...

Campina Grande - PB

Folhetos e romances de cordel

11/12/2017 às 22:39

Fonte: Da Redação

Foto: Leonardo Silva/ Paraibaonline

Por Benedito Antonio Luciano

Houve um tempo em que comprei, com frequência, exemplares de folhetos de cordel publicados pela Editora Luzeiro, tanto via correios, mediante reembolso postal, ou diretamente aos vendedores nas feiras livres de Campina Grande – PB.

A denominação “folhetos de cordel” deve-se à forma como essa literatura popular era comercializada originalmente nas feiras livres do Nordeste brasileiro, onde os folhetos eram expostos à venda pendurados em barbantes (cordéis) ou arames esticados entre dois suportes.

Os cordéis publicados pela Editora Luzeiro diferem dos tradicionais em três aspectos: dimensões, capa e textura do papel. Nos folhetos tradicionais as dimensões são de 16 cm por 10 cm, enquanto naqueles da Editora Luzeiro as dimensões são 18 cm por 13,5 cm. As capas dos folhetos tradicionais são ilustradas com xilogravuras e as folhas internas são impressas em papel jornal de má qualidade. Nos cordéis produzidos pela Editora Luzeiro as ilustrações das capas e contracapa são coloridas e o papel utilizado na impressão interna é de qualidade superior.

Em termos de extensão, os cordéis possuem entre oito e trinta e duas páginas. Por convenção, um cordel entre oito e dezesseis páginas é denominado “folheto” e a partir de trinta e duas páginas é conhecido como “romance”.

Sobre a temática literatura de cordel muito já foi escrito e publicado, sob a forma de livros, monografias, dissertações e teses acadêmicas. Por exemplo, em 1953, Câmara Cascudo trouxe a público o texto de sua autoria denominado “Cinco Livros do Povo”, no qual são analisados os cordéis: Donzela Theodora, Roberto do Diabo, Princesa Magalona, Imperatriz Porcina e João de Calais, com anotações adicionais sobre História do Imperador Carlos Magno e dos Doze Pares de França.

Dentre os mais de cem exemplares de cordéis que preservo em minha estante, além dos citados em “Cinco Livros do Povo”, destaco os seguintes títulos:

“O grande debate de Camões com um sábio”, “As astúcias de Camões”, “Festa da bicharada”, “A morte, o enterro e o testamento de João Grilo”, “Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum”, “Antonio Silvino”, “Vicente, o rei dos ladrões”, “O encontro de Cancão de Fogo com Vicente o Rei dos Ladrões”, “A intriga do cachorro com o gato”, “Lampião, Rei do Cangaço”, “A chegada de Lampião no inferno”, “A volta de Lampião ao inferno”, “Os cabras de Lampião”, “Encontro de Cancão de Fogo com Pedro Malazarte”, “A segunda vida de Cancão de Fogo”, “Juvenal e o dragão”, “História do Bicho de Sete Cabeças”, “O cachorro dos mortos” e “O pavão misterioso”.

Prosseguindo, seguem alguns títulos adicionais:

“O filho de Evangelista do pavão misterioso”, “O contador de mentiras”, “História de três cavalos encantados”, “A batalha de Oliveiros com Ferrabras”, “O cachorro dos mortos”, “História do boi misterioso”, “Padre Cícero, o santo do Juazeiro”, “A luta de Zé do Caixão com o diabo”, “Carta de Satanás a Roberto Carlos”, “A traição de Dalila e a força de Sansão”, “História da Princesa da Pedra Fina”, “Os mistérios da princesa dos sete palácios de metais”, “O lobisomem encantado”, “A mulher que enganou o diabo”, “Helena, a virgem dos sonhos”, “Antônio Conselheiro e a Guerra de Canudos”, “O romance da princesa do reino do mar sem fim”, “As perguntas do rei e as respostas de Camões” e “A mulher que se casou dezoito vezes…”.

Embora a amostra apresentada neste texto seja pequena, tomando como base os títulos atribuídos pelos autores aos seus folhetos e romances, são identificados temas que, de acordo com Ariano Suassuna, podem ser classificados como: heroico, trágico e épico; fantástico e maravilhoso; religioso e de moralidades; cômico, satírico e picaresco; histórico e circunstancial; amor e fidelidade; erótico e obsceno; político e social; pelejas e desafios.

Acompanhando o dizer do poeta e pesquisador literário Irani Medeiros, em seu livro “No reino da poesia sertaneja – Antologia – Leandro Gomes de Barros”, “a história do povo nordestino, de certa forma, pode ser contada e lida a partir das várias histórias de cordel, com sua riqueza temática bastante variada”.

Leandro Gomes de Barros, paraibano de Pombal – PB, como Irani Medeiros, pode ser considerado como o pioneiro na produção e comercialização do cordel no Brasil.

Neste contexto, segundo Irani Medeiros, o cordel teve origem na área rural, passando para a área urbana e, por último, se faz presente nas grandes metrópoles.

Assim, seguindo a evolução dos sistemas de comunicação, atualmente é comum encontrarmos produções poéticas no formato de cordel, editadas, publicadas e divulgadas nos meios computacionais, abrangendo um público globalizado, em contraste com os autores e leitores do início do século XX.

O autor é Professor Titular do Departamento de Engenharia Elétrica da UFCG.

Veja também

Comentários

Simple Share Buttons