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As novas aventuras de “Alice”

Flávio Romero. Publicado em 12 de setembro de 2021 às 11:30

Ao amanhecer, invariavelmente, faço um passeio pelas redes sociais. Aliás, penso que muitas pessoas fazem o mesmo – talvez até antes de escovar os dentes. Ou de abrir os olhos?

Esse passeio matinal me atualiza sobre os “mundos” – do intangível ao tangível. Informações, “fofocas”, obituários, Fake News, colunismo social, política, brigas de múltiplas origens, etc. – tudo isso faz parte do universo imperscrutável das redes sociais. Compulsivamente, vou olhando o movimento de pessoas conhecidas (ou desconhecidas) que postam fotos e fatos das suas vidas próprias, com estratégicos cuidados em relação aos cenários – é preciso deixar à mostra o esteticamente belo. Há um esforço cotidiano das pessoas para que a concepção que as outras fazem delas e da qual derivam a consciência, a identidade, o papel social e o valor, seja o mais aproximada possível da perfeição.

Para essas pessoas, não importa, muitas vezes, a nitidez da autoimagem. Nem a precisão do valor que fazem de si mesmas. O que verdadeiramente importa é a imagem que os outros fazem delas. Talvez essa seja a razão do esforço que fazem para revestirem os fatos e fotos de detalhes que causam deslumbramento, favorecendo, por vezes, o aflorar da mais abominável inveja. Não se deve tomar essa reflexão como regra. No entanto, é preciso compreender que os espaços das redes sociais também se prestam ao falseamento da realidade. O vida reverberada nas redes sociais com múltiplas cores, nem sempre corresponde à realidade da vida, marcada por tons de cinza.

No vasto mundo das redes sociais quase não há espaço para a realidade (ou a verdade) – “nua e crua”. Quase sempre, as vidas são apresentadas em “embalagens” bem apresentáveis que valorizam o invólucro externo (superficial e o aparente) em detrimento do conteúdo (real e quase sempre oculto aos olhos dos peregrinos digitais). Para mim, sem desconsiderar outras abordagens igualmente relevantes, as redes sociais evidenciam uma dicotomia preocupante. Por um lado, as redes sociais se transformaram num terreno do “vale tudo”, sem rédeas, sem limites e “sem lei”. Um espaço propenso à difusão de discursos de ódio, de agressividade, de incitação à violência, etc. Por outro lado, as redes sociais promoveram o desfile de personagens que, pelo menos na apreciação das singulares postagens, conseguiram alcançar a felicidade plena na Terra – pessoas sempre lindas e exuberantes, bem casadas e apaixonadas, com famílias unidas e perfeitas, com trabalhos dignificantes, emocionalmente “resolvidas”, sempre “arrumadas” e bem cuidadas, etc.

Nessa vida virtual, há pouco espaço para as vulnerabilidades e às imperfeições humanas. Com raríssimas exceções, se observa a exposição virtual das dores, dos dissabores e das fragilidades humanas – “cuidar” da autoimagem é viver numa espécie de “bolha” em que os outros enxergam, tão somente, a superfície – quase sempre frágil e sensível.

Recordo, nesse contexto, uma das frases mais citadas no mundo literário, registrada no livro “O Pequeno Príncipe”, de Saint-Exupéry, a saber: “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”.

Será que os nossos olhos virtuais conseguem enxergar o essencial nos fatos e fotos que se avolumam nas redes sociais?

Será que conseguimos enxergar com o coração o que há por trás do “visível”, presente nas postagens?

Será que o mundo do aparente, reverberado nas redes sociais, não é tão somente a expressão do que de fato desejamos? E ainda não temos?

Talvez a falta desse olhar para além do aparente esteja diretamente relacionada com a falta de empatia, de respeito e de amor ao próximo. Concorda?

Ficam as perguntas para possíveis reflexões. Não sei as respostas. Apesar de não saber as respostas, confesso que me preocupo com essa dicotomia, presente nas redes sociais. Repentinamente, ao escrever esse texto, pensei: não seria mais fácil reservar meus neurônios para transmitir impulsos que não me causassem tantas reflexões inquietantes?

Pois bem, ao pensar nas redes sociais, sob a perspectiva deste artigo, e sem a pretensão de apresentar uma leitura inquestionável e única do tema, me lembrei de: “As Aventuras de Alice no País das Maravilhas”, a célebre obra escrita por Lewis Carroll, pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson, publicada em 4 de julho de 1865. A obra infantil que conquistou leitores e apaixonados de todas as idades e de diversas gerações, permite múltiplas trilhas de leitura e de interpretações possíveis, inclusive por estar repleta de referências e críticas à cultura da época. É, justamente, sobre esta singularidade da obra, contextualizada aos tempos hodiernos que me permito fazer breves elucubrações reflexivas (ou devaneios de uma manhã ensolarada de um sábado qualquer?).

Para quem ainda não leu o bestseller, sugiro que o faça. Vale a pena dar asas ao imaginário, revisitando, por vezes, memórias da meninice que nos são muito caras. No entanto, para quem já leu, ouso fazer uma provocação reflexiva, tecendo teias entre personagens, perfis e fatos, para enxergar as redes sociais como um pedaço infinito e imaginário do “País da Maravilhas”. Aliás, a minha ousada pretensão é que qualquer leitor deste artigo, conhecendo ou não o livro, possa se envolver das tessituras reflexivas dessa trama argumentativa, tirando suas próprias conclusões, sobre as provocações que me permito apresentar. Pois bem, penso que nas redes sociais, cada um de nós se transforma em uma “Alice” – menina curiosa que mergulha sem pensar numa toca, seguindo um Coelho Branco apressado, vestido com um colete e portando um relógio.

