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Feira e Cordel: Patrimônio Nacional

Josemir Camilo. Publicado em 21 de setembro de 2018 às 7:46

Pode parecer coincidência, mas duas práticas culturais da região Nordeste tornaram-se evidências, de um ano para cá, no calendário cultural do país. Refiro-me ao Registro da Feira de Campina Grande, como Patrimônio Cultural do Brasil, conferido o título, em 27 de setembro de 2017; e, em 19 de setembro de 2018, o Registro do Cordel, como Patrimônio Cultural Brasileiro, pelo Conselho Consultivo.

Para comemorar (ou não) o primeiro aniversário, o IPHAN veio a Campina Grande para entregar os certificados aos feirantes e aos pesquisadores (no que me senti lisonjeado, por algum esforço em equipe), bem como formar um Fórum de Salvaguarda da Feira Central de Campina Grande. Os problemas parecem imensos e uma dicotomia paira sobre o futuro da nossa feira: preservar e requalificar. Quanto a este aspecto, o da feira, como houve vários participantes, e cada um mais enfronhado que outro, deixo esta abordagem para que se manifestem, abrindo, eu, espaço aqui, para uma leitura sobre o Cordel.

Revisito um artigo já publicado, por aqui, sobre uma folhetaria de cordel, no Juazeiro do Norte, mesmo porque um dos componentes culturais reconhecidos na feira de Campina também foi o cordel, ou ‘folheto de feira’. Refiro-me à obra “Arcanos do Verso: trajetórias da literatura de cordel”, da autora campinense, professora da URCA (Universidade Regional do Cariri), no Crato, e historiadora Rosilene Alves de Melo, um dos maiores esteios para aquele reconhecimento. O livro é resultado da dissertação de mestrado em História pela UFC e, devido à sua escrita e enredo, obteve os prêmios Sílvio Romero, do Ministério da Cultura e o Raymond Cantel, da Universidade de Poitiers (França), e publicado pelo BNB (Editora 7letras), do Rio de Janeiro, em 2010.

A mise-en-scène do livro é bastante atrativa, desde o “Rito de passagem” a outros intertítulos provocativos, onde surgem entreatos e figuras de linguagem literária, como engenho de palavras, peregrinação dos versos, oficinas de narrativas, imagens volantes, poetas-mascates, leitores-ouvintes. A autora cria seus títulos a partir de cartas de tarô: o Imperador, a chegada de José Bernardo da Silva a Juazeiro; a Roda da Fortuna, sucesso e crise da Folhetaria, entre 1939 e 1956; e a Casa da Morte, os insucessos que levaram a fechar a editora, e a uma crise na produção geral do folheto de feira.

A história da Tipografia São Francisco é uma dessas aventuras literárias que nos marca, que se inscreve numa tradição, agora inovada, a (Nova) História Cultural. É a história da aventura de um afro-brasileiro, José Bernardo da Silva, alagoano, que escolhe morar no Juazeiro do Norte.

A autora, parte de três marcos que abalaram o Juazeiro: o suposto milagre da Beata Maria Araújo (1889), a guerra de 14 (o Juazeiro liderado pelo Padre, contra o Governo dos Accioli) e a visita de Lampião para receber, de Padre Cícero, a patente de capitão, contra a Coluna Prestes. Outro marco seria a emancipação do Juazeiro, em 1911.

A historiadora abandona os cânones rígidos da historiografia e envereda pela literatura. Aborda o conceito de cultura, os modos de falar e ser, pensar e viver, baseada em Michel de Certeau e Roger Chartier, as práticas editoriais e literárias populares. Além destes, a autora pede vênia a Foucault, visita Natalie Zemon Davis, através da bibliotèque bleue, (‘biblioteca azul’, literatura de cordel, do ancien regime francês) objeto também estudado por Chartier. Enquadrada na Nova História Cultural, a autora, ao falar de narradores, poderia se referir a Walter Benjamin. Cairia como luva, assim como cairia na abordagem sobre a troca da chapa de zinco para a xilogravura, e a perda desta para off set, a teoria da aura benjaminiana.

Numa pesquisa de campo percuciente, traz ricas histórias do quotidiano trabalha com a memória/lembrança individual, contextualizada numa memória coletiva. Entrevistou folheteiros, poetas, redatores de almanaques e de horóscopos; consultou toda a gama de material produzido pela Tipografia São Francisco e de concorrentes, como cordéis, almanaques e o principal deles, o “Lunário Perpétuo.

Evitando estereótipos como região, regionalismo, nordestinidade, constrói nova trama. Salvador, Campina Grande, Recife, por exemplo, são lugares da trama. Inovou numa área tão trabalhada, evitando a abordagem cultural folclorizada e demais estereótipos de obra popular, ‘ingenuidade’, verdade, originalidade, tão ao gosto dos folcloristas.

A autora vê a produção destes poetas-mascates como “histórias que, finalmente, se libertam do papel, da palavra impressa e voltam à boca dos poetas, dos narradores, do leitor que as lê em voz alta. Histórias que retornam à oficina da vida”. Dá ênfase, também, ao surgimento da xilogravura, quando os ‘livros’ passaram a carregar, em suas capas, a magia da gravura em madeira, símbolo de uma nova estética, popular, vitoriosa, bastante pródiga no Juazeiro, já que era difícil e caro mandar fazer clichês de zinco, no Recife.

A autora praticou, não só, uma hermenêutica dos textos, mas também problematizou “as condições históricas de sua produção, os saberes e práticas”. Afasta-se dos ‘oralistas’ (historiadores da História Oral), pois usa as narrativas orais como fontes e não como método ou mesmo disciplina. Assim, faz a história da literatura dos folhetos a partir do final do século XIX, através da cantoria e da adaptação do repertório europeu à realidade brasileira, como a quadra portuguesa que, no Brasil, adquiriu mais duas estrofes. Mostra como a imprensa foi importante na difusão dos folhetos, tanto pela publicação de versos nos jornais, como também pela sucessiva mudança das tipografias, velhas máquinas sendo substituídas e vendidas, alhures, adentrando os sertões.

Revisita o fundador desta literatura, Leandro Gomes de Barro, o verdadeiro príncipe dos poetas (como registrou Carlos Drummond de Andrade), a partir de 1889, criando “a literatura popular escrita do Nordeste’. Depois, vem João Martins de Athayde que pegou o acervo do anterior, falecido em 1918, e dominou a produção de folhetos até 1949, quando vendeu o acervo para José Bernardo da Silva. Em todo este percurso, começava a se destacar o problema da autoria, com omissões e até como coautoria, fazendo surgir uma nova identidade, o editor-proprietário. A autora resgata esta prática cultural, a história destas editoras, seus ciclos de vida, que acompanham a própria personagem, empresa individual, quando muito de família, como foi a de José Bernardo da Silva. O livro cobre o período entre 1926, ano da fundação, até 1982, quando a editora encerrou suas atividades, vendendo o acervo literário e equipamentos para o Governo do Estado do Ceará. Nesta última parte, a autora trabalha como se fosse uma reportagem, no entanto critica aos que abandonaram o empreendimento, deixando-o ao acaso e nômade. Felizmente, se transformou num grande centro produtor de xilogravura, a Lira Nordestina, que visitei, o que me proporcionou conhecer a arte e artistas da gravura em madeira, guiado pelas mãos da doce Rosilene Melo, ex-aluna e brilhante Historiadora Cultural.

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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