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Eu e “As aventuras de Tintim”

Jurani Clementino. Publicado em 1 de março de 2019 às 11:32

Em 1993, há praticamente trinta anos, eu e uma dúzia de amigos da minha idade cursávamos a quinta série do Primeiro Grau, o equivalente hoje ao sexto ano do Ensino Fundamental, na Escola Manoel Salvador, no sítio Carnaúbas. Éramos todos alunos regulares de recém-criado programa – Telecurso 2000 – uma experiência que, naquele momento, buscava aliar o audiovisual como ferramenta educativa inspirada em modelos europeus. As aulas eram exibidas dentro da programação da TV Educativa do Ceará. Como material didático, recebíamos livros volumosos e de péssima qualidade. A não familiaridade dos alunos com aquele universo e a inexperiência dos professores com uma sala de aula que reunia o real e o virtual, formavam um conjunto perfeito para a confusão do sistema educacional brasileiro.

Hoje tenho consciência de que éramos – tanto os professores quanto os alunos -, cobaias de uma nova experiência educacional que se implantava por aqui. Tudo era uma grande novidade. Eu e muitos daqueles alunos morávamos em comunidades que não possuíam energia elétrica e, portanto, aquele era o nosso primeiro contato direto com a televisão. Outros já conheciam a TV na condição de televizinho. Somado ao espanto do novo tínhamos que administrar aquele método educativo intercalado entre o (tele) professor e o professor tradicional. Vale destacar que nem sempre (aqueles professores) falavam a mesma língua ou comungavam com o mesmo pensamento.

A turma da 5ª série era numerosa, mas o assunto que mais nos prendia a atenção estava longe de serem aquelas aulas que, por hora, soavam chatas e cansativas. As nossas preferências estavam entre o programa infantil “Castelo Rá-Tim-Bum” e um desenho animado cheio de aventuras protagonizado por um moleque topetudo na companhia de seu cachorro esperto: “As Aventuras de Tintim”. Estes dois programas se tornaram tão populares entre nós alunos que conseguíamos, sem muito esforço, convencer o professor a nos deixar vê-los mesmo estando no horário das aulas. Recordo que Tintim era tudo o que a gente não era, mas representava o sonho aventureiro de todo garoto. Era o “eu lírico” de cada um daqueles meninos. Podíamos não lembrar o conteúdo das aulas, mas sabíamos de todos os detalhes do episódio exibido no dia anterior ao ponto de contar, em detalhes, para os faltosos.

Aquele menino jornalista e seu fiel companheiro povoaram nosso imaginário. Recentemente aquele desenho foi levado ao cinema em formato 3D. A tecnologia permitiu uma quase interação com a história. O desenho virou uma animação. Os personagens ficaram mais reais do que nunca. Daquela TV de catorze polegadas com imagens em preto e branco, para uma tela de projeção que ocupa uma parede inteira. De carteiras desconfortáveis a poltronas e salas com ar condicionado. Fui assistir Tintim no cinema. Revi as aventuras do menino topetudo como se olhasse para a trajetória de vida de todos aqueles meus ex-colegas que, como Tintim, enveredaram por esse mundo a procura de um sonho, de um tesouro, de uma oportunidade. Tintim foi o nosso herói infantil. Por ele perdíamos aulas, corrompíamos o professor e acreditávamos que seriamos capaz de conquistar sonhos e objetivos.

Campina Grande – Paraíba

06 de fevereiro de 2012

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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