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Estudo com poesia

José Mário. Publicado em 22 de dezembro de 2017 às 10:39

Por José Mário da Silva (*)

Ratificando a sua condição de exímio intérprete do fenômeno literário em várias das suas modalidades de manifestação, o professor-doutor José Edílson de Amorim publicou, recentemente, o livro Estudo Com Poesia, que leva o selo da editora Bagagem e da editora da Universidade Federal de Campina Grande, da qual o professor Edílson faz parte como professor titular de literatura brasileira.

O lançamento do livro, que ocorreu na última terça-feira dia dezenove do mês em curso foi plenamente exitoso, contando com a presença de muitos professores e alunos, que foram prestigiar o labor intelectual do apreciado mestre da arte/ciência da investigação literária.

Estudo Com Poesia chama a atenção já a partir do título, conforme pontuou, acertadamente, o professor Aloísio de Medeiros Dantas, também da Universidade Federal de Campina Grande, e que, juntamente comigo, teve a privilegiada missão de apresentar o aludido livro. O professor Aloísio chamou atenção para o fato de que a preposição “com” em sua dimensão aspectual mais ostensiva aponta para o território semântico-afetivo da convivência, da cumplicidade, do estar junto, que gera o querer bem.

Tal percepção casa-se perfeitamente com a tradição crítica a que se filia o professor Edílson Amorim, a que sabe que “a regra de ouro do analista é a leitura infatigável do texto”, basilar lição de uma hermenêutica literária que se pretende fiel às estruturas de sentido potencializadas pelo texto literário. A única que pode contribuir para que o exegeta literário não caia naquilo que Umberto Eco chamou de superinterpretação. E que o crítico literário Luiz Costa Lima em seu clássico livro Lira e Antilira classificou como pura arbitrariedade.

Leitura aderente ao texto, matizada por uma espécie de “paixão pelo concreto”, expressão com a qual o ensaísta Davi Arrigucci categoriza a metodologia crítica posta em ação pelo notável mestre Antonio Candido, eis o que persegue Edílson Amorim nas microscópicas leituras que empreende de poemas de Carlos Drummond de Andrade, Oswald de Andrade, Cecília Meireles, João Cabral de Melo Neto, José Antonio Assunção, Bráulio Tavares, Chico Buarque de Holanda e Cazuza.

No tocante aos dois últimos autores analisados, Edílson Amorim não se preocupou em endossar a interminável querela travada entre os que consideram a canção da música popular brasileira como sendo literatura, e os que lhe negam tal estatuto de literariedade. Ele simplesmente concentrou-se no texto escrito, na linguagem que o sustenta, em cujas teias e tramas, no final das contas, é que se decide o sucesso ou o fracasso da obra de arte literária, conforme as lúcidas ponderações do mestre da crítica poética brasileira: Eduardo Portella.

Por esse patamar, Edílson Amorim pratica uma leitura que se mostra visceralmente mergulhada nos abismos mais interiorizados dos textos apreciados. As leituras engendradas pelo professor Edílson Amorim não se fazem desacompanhadas de sólida fundamentação teórica; sólida e diversificada, mobilizada não como uma autoritária camisa de força imposta aos textos à revelia das suas fundantes estruturas de sentido, antes com a parcimônia de quem sabe que a teoria será tanto mais consistente quanto melhor se amoldar ao ser/fazer da linguagem textual em sua pluridimensional maneira de existir na materialidade orgânica dos signos que a habitam.

Ancorado no fecundo porto da estilística social que, focando na filigrana estética, não se desconecta de sua feição e função social, mas, de igual modo, convocando outros aportes teóricos para a viagem que realiza no infinito horizonte da poesia, Edílson Amorim brinda-nos com leituras extremamente competentes, pródigas em, diria Machado de Assis, “catar o mínimo e o escondido” de um inexaurível tesouro chamado poesia.

Louve-se, de igual maneira, no livro em apreço, o alto poder comunicacional de que ele se reveste. Como adverte lucidamente Sérgio de Castro Pinto, grande poeta brasileiro que escreve nos limites geográficos da territorialidade paraibana, há escritores que, pretextando profundidade, o que fazem mesmo é turvar as águas da boa exposição textual. Desse vício não padece o professor Edílson Amorim, que, com o seu Estudo Com Poesia prima por uma linguagem que, coisa rara, sendo acadêmica, matiza-se de admirável simplicidade composicional, aqui e ali se deixando adornar com saborosa coloquialidade, o que certamente aproximará, do leitor, a poesia tão habilmente interpretada.

Estudo Com Poesia, conforme o próprio autor sinaliza, nasceu na sala de aula e para ela pretende se voltar. Sala de aula que deve ser o espaço do diálogo aberto e enriquecedor, e não do monólogo autossatisfeito; da provocação criadora, não da concordância passiva e estéril; do devir, não do ser fossilizado, que, na prática, já não é; do estudo sério e prazeroso, não da tediosa reduplicação do mesmo; enfim, do estudo, do Estudo Com Poesia.

(*) Docente da UFCG, membro da Academia Paraibana de Letras

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José Mário

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