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“Estala relho marvado…”

Josemir Camilo. Publicado em 8 de março de 2019 às 10:46

O 6 de março tem uma leitura particular para os campinenses: desaparecia o tribuno Raymundo Yásbeck Asfora, em 1987. Não entrarei no assunto de sua morte. Aqui, o incenso vai, um pouco, para o homem dos discursos, da oratória, das polêmicas, como a que escolhi do meu livro “Aluísio Afonso Campos, o Benemérito da FURNE”. Trata-se de um debate sobre o esquema político que vinha sendo montado, no final do governo militar, com senadores, governadores e prefeitos biônicos, para a eleição de um péssimo candidato a presidente: Paulo Maluf, em eleições indiretas.

Mas, antes, a reverência que lhe deve (e faz) a Academia de Letras de Campina Grande, como Patrono da Cadeira de nº 36, Raymundo Yásbeck  Asfora, cuja Cadeira, é ocupada pelo confrade, jornalista, Francisco Maria Filho. Nascido em Fortaleza, em 26/11/1930, faleceu em Campina Grande, em 06/03/1987. Asfora, descendente de palestinos emigrados, veio para Campina Grande, ainda criança. Formou-se em Direito pela Faculdade do Recife; foi vereador, advogado, deputado estadual, assessor de Ministro, deputado federal, e vice-governador eleito, mas não empossado, suicidando-se, poucos dias antes da posse. Além da tribuna, era poeta, e compositor/letrista; também foi membro da Comissão do Centenário de Campina Grande, responsável pela revisão dos textos publicados naquela comemoração. Dele, a Coletânea de Autores Campinenses publicou o discurso “João Pedro”, assassinado por liderar trabalhadores rurais.

Aqui, um preâmbulo. Pode parecer estranho que a Academia tendo sido fundada, em abril de 1981, tenha como patrono um intelectual que estava vivo, ao tempo da fundação. No entanto, o que ocorreu foi que a ALCG, quando da sua criação, só dispunha de 30 Cadeiras. Com a reforma de seu Estatuto, em julho de 2002, foi aprovada a criação de mais 10 cadeiras, tomando como referência a Academia Francesa de Letras. Daí, que um dos homenageados tenha sido o grande Tribuno!

Volto, portanto, ao trecho desse debate com Aluízio Campos (ambos do mesmo partido), em que o tribuno defende sua identidade de palestino. O caso a que me referi do pseudo debate entre os acadêmicos, Aluízio Campos e o deputado Raymundo Asfora, diz respeito a um episódio beirando o preconceituoso de um e o discurso ideológico do outro, na Câmara Federal, em 1984. Aluízio Campos, querendo atingir o General Presidente, João Figueiredo, criticava Paulo Maluf, o candidato situacionista a presidente, chamando-o de ‘demônio árabe’. Discursava Aluízio: “Bastará a maioria das nossas duas Casas exorcizar o demônio árabe, não se deixando tentar pelo pecado da gula”. Foi o bastante para Asfora solicitar um aparte: “Vossa Exª coloca um pensamento brilhante, quando pede a todos nós para exorcizar o demônio árabe. Dadas as minhas raízes mouras, quero dizer a V. Exª que o demônio não é árabe. Ele está num árabe, que é agente de um princípio incompatível com a ordem democrática, aquele princípio que já infelicitou tantas nações, sobretudo na II Guerra – o fascismo. O que o Sr. Paulo Maluf encarna neste momento é um projeto profundamente fascista”.

Aluízio Campos, amarelando, respondeu: “Quando me referi a essa exorcização do demônio árabe, quis simplesmente dizer que o demônio tem força e astúcia para se inocular em toda parte, em toda gente e em qualquer pessoa…”.

Faz falta, tanto, na Academia, como na política estadual. “Estala relho marvado/ Recordar hoje é meu tema….”!

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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