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Falando de inadimplência

Arlindo Pereira de Almeida. Publicado em 24 de fevereiro de 2018.

A expressão tempestade perfeita significa a combinação simultânea de eventos desfavoráveis, crises que podem ocasionar graves danos a um sistema, no caso que queremos abordar, à economia do país.

Com efeito, assistimos no Brasil a revelação de desarranjos difusos, antigos, e o surgimento de novos, de variada natureza, envolvendo numa lista interminável: desenvolvimento econômico, desigualdades sociais, contas públicas, sistema tributário, previdência social, ordem jurídica, administração governamental, educação, saúde, segurança.

Em todas essas áreas existem problemas gravíssimos, difíceis de resolver, que atrapalham o desenvolvimento, e que não serão solucionados em prazos curtos ou médios.

Outras questões conexas, que afetam de maneira mais imediata o cidadão, também se fazem presentes, gerando importantes desequilíbrios, com maior ou menor impacto, dependendo da sua condição econômica. É o caso da incapacidade de honrar seus compromissos financeiros.

 Os altos índices de inadimplência do consumidor brasileiro constituem formidável entrave à plena recuperação da economia em curtos espaços de tempo. A queda da taxa de juros, a tímida retomada do crescimento em alguns setores, não serão suficientes para recolocar a locomotiva da economia em velocidade compatível com as nossas necessidades.

É bem verdade que inflação em níveis baixíssimos trará alguma contribuição positiva, mas não podemos esquecer que parte da queda nos níveis gerais de preços é devida à baixa demanda, motivada em grande parte pelo desemprego e pelos salariais baixos, que ocasionam diminuição da massa salarial.

Pelas leis de mercado, cai a demanda e a tendência natural das empresas na busca do reequilíbrio, num primeiro instante, é a queda nos preços; em seguida isso força uma adaptação dos fornecedores, diminuindo a oferta para estabilizar os valores das mercadorias em patamar mais elevado.

A taxa de investimentos na economia, fator determinante para o crescimento, caiu bastante, de pouco mais de 20,7% em 2010 para 12,9% em 2016 (muito abaixo dos níveis internacionais). E isso reflete diretamente no emprego – ainda são mais de 12 milhões de desempregados –  e na renda das pessoas.

Quanto à inadimplência, em janeiro de 2018, subiu 2,1% em relação a janeiro de 2017. O número de pessoas com restrições no SPC já ultrapassa os 60,7 milhões, ou 40,9% da população adulta no Brasil.

TOTAIS DE INADIMPLENTES
REGIÃO  PESSOAS(milhões) % PESSOAS(adultas)
NORTE 5,4 45
NORDESTE 16,5 41
SUDESTE 25,7 39
SUL 8,2 37
CENTRO OESTE 4,9 42
 TOTAL 60,7 40,8

Tantas pessoas com restrições cadastrais, ficam com problemas de acesso ao crédito, inclusive na compra da casa própria.

Mas, a mais cruel constatação é quando nos voltamos para o perfil de renda dos inadimplentes. São 78% das pessoas adultas – ou 47.360 milhões de habitantes – mais do que a população da Argentina –  nas faixas dos que ganham até dois salários mínimos por mês, retrato cruel das desigualdades.

INADIMPLENCIA POR FAIXA DE RENDA
FAIXA DE RENDA PESSOAS(milhões) % INADIMPLENCIA
ATÉ 1 SAL.MÍNIMO 23,60 38,80
ENTRE 1 E 2 SM 23,76 39,14
ENTRE 2 E 5 SM 7,10 11,70
ENTRE 5 E 10 SM 3,04 5,00
ACIMA DE 10 SM 3,28 5,40

É justo perguntar: até quando continuaremos ignorando o quadro de profundas desigualdades sociais e distribuição de renda em nosso país? As desigualdades saltam à vista, mas parece que os responsáveis pelos destinos do Brasil, de todos os matizes ideológicos, desde muito tempo, do alto de sua imponência de surdos e mudos pelas benesses, não se apercebem, ou fingem isso.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Arlindo Pereira de Almeida

Economista.

falecom@fhc.com.br

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