustificável. Jesus não cede, embora criticado, “percorria os povoados das redondezas, ensinando”. (v. 6) É o que deve fazer o cristão ou a Igreja, embora igualmente criticada e rejeitada têem como missão recebida do Alto fazer e pregar o bem, quer escutem, quer não escutem e deve cumprir.  

Esta cena da sinagoga de Nazaré não é algo que se passou e não se repete. É um caso que está se dando constantemente entre nós, entre os que nos sentamos nas nossas reuniões “religiosas” e recusamos rotundamente a pessoa quando não nos agrada e não cumpre os cânones dos quais consideramos perfeitos e consagrados.

O milagre não foi possível em Nazaré. O milagre se encontra principalmente na interpretação de um fato como ação salvadora de Deus. Sem a fé das testemunhas de uma cura não pode haver milagre.

Neste caso, os atos de Jesus não foram “lidos” a partir de uma ótica de fé, e o milagre não foi possível. Só a fé faz possível o milagre.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

falecom@fhc.com.br

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