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Campina Grande - PB

“Estou com C.A”

16/09/2017 às 9:42

Fonte: Da Redação

Por Jurani Clementino (*)

Sou professor universitário há 11 anos. Já vivi e convivi com os mais diferentes tipos de pessoas. Ajudei a formar uma geração de profissionais da área de comunicação. Mas todas as vezes que entro na sala de aula, ou saio dela, é como se fosse a primeira vez. Avalio o que foi bom e o que precisa melhorar. Cada turma é uma surpresa. Nesse sentido, a cada semestre temos novas surpresas. E gosto disso. Elas me movem. Me sinto entusiasmado com esse desafio.

Nos últimos anos tenho me desafiado a ensinar aquelas disciplinas teóricas: sociologia, metodologia, teorias da comunicação, projeto de pesquisa… As vezes as aulas rendem. Outras vezes não. Recentemente, sai da sala muito angustiado. O público quase não interagiu com a minha aula. Fiquei três horas falando sem ter a certeza de que aquilo que eu dizia estava sendo compreendido. Senti que todo aquele esforço havia fracassado. Minha dúvida era a certeza. Estava certo de que precisava melhorar minha didática. Tinha que envolver os alunos no debate. Eu não sou o dono, e muito menos, o porta-voz supremo do conhecimento. Conhecimento não se transfere, se constrói no diálogo.

Na aula da semana seguinte chamei a turma para debater. Apliquei uma dinâmica e a coisa funcionou. No final da aula via os olhos dos alunos brilharem. Estavam angustiados com as discussões, mas ao mesmo tempo felizes porque viam as coisas com outros olhos. A angústia do conhecimento havia feito bem a todos eles. E eu que estava desiludido, me animei também. Senti que as esperanças podiam ser renovadas. Vibrei.

Dada por encerrada aquele aula, e quando todos os alunos já haviam saído da sala. Eu juntava as minhas coisas, colocava na mochila pra sair, uma aluna se aproxima e diz que precisa conversar comigo. Atencioso, perguntei o que havia acontecido. Ela disse que iria faltar às aulas nas próximas semanas e pediu a minha compreensão. Naturalmente perguntei o motivo da ausência. Pra minha surpresa e minha agonia, num momento em que eu cantava a vitória de uma aula show, a aluna me disse que começaria no dia seguinte o tratamento de um câncer. “Descobri um C.A professor. Começo o tratamento amanhã”.

Fiquei sem palavras. Tentei ser forte. Olhei bem no fundo dos olhos dela e disse: você é jovem, descobriu essa doença cedo, vai embora cuidar de sua saúde, tudo aqui pode te esperar. Ainda sem ação, abracei aquela menina e segurei as lágrimas antes que ela saísse da sala. Quando ela deu as costas, fechou a porta e eu estava completamente só: chorei feito criança e pedi a Deus para iluminar o caminho daquela jovem. Enquanto eu estava preocupado com a satisfação dos alunos com a minha didática, uma aluna, de vinte e poucos anos, estava com oito nódulos malignos, quatro em cada seio. E participava da aula. Interagia. Fazia perguntas. Quanta coragem! Quanta disposição. Como os meus problemas eram pequenos perto dela. Que Deus conceda a cura. E que ela volte feliz, disposta, vitoriosa. Estarei a sua espera… As minhas aulas? Ah como as minhas aulas são medíocres.

(*) Jornalista, escritor, professor

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