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Esperar com os pobres

Padre José Assis Pereira. Publicado em 18 de novembro de 2018 às 7:36

A Igreja celebra neste XXXIII Domingo do Tempo Comum, penúltimo do Ano Litúrgico, o “II Dia Mundial dos Pobres”. Trata-se de uma jornada pontifícia e, portanto, universal. A mensagem do Santo Padre para este dia tem como tema: “Este pobre clama e o Senhor o escuta” (Sl 34,7).

Uma jornada na qual o Papa nos convida a todos “os irmãos bispos, os sacerdotes e de modo particular os diáconos, a quem foram impostas as mãos para o serviço dos pobres (cf. At 6,1-7), juntamente com as pessoas consagradas e tantos leigos e leigas que, nas paróquias, associações e movimentos, tornam palpável a resposta da Igreja ao clamor dos pobres, a viver este Dia Mundial como um momento privilegiado de nova evangelização.” (Mensagem do Papa Francisco para o II Dia Mundial dos Pobres, 2018)

“Celebrar em toda a Igreja o Dia Mundial dos Pobres. Será a mais digna preparação para bem viver a solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei Universo, que se identificou com os pequenos e os pobres e nos há de julgar sobre as obras de misericórdia (cf. Mt 25, 31-46). Será um Dia que vai ajudar as comunidades e cada batizado a refletir como a pobreza está no âmago do Evangelho e tomar consciência de que não poderá haver justiça nem paz social enquanto Lázaro jazer à porta da nossa casa (cf. Lc 16, 19-21). Além disso este Dia constituirá uma forma genuína de nova evangelização (cf. Mt 11, 5), procurando renovar o rosto da Igreja na sua perene ação de conversão pastoral para ser testemunha da misericórdia.” (Papa Francisco, Misericordia et misera, 21).

Ao terminar, portanto mais um ciclo litúrgico a Liturgia da Igreja e a Palavra de Deus que hoje nos é servida abre-nos as portas da esperança cristã. Reafirma mais uma vez que Deus irá nos libertar. “A ação libertadora do Senhor é um ato de salvação em prol de quantos lhe manifestaram a sua aflição e angustia. As amarras da pobreza são quebradas pelo poder da intervenção de Deus… a salvação de Deus toma a forma duma mão estendida ao pobre, que oferece acolhimento, protege e permite sentir a amizade de que necessita. É a partir desta proximidade concreta e palpável que tem inicio um genuíno percurso de libertação.” (Papa Francisco)

A humanidade não caminha para o caos, a destruição, o nada; mas caminha ao encontro desse mundo novo em que homens e mulheres, com a ajuda de Deus alcançarão a plenitude das possibilidades. O cristão deve olhar a história da humanidade numa ótica de fé e de confiança em Deus. Nós não lemos a história atual da humanidade

como um conjunto de dramas que apontam para um futuro sem saída; mas vemos os momentos de

tensão e de luta que hoje marcam a vida das sociedades como sinais de que o mundo velho será transformado e renovado, até surgir um mundo novo e melhor.

Para o cristão não faz qualquer sentido deixar-se dominar no aparente epílogo da história pelo medo, pelo pessimismo, pelo desespero, por angústias a propósito do fim do mundo.  O livro de Daniel (cf. Dn 12,1-3) surgiu num tempo de angústia dos judeus, trata-se do período dos Macabeus (II século a.C.) quando o povo de Israel era oprimido pela dominação grega. Em meio à perseguição, o profeta proclama a salvação que Deus dará a seu povo no tempo da angústia.

O autor do Livro de Daniel, à maneira e estilo apocalíptico, usa uma linguagem simbólica, imagens e figuras de difícil compreensão, para levar-nos a dar um salto dos tempos difíceis; o conflito do povo de Deus com os dominadores, para os tempos finais e decisivos, dos quais a situação presente não é mais do que um prenúncio: a salvação final virá de Deus, trazida pela mediação de Miguel, anjo protetor de Israel. Deus age na história, julgando-a; os escolhidos, “teu povo será salvo, todos os que se acharem inscritos no livro” (v. 1), participarão da vida divina, “brilharão como as estrelas, por toda a eternidade” (v. 3).