A “Alice” que passeia das redes sociais, segue um Coelho Branco, ágil e veloz, que a aprisiona num colete e impõe com seu relógio um tempo, célere, inquietante e desafiador. Na medida que impõe limites pelo colete, deixa o tempo agir, compulsiva e irremediavelmente. “Alice” entra da toca (redes sociais), sendo projetada para um novo mundo, repleto de animais, objetos antropomórficos que falam e assumem comportamentos humanos. Nesse mundo das redes sociais, as pessoas têm múltiplas faces, os animais e objetos ganham uma “nova” vida, quase humana, transformando o universo cotidiano de “Alice” numa enorme aventura, confrontada com o absurdo, o impossível, o questionável, o imaginário, o ilusório, o irreal… paradoxalmente, o colete que limita não é capaz de deter o tempo que segue sua marcha, inexorável e inquietante.

Nesse novo mundo, “Alice” é submetida, muitas vezes, aos julgamentos e às depreciações públicas por parte daqueles que igualmente habitam o “País das Maravilhas”. Pessoas que usam o tempo e a “liberdade” para invadir, sem limites, os espaços privados alheios.

No extremo dessas atitudes, “Alice” é condenada pela Rainha de Copas à morte por execração pública de consequências psíquicas e emocionais imprevisíveis. A soberana virtual usa os seus soldados para transformar as redes sociais em terra de ninguém, difundindo a tirania das maldosas opiniões alheias, dos julgamentos indevidos, das violações à intimidade, dos prejuízos à imagem, do constrangimento de toda espécie, da vergonha pública, das agressões reiteradas, do cyberbullying, entre outros flagelos, veiculados em tempo real, no “País das Maravilhas”.

Alice”, apesar de inteligente e observadora, sucumbe, por embarcar numa viagem para um espaço onde tudo parece ser diferente daquilo que ela conhecia. A curiosidade e a imaginação dos tempos de “infância”, dão lugar a dor e a tristeza, decorrentes da propagação de ofensas e maldades que a levam a transtornos emocionais, ocasionando em alguns casos, até o suicídio. Nem adianta apelar ao Coelho Branco, pois a passagem inevitável do tempo, serve, tão somente, para propagar, ainda mais, os efeitos nefastos da violência virtual que se potencializa por um crescimento exponencial incontrolável. Pouco vale, também, apelar ao Gato de Cheshire, pois o sorriso contínuo do felino passa a se reproduzir na face de centenas, de milhares e até de milhões de personagens virtuais que curtem, compartilham e comentam a violência virtual perpetrada, confundindo, ainda mais, o conturbado e frágil mundo interior de “Alice”.

Para sobreviver, “Alice” deve ser aconselhada a deixar para trás a lógica de aceitar passivamente as agressões virtuais, admitindo que há uma certa dose de insanidade em todos os personagens. Deve, inclusive, fugir do Chapeleiro Louco que tenta fazer com que ela abandone as normas sociais e as regras da boa convivência e se submeta às insanidades de um mundo virtual em que certos personagens se sentem livres para todo tipo de violência, muitas vezes face à interpretação enviesada da liberdade de expressão.

Para enfrentar e superar a violência da Rainha de Copas e dos seus soldados, Alice deve buscar os meios para evitar o forte isolamento social, o desconforto e a tristeza. Deve buscar a ajuda e até os remédios jurídicos para não sucumbir e ser acometida por problemas de etiologias complexas, como a depressão, o transtorno de ansiedade generalizada e outras desordens psíquicas.

Graças às redes sociais, Alice nunca esteve tão conectada em um país de tantas maravilhas e tantos desafios existenciais. É fato que a vida social, cultivada no espaço virtual, difere da vida social do mundo real. Apesar de dinâmica, a vida virtual é superficial e, por vezes, falsa e mentirosa. A tendência de Alice é passar horas atualizando os seus diversos perfis virtuais. Esse apego e dependência das redes sociais e da internet tende a aumentar, sempre.  

O desafio de Alice é saber lidar com o espaço de oportunidades para interagir e se relacionar, fomentado pelas redes sociais, sem perder de vista a compreensão de que esse espaço também pode ser usado para agressões e violências, em que qualquer pessoa pode se tornar uma vítima, face à própria vulnerabilidade de universo virtual, posto que, na rede, tudo acontece mais rápido e tem maior alcance. Nesse “País das Maravilhas”, ninguém está imune.

Talvez seja oportuna uma última reflexão:

As plataformas digitais podem ser muito bem aproveitadas quando se têm responsabilidade, inteligência emocional, empatia e boas intenções. No entanto, a influência descontrolada do mundo virtual na realidade de “carne e osso”, pode trazer inúmeras consequências negativas para a saúde mental e o equilíbrio emocional.

O tempo é de refletir e de agir em favor de um mundo virtual marcado por mais respeito e por mais empatia. Um mundo virtual livre das agressões e das violências, nascidas das insanidades perpetradas pelos diversos personagens do “País das Maravilhas”.

Disseminação de imagens íntimas, discurso violento, espionagem eletrônica, sextorsão, Cyberbullying, perfil falso, Perseguição (cyberstalking), censura ou controle no ambiente digital, não são naturais, não são normais e, se acontecerem, nenhuma “Alice deve sofrer calada. A violência on-line não é besteira, e a vítima não está exagerando quando fala do seu sofrimento.

Por fim, é muito bom amanhecer e fazer um passeio pelas redes sociais. É muito bom se manter conectado com o mundo digital. Mas, fique atento: no “País das Maravilhas”, a violência on-line não é um problema individual. É um problema coletivo. Um problema de todos nós. Se qualquer uma pessoa pode sofrer, então todas devem ajudar e apoiar as vítimas.

Se ligue, “Alice”!

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