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Coluna de Jurani Clementino: Festa de casamento!

Jurani Clementino. Publicado em 21 de dezembro de 2018 às 8:44

Amanhã, meu sobrinho mais velho vai se casar. Foi ele quem me fez experimentar a sensação de ser tio. Antes dele eu não sabia nada disso. Mas também não é lá essa coisa toda. Você apenas fica sabendo que envelheceu ou que, vez por outra precisa comprar uma lembrancinha pra agradar os sobrinhos. Percebe também que a família aumentou e coisa e tal. Bom, mas esse negócio de casamento me fez lembrar algumas situações engraçadas daquelas festas que o povo fazia nos sítios para recepcionar os convidados depois da solenidade realizada na Igreja Matriz. Fui a algumas delas. No meu sítio mesmo ou nas redondezas. E era sempre uma ocasião singular.

Primeiro praticamente todo mundo, era convidado a participar da festa. Salvo exceções em que havia um conflito muito sério entre as famílias para não serem chamadas. Depois era um evento colaborativo porque a dona da festa tomava emprestado o que era de cadeira, mesa, prato, colher, panelas da vizinhança toda para poder servir a comida aos convidados. Sem contar que o anfitrião sacrificava o que era de porco, cabrito, galinha, capote etc, para servir durante o evento. Como as casas eram geralmente pequenas para receber tanta gente, logo se construía uma espécie de puxadinho no oitão das residências. Ali perto da cozinha. Tudo improvisado com palhas de coco. E lá as dezenas de mulheres cozinheiras se revezavam fazendo macarrão, cozinhando as carnes, temperando o feijão.. Ah! não se usava muito feijão em festa de casamento. Parece que tratava-se de um produto que não agregava valor a ocasião. Raramente você encontra feijão em tais solenidades.

Mas arroz tinha com fartura. Imensas panelas cheias do produto fumegavam sobre as estruturas improvisadas de tijolos. Aquelas cozinheiras faziam uma espécie de divisão para que cada uma cuidasse de uma parte específica da comida e, no horário marcado, para à chegado dos noivos, tudo estivesse pronto para ser servido. Às vezes cozinhava-se alguns alimentos no dia anterior e guardava para ser servido no dia seguinte. Como não havia geladeira, muitos desses alimentos não só ficava estragado como provocavam um estrago danado na barriga dos convidados. São vários os relatos de problemas intestinais em festa de casamento.

Mas a preparação das comidas começava quando os homens abatiam os animais. Depois eram as mulheres que resolviam o resto enquanto eles (os homens) batiam papo debaixo de uma arvore qualquer ou nas salas e calçadas das residências. Nesse meio tempo, os noivos, as testemunhas e a maioria dos convidados se dirigiam até a cidade para a cerimônia de casamento. Os carros voltavam abarrotados de gente e cobertos de poeira. Quando chegavam, tudo já estava pronto. Então, formava-se uma fila para cumprimentar os recém-casados.

Assim que desciam do carro, era tradição, o casal ajoelhado pedir a bênção dos pais (tanto do noivo quanto da nova). Esse ritual de respeito e fé acontecia ali na calçada mesmo. Era ainda uma manifestação pública. Todo mundo ficava observando a cena. Só depois é que a comida era servida. Nessa hora aparecia cachorro vira lata de todo canto querendo comer também. Tinha até briga de cachorro na cozinha que era um deus nos acuda para salvar as panelas de comida. As crianças, muitas delas famintas e doidas por um pedaço de carne ou alguma mistura que elas quase nunca comiam, eram uma espécie de cachorro humano implorando por um prato de alimento. Às vezes as mães colaboravam antecipando o alimento delas. Outras vezes as pobres tinham que esperar. Ficavam ali, amarelas de fome e só iam se alimentar quando já não suportavam mais.

Bem, amanhã não terá esse tipo de festa pra celebrar o casamento de meu primeiro sobrinho. Soube que será uma cerimônia simples, feita em casa e reservada a família e alguns integrantes da igreja. De todo modo, vida longa ao jovem casal Romulo e Yris!

Jurani Clementino

Campina Grande – terça-feira, 18 de dezembro de 2018

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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