Nem os profetas do Antigo Testamento como Daniel, nem os evangelistas como Marcos foram pregadores catastróficos do fim do mundo. Através de uma linguagem marcadamente simbólica, mas com uma mensagem perfeitamente perceptível para os seus leitores, numa conjuntura adversa de perseguição aos cristãos do primeiro século, Marcos (cf. Mc 13,24-32) vai descrever a falência dos poderes que lutam contra Deus e os seus escolhidos.

“Naqueles dias, porém, depois daquela tribulação, o sol escurecerá, a lua não dará sua claridade, as estrelas estarão caindo do céu e os poderes que estão nos céus serão abalados. E verão o Filho do Homem vindo entre nuvens, com grande poder e glória. Então ele enviará os anjos e reunirá seus eleitos, dos quatro ventos, da extremidade da terra à extremidade do céu.” (vv. 24-27)

Mesmo com esta linguagem apocalíptica, Jesus não está pregando o fim do mundo, esse não era seu interesse. As imagens de um abalo cósmico são uma fórmula usada no Antigo Testamento para descrever a queda de algum rei ou de uma nação opressora.

Assim Jesus anuncia a vinda do “Filho do Homem” como o epílogo da História, o seu sentido último. A sua vinda inaugurará a plena comunhão dos que têm fé e confiam no Senhor. Todos poderão vê-lo e, sobretudo experimentarão a sua proteção e o seu amor. É uma promessa cheia de esperança e profundamente consoladora. A atitude de confiança no Senhor Jesus em meio aos sinais apocalípticos e aterradores, que a Palavra de Deus nos apresenta, não deve desorientar-nos causando-nos desassossego, dor, medo e pavor. O antídoto para isso é a confiança na Palavra de Jesus: “E verão o Filho do Homem vindo entre nuvens, com grande poder e glória para reunir a seus eleitos”, pois “poder contemplar a face de Deus é sinal da sua amizade, da sua proximidade, da sua salvação” (Papa Francisco).

Toda a Liturgia de hoje é um convite à esperança, esperar com confiança, a chegada do mundo novo e perceber, nos sinais de desagregação do mundo contemporâneo, o anúncio de que o tempo da sua libertação está chegando. Certos da vinda do Senhor, atentos aos sinais que o anunciam, os cristãos podemos preparar o nosso coração para acolhê-lo, para aceitar os desafios que Ele traz, para agarrar as oportunidades que Ele oferece.

“Uma palavra de esperança torna-se o epílogo natural para onde nos encaminha a fé. Muitas vezes, são precisamente os pobres que põem em crise a nossa indiferença, filha duma visão da vida, demasiado imanente e ligada ao presente. O clamor do pobre é também um brado de esperança com quem a Ele se entrega (cf. Rm 8,31-39).” (Papa Francisco).

Não há uma data marcada para o advento dessa nova realidade. De uma coisa, no entanto, podemos estar certos: as palavras de Jesus são a garantia de que esse mundo novo, de vida plena, de justiça e de felicidade sem fim, irá surgir, está permanentemente a fazer-se e depende do nosso testemunho de esperança.

O cristão autêntico é uma pessoa de esperança. O mundo moderno afundado no consumismo e indiferente a Deus e aos pobres, tentado pelo desespero, tem extrema necessidade de se abrir à viva esperança cristã que não é fruto de nosso esforço nem de nossos desejos, mas é dom do Espírito de Deus.

É a Esperança que todos devemos ter, que a todos desejo com as palavras do Apóstolo Paulo: “O Deus da Esperança vos cumule de toda alegria e paz na fé, a fim de que seja viva em vós a esperança” (Rm 15,13).

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Pároco da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, bairro do Catolé, em Campina Grande.

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