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Felizes!

Padre José Assis Pereira. Publicado em 16 de fevereiro de 2019 às 11:33

Neste domingo, ainda sob o impacto da pregação de Jesus na sinagoga de Nazaré quando Ele apresentou o seu programa libertador: “O Espírito do Senhor está sobre mim porque me ungiu, para anunciar a Boa Nova aos pobres…” (cf. Lc 4,18-19) Lucas apresenta-nos de outra maneira o que Jesus havia dito no inicio de sua atividade.

No “sermão da planície” ou das “bem-aventuranças” (cf. Lc 6,17.20-26), Jesus diz que é o enviado do Pai ao mundo, com a missão de libertar os pobres, os que têm fome, os que choram, os que são perseguidos, e lhes diz que Deus lhes ama de uma forma especial e quer oferecer-lhes a vida e a liberdade plenas. Por isso são “bem-aventurados”.

Lucas insere no seu evangelho que Deus tem um amor preferencial pelos pobres, seu amor universal passa pela parcialidade dos pobres. Ao indicar “felizes os pobres” traduz os que no Antigo Testamento era uma classe de pessoas: os desprotegidos, explorados, pequenos e sem voz, as vitimas da injustiça que com frequência são privados de seus bens, direitos e de sua dignidade pela prepotência dos ricos. Por isso, têm fome, choram e são perseguidos.

Mas “a pobreza de que aqui se trata, não se reduz a um fenômeno puramente material. A pobreza puramente material não salva, embora  os desventurados deste mundo possam certamente contar, de forma muito particular, com a bondade divina.” (Bento XVI, Jesus de Nazaré p. 114) Pois os pobres são os primeiros destinatários da salvação, porque eles estão mais abertos para confiar e colher a bondade divina.

Jesus ao dizer que o Reino de Deus é dos pobres não proclama felizes os que vivem numa situação infra-humana, nem nos convida a esquecer dos problemas da terra para pensar só nas coisas do céu. Suas palavras se referem à vida presente. Os bem-aventurados o são não porque são pobres, porque estão tristes ou porque sofrem… Isso não é motivo de felicidade nenhuma, nem mesmo Deus o quer para ninguém. Seu privilégio é porque Deus mostra sua compaixão especialmente com quem sofre mais misérias e os desamparados do mundo são chamados a serem os primeiros em beneficiar-se desse Reino.

Deus nunca prometeu a seu povo algum paraíso no céu. Tampouco, quando as coisas estavam más na terra, tratou de que fossem pacientes e esperassem que na outra vida melhorasse sua situação. Deus lhe prometia coisas deste mundo e eles se esforçavam por conquistar as promessas de Deus, mesmo quando compreendia que não pode dar-nos neste mundo tudo o que tem preparado para nós.

Quando Jesus apareceu havia uma grande expectativa sobre o Messias anunciado. E Ele se apresentou com as mãos vazias: não repartia pão, nem distribuía terras, nem prometia a saída dos opressores. Apenas afirmava que o Reino de Deus havia chegado. Não vinha mudar milagrosamente a situação dolorosa da humanidade. Seus seguidores não podem esperar verem-se repletos de favores, de saúde, de dinheiro e de prestigio humano. E ainda assim lhes disse: “Felizes!”

No tempo de Jesus os mestres de Israel usavam frequentemente bênçãos e maldições para transmitir seus ensinamentos. Observemos na profecia de Jeremias (cf. Jr 17,5-8) como ele se exprime: “Maldito o homem que confia no homem… Bendito o homem que confia no Senhor, cuja esperança é o Senhor… nunca deixa de dar frutos.” O profeta nos apresenta uma contraposição entre quem são os malditos, porque estão guiados pela lei da morte e do pecado, e quem são benditos pois Deus é quem os guia.

São Lucas também faz Jesus utilizar o mesmo recurso em sua pregação, contrapõe às quatro bem-aventuranças, quatro “mal-aventuranças” ou “maldições” que são o reverso da moeda. São palavras de Jesus que não se podem nem abrandar nem ocultar. Ao contrapor “pobres” a “ricos”, “famintos” a “saciados”, “os que choram” “aos que riem”, os odiados e perseguidos àqueles que fazem sucesso, indica que há uma relação que não é casual, mas sim causal entre os componentes de cada um desses pares.

À luz do Reino de Deus se desvela a terrível sorte dos que, buscando a segurança no poder e na riqueza, oprimem aos outros e destroem a própria realidade de sua existência. As palavras de Jesus denunciam a lógica dos que permanecem cegos a descobrir os verdadeiros valores da vida e as necessidades dos outros. Dirige-lhes uma advertência inspirada no amor para que se convertam e não deixem que nada se interponha entre o Reino de Deus e eles. Adverti-los, no entanto, não significa que Deus não tenha para eles a mesma proposta salvadora que oferece aos pobres. A salvação de Deus é para todos, mas quem persistir na lógica do egoísmo não tem lugar no Reino que Jesus veio oferecer: “É difícil a um rico entrar no Reino dos Céus.” (Mt 19,23)

Conta-nos São Lucas que as pessoas buscavam Jesus para ouvi-lo e ser curadas, porque confiavam nele. A multidão era o retrato de um povo que sofre as consequências de uma sociedade injusta, pobre, e abandonada. As bem-aventuranças são o programa de vida do próprio Jesus que confia no amor do Pai. Ele mesmo se fez pobre, sentiu fome, chorou e foi perseguido e por isso tem a autoridade para propor a seus discípulos um caminho de seguimento que percorria as suas mesmas opções.

Mas às vezes sentimos que as “bem-aventuranças” parecem meio esquecidas, excluídas ou burladas em nossa pregação ou prática. Chamar felizes aos que passam fome, aos tristes, aos perseguidos… parece até uma piada. Muitos que se consideram cristãos, acham que no fundo as bem-aventuranças são inaplicáveis. Talvez por isso pouco se preguem e se vivam menos ainda. Sem duvida “as bem-aventuranças” são o núcleo da vida cristã e da mensagem evangélica, caminho de santidade e felicidade segundo o plano de Deus. Os pobres serão sempre objeto da especial predileção de Deus, como deve ser objeto do amor preferencial da Igreja de Jesus Cristo e de seu apelo de conversão a nós.

As “bem-aventuranças” seguem valendo e são um programa de vida muito exigente que Jesus apresenta aos seus discípulos de todos os tempos. Uma regra de vida aberta a toda a humanidade, uma ética onde todos têm lugar. Mas segui-las é um desafio à nossa maneira de viver, a muitos dos valores que propõe a sociedade contemporânea onde ser feliz é ser rico e famoso.

No campo espiritual, por a confiança nas “coisas humanas” termina em fracasso seguro. Por isso, o rico é chamado por Jesus de “infeliz”, não porque seja rico, mas porque põe a sua segurança em sua riqueza e seus bens; na sua autossuficiência, confia egoisticamente em si mesmo e em suas capacidades e não em Deus.

É urgente os cristãos investirmos em uma nova e revolucionária escala de valores na vida. Na ciência, na tecnologia, na economia, na medicina, na arte, nos esportes etc. o mais importante é se destacar, se sobressair, chamar a atenção, ser visto e reconhecido pelos outros, o sucesso. Por que não se “sobressair” também na confiança em Deus? Por que não confiar mais em Deus que na própria capacidade, técnica, força, talento artístico ou cientifico? Feliz o homem que pôs a sua esperança no Senhor.

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Padre José Assis Pereira

Pároco da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, bairro do Catolé, em Campina Grande.

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