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Campina Grande - PB

Escravidão no Cariri Paraibano

13/09/2017 às 8:20

Fonte: Da Redação

Por Josemir Camilo de Melo (*)

Trata-se do livro “Experiências Vividas: escravidão e formação histórica de São João do Cariri (1782-1843), de José de Sousa Pequeno Filho, a que tive o prazer de comentar, rapidamente, ao lado da sua prefaciadora, Dra. Maria da Vitoria Barbosa Lima, na noite agradável de 09 de setembro, no Instituto Histórico e Geográfico de Serra Branca. A importantíssima obra é fruto direto de sua dissertação de mestrado, defendida na UFCG, em 2014.

A partir de inventários encontrados em cartórios da região, o autor investiga como se deu a Formação História de São João do Cariri, entre os anos de 1783 e 1843, desde o surgimento da Vila de São João e verifica como se deu o processo de manutenção da economia agropecuária da região, tomando como referência o mundo do trabalho e a cultura material. É claro que seu foco é o que está no seu subtítulo, a Escravidão, performando uma parte do livro, sendo, a posterior, a Resistência deste trabalhador escravizado, dentro de uma herança do colonialismo racializado, em que brancos se julgaram no direito de invadir a África e, de lá, sequestrar e comercializar vítimas de conflitos interétnicos locais.

Engolido pela massa documental, o autor se deixa seduzir, prazerosamente, pelo rico material inédito, utilizando-se de centenas de processos, em que a parte da Resistência dedica os dois últimos capítulos. Tenta seguir orientações acadêmicas, onde deveria profundar a parte de Resistência, à la Edward Palmer Thompson (o que não se sabe se seria pertinente, já que o historiador marxista, inglês, trabalha a partir da classe operária e, não, do sistema econômico da escravização étnica; outra variante teórica poderia ter sido utilizada, como contribuições da pesquisa do Movimento Negro sobre Agência e Resistência). O autor tenta contradizer Gilberto Freyre, quanto aos conflitos e resistência nas relações de trabalho, usando a metodologia dos vestígios, da Micro História, em que se transveste de quase jornalista, em suas andanças pelo Cariri de hoje, em busca de comprovantes vestigiais desse passado que, até então, lhe desafia. Daí, as foto que o autor mesmo fez.

Poderia, também, ser enquadrado na Escola dos Annales, por ter escolhido um recorte ‘regional’ (ver os conceitos desta escola para o termo) e um período de média duração (um pouco mais de meio século), enquadrando seu estudo na área de história social econômica, matriz dos Annales das duas primeiras gerações). Um dos elementos desta escola historiográfica é a quantificação das informações, as séries estatísticas, enfim, um escola quase que só quantitativa. Mas o autor não envereda puramente por aí, apesar de suas 44 tabelas (e quadros), além de 30 fotos em cores, de sua pesquisa vestigial. Trabalhando com vestígios (Escola dos Annales), o autor se aproxima, também, da Micro História, ao busca-los nos processos crimes, documentação de cartório, de igrejas. Assim, vasculhou tudo na formação do Cariri, principalmente de sua Serra Branca. Registrou, não só, a parte econômica da escravização do homem negro e de seus descendentes nativos do Brasil, como também as suas táticas de resistências, por vezes incorporando o discurso do oprimido.

Às vezes, seduzido pela documentação, faz da fala antiga a sua fala, sem perceber, de tão assimilado que foi pelo material de sua pesquisa, reproduzindo, aqui e ali, termos provectos (como este meu), sem explicar ao leitor o seu significante, embora tente o significado que, para ele, pesquisador, estava totalmente assimilado, como ‘monte mor’ (montante), ‘cola (doença – cólera?), ‘Asta’ (assim registrado nos documentos ? – hasta), ou expressões de época como o cartório foi destruído, ‘abrasadoramente‘ (traído pela linguagem da época, atingindo vislumbres poéticos). Além disso, teve preocupação em decifrar para o leitor termos populares do passado colonial e imperial do Cariri: como o apelido ‘Pito’ (que não esclareceu, mas admite, pessoalmente, o significante de ‘cavalo velho’), pelo qual um escravizado cometeu um crime; ou termo, como ‘apregoar’ o couro com pregos; ou ‘corona’ de pano fino; ou, também, repetir o termo ‘lanço’, em leilão, em vez do moderno lance.

Infelizmente o autor foi traído pela revisão do texto, talvez de responsabilidade da editora, deixando passar algumas ‘gralhas’ ou, talvez, no afã de ver nascer o primeiro filho. Que já nasceu gigante. Um trabalho de fôlego, principalmente pela leitura de suas 44 tabelas, em que algumas poderiam estar em anexos, ou apêndices, para aliviar o peso do texto na leitura. Um mergulho obrigatório na História, para qualquer estudante paraibano, principalmente desta região enigmática, como discurso e atraente em seus desafios, o Cariri Paraibano. Parabéns ao José Pequeno, que é muito grande, mesmo!

(*) Professor, historiador, presidente da ALCG

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