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Escutar Cristo, Palavra do Pai

Padre José Assis Pereira. Publicado em 11 de março de 2017 às 12:07

Por Padre José Assis Pereira

Em sua mensagem para a Quaresma deste ano o Papa Francisco disse: “A Quaresma é um novo começo, uma estrada que leva a um destino seguro: a Páscoa de Ressurreição, a vitória de Cristo sobre a morte. E este tempo não cessa de nos dirigir um forte convite à conversão: o cristão é chamado a voltar para Deus “de todo o coração” (Jl 2, 12), não se contentando com uma vida medíocre, mas crescendo na amizade do Senhor. Jesus é o amigo fiel que nunca nos abandona, pois, mesmo quando pecamos, espera pacientemente pelo nosso regresso a Ele e, com esta espera, manifesta a sua vontade de perdão.

A Quaresma é o momento favorável para intensificarmos a vida espiritual através dos meios santos que a Igreja nos propõe: o jejum, a oração e a esmola. Na base de tudo isto, porém, está a Palavra de Deus, que somos convidados a ouvir e meditar com maior assiduidade neste tempo.” (Papa Francisco, “A Palavra é um dom. O outro é um dom”, Vaticano, 18 de Outubro de 2016).

Gostaria de refletir sobre dois aspectos desta mensagem do santo Padre: Ele começa com um convite à conversão. Mas o mais bonito de suas palavras está na compreensão do dinamismo da conversão como um “crescer na amizade do Senhor, o amigo fiel”. Nossas relações de amizade aparecem não poucas vezes penetradas de momentos luminosos e de outros mais escuros. Os desníveis no «feed-back» relacional nos causam conflito e, em certas ocasiões, até distanciamento.

O outro aspecto é o convite “a ouvir e meditar com mais assiduidade neste tempo a Palavra de Deus”. Para empreender seriamente o caminho, a peregrinação espiritual rumo à Páscoa e nos prepararmos para celebrar a Ressurreição do Senhor o que pode haver de mais adequado do que deixar-nos conduzir pela Palavra de Deus?

Meditando e interiorizando a Palavra de Deus, para vivê-la cotidianamente, aprendemos uma forma preciosa e insubstituível de oração, porque a escuta atenta de Deus, que continua a falar ao nosso coração, alimentando o caminho de fé e esperança.

Os primeiros capítulos do Gênesis deixam ver, no ser humano, o ofuscamento da imagem divina causado pelo pecado. O primeiro domingo da Quaresma recordou-nos essa realidade de Criação e de pecado que é o homem, com todas as suas consequências. Com o capitulo 12, finalmente, para a humanidade mergulhada nas trevas abre-se uma réstia de luz: não é ainda a luz dos olhos, mas luz da Palavra de Deus no silêncio do coração. Com a vocação de Abraão (cf. Gn 12,1-4a) com sua silenciosa resposta de fé, começa a história da salvação, assistimos ao inicio de uma relação de

proximidade e amizade: A de Deus com seu povo. Na pessoa de Abraão, pai da fé, encontramos a origem desta amizade. Deus aparece novamente com seu desejo de fazer parte do devir de todo ser humano. Um Deus que busca, que nos busca.

Nossas relações de amizade, igual à de Deus conosco, implica a decisão de sair de mim mesmo para encontrar-me com o outro. Este sair de nós mesmos implica ainda o indissociável valor da confiança. Abandonar nossos espaços de segurança, nossas visões unilaterais da realidade e dos outros, desemboca no enriquecimento progressivo, na dilatação de nosso horizonte de vida. No cristão, desemboca no cumprimento da promessa.

Abraão é, não só pai dos crentes, mas também modelo de um viver confiado na Palavra de Deus. Cabe perguntar-nos se estamos dispostos a sair de nós mesmos ao encontro dos irmãos; se na verdade somos capazes de abandonar nossas comodidades e seguranças por um bem maior no qual a vida do outro passa a fazer parte da minha; ou se confiamos na Palavra de Deus como guia para nosso caminhar.

Mas, toda relação de amizade, além de sair, exige de nós um compromisso com e pelo outro. Assim o entende o apóstolo Paulo quando nos convida na Carta a Timóteo (cf. 2Tm 1,8-10): “sofre comigo pelo Evangelho”. Comprometer-se com a causa de Cristo é comprometer-se com o irmão. Trata-se de deixar-nos complicar a vida pelo Evangelho. Como vivo minha fé: a partir da comodidade ou a partir do compromisso? Como prego a Cristo no que vivo e no que faço?

Neste segundo domingo da Quaresma o Evangelho (cf. Mt 17,1-9) faz-nos subir com Jesus o monte: viver a Quaresma se parece muito ao caminho que fez Jesus de subida a Jerusalém, caminho que o levará à Cruz. A comunidade cristã toma consciência de ser conduzida, como os apóstolos Pedro, Tiago e João, “a um alto monte”, para acolher de novo em Cristo, como filhos no Filho, o dom da Graça de Deus: “Este é o Meu Filho muito amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o” (v. 5). É o convite a distanciar-nos dos boatos da vida quotidiana para imergir-nos na presença de Deus: Ele quer transmitir-nos, todos os dias, uma Palavra que penetra nas profundezas do nosso espírito.

Subir a montanha com Jesus, trata-se de levantar os olhos, de contemplar para além dos limites de nossos olhos. Trata-se de fazer o esforço de nos afastar um pouco do urgente de nossa vida para ter uma perspectiva maior do verdadeiramente essencial ou importante. Trata-se de buscar o encontro com Cristo para voltar à vida mudada por Ele. Trata-se de não ser sempre nossa a última palavra em tudo e para tudo. Trata-se de deixar que Cristo nos mostre sua glória em cada um dos irmãos. Em minha oração, em meu encontro com Cristo deixo que Ele mude minha vida, minhas prioridades, meus interesses?

Escutar é imperativo divino. Escutar Cristo Palavra viva do Pai. Nas relações de amizade a escuta também desempenha um papel central. Em certa medida, escutar o outro me complica a existência, me compromete com o outro, me faz tomar parte do devir do outro. E isto é precisamente o que Deus quer quando nos convida a escutar a Cristo: que tomemos parte da vida de Cristo, que nos deixemos complicar e implicar em seu projeto salvífico. Já não se trata somente de obedecer a lei mosaica ou de executar a denuncia profética. Agora, ambas, hão de ser vividas através do crivo da nova lei que traz Cristo: “Como eu vos amei amai-vos também uns aos outros” (Jo 13,34).

A quem escuto? Ouço o clamor de meus irmãos? Escuto a Cristo em minha vida ou só sou eu o que falo? É Cristo um Tu pessoal para mim com o qual me encontro, ou somente é um ente abstrato ao qual apresento-lhe minha lista de desejos como se se tratasse de um mago?

O coração da Liturgia deste domingo é, portanto o convite a escutar Jesus, como ponto de luz e esperança em meio às trevas de nosso mundo. Cristo que cumpre em si as Escrituras: “Palavra” única do Pai, e também única “tenda”, que ao encarnar-se no meio do barro da humanidade, tornou-se a única morada de Deus entre os homens. È hoje o nosso momento, de cada um de nós, de descermos o monte e levar aos nossos irmãos, especialmente aos que mais sofrem, a presença gloriosa de Cristo, nossa luz e salvação.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

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* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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