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Ex-voto: religiosidade e crítica social

Jurani Clementino. Publicado em 18 de maio de 2022 às 10:39

O turista ou romeiro que se dirige a qualquer santuário nordestino, a qualquer capela de santo milagroso, a qualquer Cruzeiro de beira de estrada ou a centros de peregrinação como o Juazeiro do Norte, por exemplo, se depara com uma infinidade de peças esculpidas em madeira, cera, gesso e argila representando diversas partes do corpo humano como braço, cabeça, perna, peito, mão, coração etc. Também encontramos nesses locais pedaços de fitas, vestidos de noiva, chapéus, cópias de diplomas de graduação, miniaturas de animais domésticos, enfim, um amontoado de coisas que remetem a uma série de questões e problemas sociais. São os chamamos ex-votos.

O Casarão de Padre Cícero, hoje um imenso museu localizado na Colina do Horto, ao lado da estátua do religioso, é a prova concreta do que estou tentando dizer. Lá existem salas e mais salas lotadas com fotografias três por quatro de pessoas desconhecidas que certamente obtiveram uma graça apelando para a fé. O ex-voto é uma forma muito particular de agradecimento por diversas dádivas alcançadas. É uma maneira de tornar pública a obtenção dos chamados milagres. É a expressão mais popular, a linguagem mais expressiva dos sentimentos do povo, a tradução mais completa da história de luta e sofrimento do nordestino.

Ao olhar para aquelas esculturas em miniaturas, fotos e documentos, enxergamos o cotidiano dessa gente. Vejamos: as fotografias de casamento ou os trajes dessas cerimônias nos remetem a amores certamente proibidos que possivelmente triunfaram sobre velhas discórdias familiares e oposições aquelas uniões. As cartas, os bilhetes, as anotações de todo tipo revelam segredos, relatam aos santos suas dificuldades cotidianas, seus problemas do dia a dia. Ali temos ainda elementos que nos conduzem a situações como mulheres abandonadas, vícios em bebida ou jogos de azar, desemprego, ingratidão dos filhos, problemas comuns como a fome, a seca, a violência, as enfermidades representadas em centenas de faces estampando olhos avermelhados e purulentos, em braços, pernas, joelhos feitos em madeira… um triste relato da rotina a qual estão sujeitas às populações interioranas.

O valor documental dessas peças que também aparecem em pano, cordões, papelão, cartolina, pedra sabão e outros tantos materiais é imensamente rico. São meios de expressão popular. Formas cotidianas de expor, evidenciar, denunciar causas aparentemente esquecidas. Eles também movimentam um certo tipo de indústria, aquela que fabrica esses ex-votos para que os agraciados levem até esses espaços de devoção e ofereçam ao santo milagroso. Citei o caso de Juazeiro do Norte, mas encontramos ex-votos nos mais diversos espaços de expressão da fé e da religiosidade popular sejam eles urbanos ou rurais. Nas cruzes que ficam às margens das estradas; no santuário de Nossa Senhora Aparecida, interior de São Paulo; na Cruz da Menina em Patos e no santuário dedicado ao frei Damião, em Guarabira, aqui na Paraíba; em Canindé-CE onde se fazem romarias para São Francisco; certamente na capela em homenagem a Maria de Bil, aí em Várzea alegre, enfim, nesses locais onde prevalecem a fé, a esperança e a crença de que tudo pode mudar a partir da intervenção divina e a intermediação dos santos populares.

São pagamentos feitos por uma ou mais promessas relativas a doenças, desastres, desavenças, questões de ordem terrena que teriam sido solucionadas com ações e intermediações divinas. Na aparente mudez dos ex-votos, residem protestos, opiniões e juízo de valor que os diferentes indivíduos fazem sobre os problemas do momento. É a linguagem do povo, a expressão do seu pensar, do seu sentir e a tradução do seu agir. Denunciam os descasos com a saúde pública, com a insegurança, com a política, com os conflitos cotidianos, com esse nosso dia a dia tão cheio de desafios e com tão poucas oportunidades de efetiva solução.

Jurani Clementino – CG
17 de maio de 2022

P.S: Texto inspirado a partir da leitura do artigo “Ex-voto como veículo jornalístico” do pesquisador brasileiro Luiz Beltrão, publicado originalmente na revista Comunicação e Problemas, ano 01, número 01, 1965.

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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