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Fascínio e desconforto em Clarice Lispector

José Mário. Publicado em 16 de dezembro de 2018 às 11:57

A experiência de leitura da soberba obra ficcional de Clarice Lispector é tão fascinante quanto muitas vezes indisfarçavelmente desconfortável. O paradoxo inerente à dupla adjetivação que adorna o encontro do leitor com a notável criadora de A Hora da Estrela tem a sua fundamentada razão de ser. O fascínio fica por conta do exuberante refinamento estilístico da escritura estética de Clarice Lispector, uma das mais completas artistas da palavra de quantas habitam o qualificado universo da literatura brasileira.

Nas mãos hábeis de Clarice Lispector, a Língua Portuguesa atingiu patamares de excelência e rara beleza. Em arguto ensaio intitulado “No raiar de Clarice Lispector”, produzido no calor da hora da estreia da grande escritora com a publicação do romance Perto do Coração Selvagem, o mestre Antonio Candido já chamava a atenção para o estatuto de original inventividade de que se impregnava a linguagem mobilizada por Clarice Lispector na urdidura dos (anti) enredos que ela, magistralmente, começava a construir nos quadros da narrativa literária brasileira. O modelo de sua narrativa ancorava no porto das ficções pós-realistas vigorantes na Europa, mas, ao mesmo tempo, matizava-se por um sotaque peculiarmente seu.

De modo certeiro, sentenciava Antonio Candido que, ultrapassando as dimensões de uma literatura mais afeita ao mimetismo, o romance inaugural de Clarice Lispector “é uma tentativa impressionante para levar a nossa língua canhestra a domínios pouco explorados, forçando-a a adaptar-se a um pensamento cheio de mistério, para o qual sentimos que a ficção não é um exercício real do espírito, capaz de nos fazer penetrar em alguns dos labirintos mais retorcidos da mente”. Tal compreensão do modo particular de Clarice Lispector transfigurar a realidade será retomada por Antonio Candido em sua densa reflexão levada a cabo no livro O Discurso da Cidade. Aqui, Antonio Candido trabalha com a noção de uma espécie de mimese interna, aquela na qual a linguagem, assumidamente roçante do discurso poético, anela criar o real desde dentro; e não reduplicá-lo com o máximo de objetividade possível. Recusando-se a assumir a condição de “fotógrafo de rua”, o narrador clariceano interessa-se menos pelos fatos do que pelas repercussões íntimas desses fatos no psiquismo profundo das complexas personagens que habitam as estórias inventadas pela extraordinária criadora de A Maçã no Escuro.

O desconforto da literatura de Clarice Lispector, por sua vez, radica no fato dela ser uma escritora visceralmente vocacionada para a meditação filosófica, para o agudo pensar sobre todas as realidades que a cercam. Clarice Lispector é uma escritora-escritura êmula de qualquer vestígio de convencionalismo e superficialidade, que transforma a realidade com a qual convive tanto interna quanto externamente, num permanente convite para o mergulho nas questões mais transcendentais da existência. Clarice Lispector põe, repõe, propõe e transpõe uma vasta gama de temários que, em suas experimentais narrativas, desinstalam o ser humano das falsas seguranças em que ele se arrima, num cotidiano, frequentemente adoecido pelo flagelo da inautenticidade e do mascaramento das disfóricas relações sociais.

Certa feita, Clarice Lispector afirmou: “não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido. Eu não: em quero uma verdade inventada”. Eis aqui Clarice Lispector: o fascínio do desconforto e o desconforto do fascínio nos céus luminosos da literatura brasileira.

 

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