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ENTRELAÇOS

Ribamildo Bezerra. Publicado em 15 de dezembro de 2016 às 9:28

Contava seis. A turma da noite preparava-se para mais uma ação de benefício aos mais necessitados. Alimento do corpo e da alma. Pastoral dos Servos Pobres. Equipe quase pronta, seis, teria contado a Irma Da Paz. Falta o Paulo, cadê o Paulo? – questionou ela, quase em um tom de necessidade.

Ele, o senhor antítese, era assim que carinhosamente a jovem noviça o chamava. Um ‘batismo’ que só veio seis meses depois logo que se conheceram, quatro anos antes. Exatamente no dia de São Francisco, padroeiro da comunidade. Apresentados pelo Frei Fausto, o primeiro instante foi de repulsa e estranhamento.

O rosto de Paulo, seu pseudônimo, viria descobrir que seu verdadeiro nome era Rilawar – era puro e cativante, juvenil, diria. Pele clara e traços bem definidos, algo que contrastava com as marcantes  tatuagens que  tomavam forma desde o seu pescoço e se evidenciavam por todo o braço esquerdo.

Pensou a princípio se tratar de um ex-viciado, cheio de gírias, agora recuperado pelo caminho da espiritualidade. Ledo engano. De fala tranquila, era um homem que respeitava as palavras. Até onde lembrava nunca se ouviu Paulo dizer um palavrão.

Seu único vício era recitar discursos de Dom Hélder Câmara em horas de folga, principalmente aquele proferido no ano de 1964 quando desembarcou em Jaboatão dos Guararapes para se tornar arcebispo de Olinda e Recife, e seguido por milhares de pessoas, afirmou entusiasticamente – “Não vim aqui para ser servido, vim para servir”.

A repulsa, logo cederia espaço à admiração e logo em seguida um sentimento estranho para uma noviça, um carinho estranho que não permitia estar longe daquele estranho anjo.

Em comum entre os dois a devoção por São Francisco de Assis e Santa Clara, esta última que teria sublimado sua paixão pelo santo reformado, abraçando a causa espiritual pelos mais pobres.

Sempre ao fim de cada trabalho de assistência aos moradores de rua, os próprios membros da pastoral, após uma oração de agradecimento, provavam da própria sopa. E aí se permitiam conversar amenidades que não obrigatoriamente princípios católicos.

A Irmã Da Paz e Paulo eram harmônicos em qualquer assunto. A admiração mútua era evidente, e isto era notório aos olhos estranhos. Amavam-se pelo simples fato de aprender um com o outro. Esse era o motivo.

Foi Paulo quem apresentou todo o repertório do maestro americano Burt Bacharach à Irmã Da Paz e através das suas músicas a sua relação com o cinema. Certa vez em um Baile de Formatura de estudantes de uma das comunidades assistidas, dançaram juntos um dos sucessos do Maestro, a canção I Say a little Prayer (Eu faço uma pequena oração).

Sentiram-se tão bem ali, enquanto durava a canção, que em segredo prometeram que aquela seria a canção dos dois e que a vida perdoasse aquilo que a lógica não conseguia explicar. Seria o máximo de proximidade que teriam.

Paulo era cearense, natural de Fortaleza, e se orgulhava por ser conterrâneo de Dom Hélder Câmara. Era professor no Curso de Geografia, concursado pela Universidade Federal. Já Irmã Da Paz, ou Maria do Socorro Paz, mesmo vocacionada para a religiosidade, conseguiu forma-se como Enfermeira, chegando ao cargo de chefe do Setor do Hospital Filantrópico da cidade.

Falavam que sua mansuetude e seus olhos claros lembravam Dona Zilda Arns. Assunto que a encabulava, para não dizer chateava. Paulo era divorciado e pai de uma garota de 13 anos, Priscila. Dizia-se exausto emocionalmente para novas relações, preferia a solitude.

Irmã Da Paz era casada com seu ofício, assumindo ainda dúvidas sobre sua vocação, mas servir era algo que falava mais alto ao seu coração.

O professor justificava o pequeno atraso, cinco minutos apenas, pois tinha ido adquirir mais números do livro “Os Passos do Pastor”, recortes biográficos de passagens de Dom Hélder, que costumava distribuir com os seus irmãos de dificuldades. A esperança em letras, como costumava dizer.

Naquela noite, iriam distribuir sopa e agasalhos aos poucos moradores de uma comunidade destruída pelo tráfico.

A guerra entre Polícia e traficantes resultaria na evacuação da comunidade, restando apenas aqueles que aguardavam um lugar definido pela Prefeitura onde recomeçariam suas vidas, longe do conflito.

O líder comunitário teria dado passe livre para a Pastoral atuar aquela noite. Logo após a oração inicial, toda a equipe, formada pelo professor Paulo, Irmã Da Paz, um casal de médicos e três frades, buscaria pelas vielas da comunidade corações famintos de comida e esperança.

E foi num destes becos que Paulo, motivado a conversar com um jovem que fumava crack e que não tinha sequer coordenação motora para levar a colher de sopa à boca, tamanho o efeito da droga no corpo do dependente, acabou se afastando do grupo.

Sua fé e seu humanismo seria o seu maior algoz naquela noite. O pobre dependente, também era um olheiro do chefe do tráfico naquela região para evitar que gangs rivais ocupassem aquele território.

Paulo era observado por terceiros e não sabia. Recebeu o primeiro tiro pelas costas, vindo de uma arma com silenciador. Caído, sem entender o que o havia derrubado, tentou puxar o livro do bolso de trás da calça. O segundo tiro seria na cabeça.

A movimentação no local era calculada. Ninguém nunca mais o veria. Seria dado como desaparecido pela própria Polícia. Seu corpo teria sido levado ainda naquela noite, para o “micro-ondas”, local onde eram incinerados os corpos de traficantes de gangs rivais.

As tatuagens que nunca permitiram ao professor Paulo doar sangue, talvez proporcionassem dúvidas sobre suas intenções naquela noite.

Mesmo sem nunca saber do seu paradeiro, e o caso nunca ter sido resolvido pela Polícia, Irmã Da Paz ainda se surpreende quando a lembrança traz a figura do Professor Paulo ou em algum lugar ela ouve a canção que fez seu coração acelerar por um homem…

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Ribamildo Bezerra

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