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Folha Corrida – 50 anos de poesia e 70 de vida do mestre Sérgio de Castro Pinto

José Mário. Publicado em 15 de outubro de 2017 às 11:35

Por José Mário da Silva (*)

A Academia Paraibana de Letras foi palco, no dia vinte e dois do mês de setembro recém-findo do ano em curso, de uma bela solenidade literária, cujo protagonista foi o ensaísta e poeta Sérgio de Castro Pinto, que lançou o livro Folha Corrida, uma reunião de poemas escolhidos, publicados no período compreendido entre os anos de mil novecentos e sessenta e sete e dois mil e dezessete, o que totaliza uma cronologia de atividade poética correspondente a exatos cinquenta anos de uma existência consumida e consumada naquele que em “Procura da Poesia”, Carlos Drummond de Andrade chamou de “o reino das palavras”.

São setenta anos de vida e cinquenta anos de poesia. O livro foi publicado pela Editora Escrituras – São Paulo – 2017, o que sinaliza para o fato de ser Sérgio de Castro Pinto um escritor cuja obra já é objeto de acolhimento por parte de editoras localizadas em centros geográficos do país dotados de maior prestígio político, econômico e cultural.

Aqui é importante ressaltar que Sérgio de Castro Pinto já foi alvo de recepção crítica de alguns dos mais consagrados nomes da crítica literária especializada do Brasil, a exemplo de Ivan Junqueira, Ivo Barroso, Temístocles Linhares, Gilberto Mendonça Teles, Nelly Novaes Coelho, dentre outros tantos que vislumbram na arte poética do criador de A Ilha na Ostra, superior qualidade estética.

No âmbito da crítica literária exercida na espacialidade paraibana, tão qualificada quanto a que se potencializa noutras regiões do país, Sérgio de Castro Pinto constitui-se numa espécie de irrasurável unanimidade, havendo mesmo quem o considere o maior poeta paraibano da atualidade, a exemplo do professor universitário e crítico de cinema João Batista de Brito. Aliás, o professor João Batista dedicou os seus estudos de doutoramento em letras a uma percuciente apreciação da poesia de Sérgio de Castro Pinto, que resultou na tese Signo e Imagem em Castro Pinto, a primeira defendida no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal da Paraíba.

Apoiado em Gaston Bachelard e Michael Rifaterre, dentre outros aportes teóricos convocados na exegese da poesia do criador de Gestos Lúcidos, João Batista de Brito dissecou, com invulgar brilhantismo, os vãos e desvãos da lírica de Sérgio de Castro Pinto.

A sessão levada a efeito na Casa de Coriolano de Medeiros foi muito bonita, contando com momentos marcantes e consagradores para o notável escritor paraibano. A dupla Vinícius e Ana realizou uma extraordinária performance instrumental, em cujo estuário violão e violino consorciaram-se numa sinfonia de rara beleza. O Grupo Poética Evocare deu as mãos a Ferreira Gullar, Hildeberto Barbosa Filho, Cora Coralina, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Sérgio de Castro Pinto, para, em seguida, com o seu peculiar sotaque e singular competência, dramatizar a leitura de poemas dos aludidos poetas. Leitura essa, registre-se, pródiga em captar a tonalidade de cada poema realizado oralmente, encarada a tonalidade como a dimensão afetiva que recobre as camadas da expressão, conforme doutrina o mestre Alfredo Bosi em seu livro Céu, Inferno – ensaios de crítica literária e ideológica.

Outro ponto alto da sessão radicou na apresentação do livro Folha Corrida, feita pela professora e acadêmica Ângela Bezerra de Castro, que, ao fazê-lo, revelou o profundo conhecimento que ela detém acerca da poesia de Sérgio de Castro Pinto, não somente no que diz respeito às temáticas abordadas pelo autor em sua obra, como também no que tange aos procedimentos retórico-estilísticos de que o poeta se tem valido ao longo de sua vitoriosa travessia literária.

Fiel à lição crítica exponenciada por Leo Spitzer, segundo a qual “o leitor deve ler um texto tantas vezes quantas se fizerem necessárias, até que de repente o texto se revele num detalhe”, Ângela Bezerra de Castro fez uma vertical leitura do poema “A Lua de Augusto”, na qual a modernidade da lírica do genial Augusto dos Anjos contracena com a modernidade exemplar do próprio Sérgio de Castro Pinto, num poema que prima pela bem urdida dialogicidade intertextual, acumpliciada a uma atmosfera impregnada de humor.

No corpo da linguagem textual, tem-se o atrito entre as pressuposições estéticas oriundas do parnasianismo, de um lado, e da modernidade literária de outro. Tomando como ponto de partida das suas considerações, o poema “A lua de Augusto”, mas, ao mesmo tempo, as amplificando com a convocação de outros textos do poeta paraibano, a professora Ângela Bezerra de Castro produziu uma apreciação extremamente justa da poética de Sérgio de Castro Pinto.

Por último, o criador de O Cerco da Memória fez um pronunciamento alicerçado no código memorialístico, ao escavar as fendas do tempo e revisitar as cenas e cenários do seu itinerário poético, e do que foi trilhado pelos escritores, especialmente os poetas, que compuseram a sua geração. Geração que emergiu no contexto asfixiante da vida política nacional, o que dizia respeito à ditadura militar surgida no país na quadra cronológica dos anos sessenta.

Tal realidade política findava criando certo impasse para os poetas, qual seja o de produzirem uma arte que nem fosse indiferente ao contexto vigente na época, nem descambasse numa arte puramente panfletária, despojada do cuidado mais efetivo para com a linguagem.

Sérgio de Castro Pinto sempre soube que o primeiro e intransferível compromisso do escritor é com a linguagem, daí o burilamento formal que sempre caracterizou o seu universo poético, o rigor com que ele trata cada palavra de que se utiliza no ato/processo de recriação da realidade.

Em suma, Folha Corrida ratifica as sobrantes virtudes de um poeta que tem, ao longo de cinquenta anos de luta com as palavras, conferido invulgar dignidade às letras paraibanas.

(*) Docente da UFCG/ membro da Academia Paraibana de Letras

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

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