Fernando Henrique Cardoso: É hora de os candidatos se apresentarem

Fernando Henrique Cardoso. Publicado em 11 de maio de 2021 às 19:43

Há períodos em que se necessita ter muita imaginação, ou o senso de dever aguçado, para cumprir compromissos.

Pois bem, olhando em volta, e com minha escassa imaginação, só resta mesmo o senso do dever para escrever esta coluna: o desânimo em volta acaba por inibir, senão a todos, a muitos de nós, brasileiros.

Será que tal processo só ocorre conosco, ou é a pandemia que tira da maioria — queiramos ou não — a vontade de falar, de escrever? Tenho dúvidas.

Mas, o fato é que o desânimo tolhe muito a imaginação: ao redor, mortes e enfermos; por enquanto, há esperança de vencer mais este vírus. Mas escrever sobre política…

Francamente, com o governo atordoado e o povo desinteressado, pois o dia a dia consome as energias e boa parte da população deixa de lado tudo que existe além do trabalho e da família, parece até estranho que alguém se disponha a conjecturar sobre o futuro ou sobre o mundo.

Em meu caso, não fosse o “senso de responsabilidade” (herdado de pais e avós militares), preferiria “flanar”, como se dizia antigamente, a trabalhar sobre tais temas. Mas não há escolha: ao trabalho, portanto.

Para ver mais longe e não choramingar sobre o cotidiano local, convém pensar no positivo e no global.

Apesar do encolhimento econômico, os que mais sabem parecem ver caminhos e, bem ou mal, a democracia se manteve onde ela resplandece. Nos Estados Unidos, há um novo presidente, eleito pela maioria. Já isso é reconfortante.

Até que ponto a decisão americana nos atinge ou alcança? Por mais que acreditemos que nosso país é grande (somos mais de 200 milhões) e, afinal, a América Latina pesa para os Estados Unidos, é melhor não esquecer do ditado, como se diria em latim: modus in rebus. Ou, mais popularmente, devagar com o andor, pois o santo é de barro…

O mais provável é que, descontando-se as boas palavras e as regras de convivência, como é do feitio diplomático, as mudanças no panorama americano não mudem muita coisa entre nós… E ainda bem.

No mundo internacional, os interesses definem mais a ação do que a boa vontade ou mesmo os valores (salvo em casos extremos). Saudemos, pois, a mudança de governo por lá, pois o novo presidente pertence a um partido democrático; mas paremos por aqui e cuidemos de nosso quintal.

Não sei se é correto falar em “nosso” quintal. O mundo está tão integrado economicamente e as influências cruzadas são tantas que é melhor ser prudente.

De qualquer modo, a eventual insatisfação com o rumo das coisas por aqui não afeta os interesses maiores de lá, nem os de lá aqui. Se algo puder ocorrer, deverá ser por vontade da maioria daqui mesmo.

Ou seja, o olhar panorâmico ajuda, mas a decisão dos rumos há de ser local. Convenhamos: as maiorias se formam e nem sempre seus resultados são os melhores.

Mas quem julga? Na democracia, o eleitorado. E este, se não houver lideranças que abram seus olhos, pode resultar no que, ao ver de alguns, ou mesmo de muitos, seja a escolha de um mau caminho. Paciência.

Como tenho escrito nesta coluna, melhor esperar novas eleições do que tumultuar o processo. À condição de que se preparem alternativas mais consistentes com os valores nos quais acreditamos.

Escrevi “nossos” valores”. Quais? Há alguns conflitantes, e esta é a beleza do jogo democrático: não se sabe de antemão se a escolha foi boa, mas tem-se certeza de que haverá chance de refazê-la. Desde que a maioria mude de opinião.

Convém, portanto, não apenas aceitar resultados eleitorais, mas propor alternativas. É esta a fase em que estamos: os arreganhos de uns e outros deixam entrever que há vários caminhos.

É hora para os candidatos se apresentarem e dizer o que propõem. E me refiro aos candidatos de diversos partidos. Além de que, como se sabe, há mais de um candidato em alguns partidos.

Que pelo menos se comprometam a respeitar o jogo democrático; que se ocupem de defender nossos interesses, como povo e como cultura, e que tenham a capacidade de decidir, qualidade que é indispensável nos regimes presidencialistas. Talvez esta seja a crítica mais geral que se possa fazer a quem ganhou as últimas eleições.

Tem-se a impressão de que o eleito foi “uma família” e não seu chefe. E que este às vezes se cerca mal. E talvez fique, em certos momentos, menor do que a cadeira que ocupa.

Se dentre os candidatos houver um ou dois capazes de cumprir estes requisitos, o barco retornará a andar. O país, neste sentido, é mesmo grande: é só mostrar o rumo que ele caminha. Isso, se não serve de consolação, pelo menos explica como foi possível chegar onde chegamos.

Com muitas mazelas, é certo, mas caminhando para melhorar as condições de vida. Por enquanto não de todos, mas talvez de boa parte. Está passando da hora de querer que seja pelo menos a condição de vida da maioria.

E venha quem vier, se não enveredar pelo caminho do crescimento econômico e de mais renda para muitos, que encontre senão a oposição — que seria salutar —, pelo menos o desprezo da maioria.

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