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Fernando Henrique Cardoso: Annus horribilis

Fernando Henrique Cardoso. Publicado em 30 de janeiro de 2021 às 19:43

Mal escrevi o título deste artigo (usando o pouco latim de que ainda me recordo) e já me arrependi. 

 

Será mesmo, ou o ano que nos espera à frente será ainda pior? 

Difícil imaginar, mas não impossível. É certo que a pandemia, o novo coronavírus, mata sem piedade. E não só os mais velhos, molesta também os mais jovens, o que piora a situação. 

Também é certo que nos tocou um governo com pouca imaginação e que olha o País por um espectro curto. 

Mas, se olharmos para o mundo, pelo menos não houve guerra global e a recessão, embora forte, não é comparável a outras crises que paralisaram os negócios internacionais. 

Enfim, sem “panglossismo”, bem-feitas as contas, o ano foi mal, mas poderia (como quase sempre) ser pior… Não digo isso para me consolar ou, quem sabe, apascentar o eventual leitor. Digo porque é preciso olhar para a frente com alguma esperança. 

Sei também que é mais fácil imaginar que, “não fosse este governo”, a pandemia talvez não tivesse matado ou maltratado tanta gente. Será verdade? Provavelmente. 

Mas o vírus é soez e está dizimando as pessoas, independentemente da qualidade dos governos. Parece uma saída simples “culpar” só o governo (no caso, o federal) pelos males que nos afligem. 

Claro, não é sensato – para dizer o mínimo – trocar tantos ministros da Saúde e nomear, por fim, quem, por profissão, não conhece a matéria. Tão grave quanto isso é considerar os adversários como “inimigos”, jogando o País em divisões imaginárias. 

E sempre é possível ampliar a lista do que falta aos governantes para que tudo dê certo… Não é hora, contudo, para o ajuste de contas. 

A experiência mostra que é melhor esperar que o tempo escoe do que precipitar o fim de governos. Mais um pouco – se o povo não insistir nas antigas preferências e se tivermos a sorte de existir alguém que abra um caminho mais promissor – haverá novas eleições. 

Mudaremos algo? Para responder com franqueza, e deixando de lado o que não entendo (fico na torcida pelo fim da pandemia), temo que continuemos a “não ver”. 

Talvez o maior problema do País seja a desigualdade. E ela “se naturalizou”. Podemos até vê-la e fazer comentários gerais a seu respeito. Mas no dia a dia, como o problema vem de longe, acabamos por, implicitamente, aceitá-la. 

E essa talvez seja a maior dificuldade para obter o que, em geral, mais desejamos: que o País continue crescendo economicamente. 

Na cultura tradicional, é como se crescimento equivalesse a melhor distribuição de renda. Existe, é claro, uma relação entre a prosperidade econômica e o bem-estar geral. Mas é enganoso crer que basta a economia crescer para as “questões sociais” se resolverem. 

Nos dias que correm, não só a oferta de empregos está reduzida, como as transformações tecnológicas do mundo requerem maior capacitação profissional. 

Torna-se mais visível que educação e saúde são requisitos para a modernização da sociedade e da economia. Como, entretanto, somos mais de 200 milhões de pessoas, os setores dominantes parecem não se dar conta de que no longo prazo não haverá prosperidade com tanta miséria. 

Quem sabe a crise atual, dupla, a de saúde e a do desemprego, desperte não só “o governo”, mas cada um de nós. Quem sabe nos permita “ver” melhor e perceber que a transformação necessária é mais profunda e mexe com as pessoas, com cada pessoa, e não só com as instituições. 

Que pelo menos quanto à pandemia sejamos capazes de assumir nossas responsabilidades individuais. Não basta dizer: “Fiquem em casa”. Para isso é preciso “ter casa”. Ter emprego, sentir solidariedade. 

Se não estiver ao nosso alcance fazer as mudanças de maior profundidade, assumamos nossa parte: se pudermos, isolemo-nos; quando a vacina chegar – quanto antes, melhor –, vacinemo-nos. 

Ao menos isso. Neste ano terrível de 2020 a democracia triunfou sobre o preconceito e a intolerância nos Estados Unidos. 

A nação estava profundamente dividida em termos de filiação partidária e visão de sociedade. A maioria dos eleitores brancos, protestantes, pessoas sem diploma universitário e moradores nas cidades do interior votou em Trump. 

A maioria das mulheres, dos jovens, dos negros, das pessoas com diploma universitário e dos moradores das grandes cidades votou em Biden. 

A recusa de Trump a reconhecer a gravidade da pandemia custou-lhe caro. Como também suas atitudes misóginas e racistas. 

Suprema ironia, o voto negro foi decisivo tanto na escolha de Biden como candidato do Partido Democrata quanto em sua vitória nos Estados de Pensilvânia, Michigan e Geórgia, que lhe deram a maioria no colégio eleitoral. 

O espírito de liberdade, fundamento da democracia americana, prevaleceu sobre a polarização. As manifestações de protesto do movimento Black Lives Matter, em vez de assustar o eleitorado conservador, consagraram o respeito à diversidade como um valor constitutivo da América. 

Isso nos dá alento para continuarmos vivos e lutando para melhorar a vida da maioria: menos desigualdade, maior prosperidade. Mais respeito às leis e às pessoas.

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* Ex-presidente da República.

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