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Evangelizar os pobres, missão de Jesus e da Igreja

Padre José Assis Pereira. Publicado em 26 de janeiro de 2019 às 11:53

Acabadas as manifestações que o ciclo do Natal contém: Manifestação aos pobres representados pelos pastores na noite santa do Natal; manifestação às nações pagãs na figura dos Magos do Oriente; manifestação a Israel no batismo no Jordão e a manifestação aos discípulos nas bodas de Caná que celebramos no Domingo passado, continuará ao longo de todo o Tempo Comum da sagrada liturgia, manifestando-se de uma forma diferente, através dos ensinamentos e mostrando como se cumpriu nele tudo o que continha a lei, os salmos e os  profetas.

Hoje escutamos o sacerdote Neemias dizer ao povo reunido em assembleia: “Este dia é santo para o nosso Senhor. Não fiqueis tristes, porque a alegria do Senhor será a vossa força.” (cf. Ne 8,2-4a.5-6.8-10) Uma referência ao que foi vivido pelo antigo povo de Deus por ocasião do descoberta do livro da Lei, após o exílio. Ocasião festiva e de comunhão: “Não fiqueis tristes nem choreis”. A razão não é outra, esse dia é excepcional, pois é consagrado ao Senhor.

A comunidade cristã é igualmente convocada para viver a alegria que nasce do encontro com Jesus, morto e ressuscitado. Uma alegria que ninguém pode tirar. A produz sua presença sacramental e sua Palavra. Uma experiência de comunhão com Ele e com os irmãos. A Palavra proclamada chega a nós como fonte de Vida e é recebida com sentido de responsabilidade, ilumina a própria existência e a de toda a humanidade, pois ela é a luz que ilumina todo homem que vem a este mundo. Convém ressaltar que os levitas na assembleia de Neemias: “leram clara e distintamente o livro da Lei de Deus e explicaram seu sentido, de maneira que se pudesse compreender a leitura”. A compreensão do que foi escutado resulta imprescindível para que oriente a vida de cada um e cada comunidade.

São Lucas nos dá um exemplo excepcional em sua catequese oferecida ao “ilustre Teófilo” (cf. Lc 1,1-4). Uma catequese em duas partes: O Evangelho e os Atos dos Apóstolos, escritos em forma precisa e meditada, para formar esta pessoa, um cristão de elevada condição. Disse ele: “Também eu decidi escrever de modo ordenado para ti, excelentíssimo Teófilo. Deste modo, poderás verificar a solidez dos ensinamentos que recebeste.”

Lucas diz que todos podem falar de Jesus, mesmo que não tenham sido testemunhas diretas dos fatos, como ele; basta que sejam fiéis à tradição. Ele acentua que procedeu a investigação cuidadosa sobre todas as circunstâncias em que aconteceram os fatos; não foram sonhos, nem fábulas, nem

doutrinas filosóficas, tampouco revelações misteriosas, mas acontecimentos reais, que tiveram como protagonista um homem: Jesus de Nazaré.

De alguma maneira organizando sistematicamente toda a informação sobre os fatos ocorridos, indo mais além de uma história, não inventando nada, Lucas tem um único objetivo: oferecer a esse cristão e às comunidades cristãs, bases sólidas à fé e um guia para sua maturidade cristã, de modo que possa avaliar a própria caminhada no seguimento de Cristo. A intenção do evangelista é o aprofundamento do discípulo. Portanto, se trata de ajustar-se a uma necessidade e fazê-lo em forma adequada para que possa ser assimilado o ensinamento pelo discípulo.

O evangelista pretende num só relato responder a três questões fundamentais: quem é Jesus, qual a sua missão, e a quem se destina esta sua missão. Começa situando o discurso programático de Jesus de Nazaré (cf. Lc 4,14-21) em um espaço geográfico: “Jesus voltou para a Galiléia, com a força do Espírito, e sua fama espalhou-se por toda a redondeza. Ele ensinava nas sinagogas e todos o elogiavam. E veio à cidade de Nazaré, onde se tinha criado. Conforme seu costume, entrou na sinagoga no sábado.”

No dia dedicado ao Senhor, na liturgia sinagogal convidam Jesus para comentar a Escritura, Ele escolhe de propósito um texto muito conhecido do profeta Isaías, que sintetiza perfeitamente a missão do Messias: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou pela unção para evangelizar os pobres, enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor… Então começou a dizer-lhes: ‘Hoje se cumpriu aos vossos ouvidos essa passagem da Escritura’”.

Lucas sinaliza o modo de proceder de Jesus totalmente diferente dos rabinos do seu tempo. Ele não abriu nenhuma escola para o estudo da Lei, e sua missão evangelizadora acontece nas sinagogas existentes, pelas estradas, nas casas, sempre a caminho, como um pregador ambulante. Igualmente sua pregação é diferente da do profeta João Batista que proclamava o dia terrível do julgamento do Senhor, Jesus ao contrário anuncia “um ano de graça”, a misericórdia e o perdão de Deus.

Jesus é a Palavra, o Evangelho de Deus no meio de nós, porque a Palavra é uma pessoa: “A Palavra se fez carne e habitou entre nós.”’ (Jo 1,14) Jesus é o Messias enviado por Deus, o ungido pelo Espírito para falar em nome do Senhor, trazendo a sua misericórdia, a liberdade e a libertação aos cativos, aos pobres, aos oprimidos.

Mas acima de tudo, Jesus é o “Ungido para evangelizar os pobres”. Este é o seu lema, esta é a sua missão e esta é a missão da Igreja, e de cada cristão batizado na Igreja. Diz o Papa Francisco: “Ser cristão e ser missionário é a mesma coisa. Anunciar o Evangelho, com a Palavra e, antes ainda, com a vida, é a finalidade principal da comunidade cristã e de cada seu membro.“

E continua o Santo Padre: “Evangelizar os pobres significa em primeiro lugar aproximar-nos deles, significa ter a alegria de servi-los, de libertá-los da opressão, e tudo isso em nome e com o Espírito de Cristo, porque é Ele o Evangelho de Deus, é Ele a Misericórdia de Deus, é Ele a libertação de Deus, é Ele quem se fez pobre para nos enriquecer com a sua pobreza.” E nos questiona: “Hoje, nas nossas comunidades paroquiais, nas associações, nos movimentos, somos fiéis ao programa de Cristo? A evangelização dos pobres, levar-lhes a boa nova, é a nossa prioridade? Atenção: não se trata só de fazer assistência social, tampouco atividade politica. Trata-se de oferecer a força do Evangelho de Deus, que converte o coração, sara as feridas, transforma as relações humanas e sociais segundo a lógica do amor. Com efeito, os pobres estão no centro do Evangelho.”

“Hoje se cumpriu…“ Este “hoje” ainda segue questionando-nos. Evangelho que não for para hoje não funciona, não tem eficácia. O que nos interpela a todos anunciadores do Evangelho é o como anunciar esta Palavra sempre viva e atual, o Cristo Jesus?

“Hoje se cumpriu…” Este “hoje” faz referência à atualidade, a nossa situação pessoal e comunitária que vivemos, o lugar onde estamos. Pois se é certo que a libertação de Jesus, tem um matiz de interioridade e afeta o coração da pessoa, também é certo que essa libertação tem um marcado acento social, que realiza e quer fazer presente o Reino de Deus, negá-lo seria negar praticamente todo o Evangelho.

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Padre José Assis Pereira

Pároco da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, bairro do Catolé, em Campina Grande.

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