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Entre a cruz e a cerveja

Álvaro Neto. Publicado em 8 de maio de 2018 às 9:56

Ao ouvir a palavra monge somos logo remetidos à imagem de um senhor sereno, em estado de contemplação envolto em um manto marrom, com um crucifixo às mãos, transmitindo ensinamentos, realizando uma leitura ou meditando. Provavelmente não existe nessa imagem um copo de cerveja, afinal os monges buscam a elevação espiritual e o distanciamento das tentações mundanas. Não, cerveja não faz parte desse cenário.

A vida monástica presume a abdicação da vida em sociedade para dedicação à vida religiosa e consequente elevação moral dos seus adeptos. No entanto, é necessário suprir as necessidades básicas como beber, comer, se banhar e dormir por exemplo. Logo, um dos princípios básicos do monasticismo ser a autossuficiência, cujas regras foram criadas no século VI por São Bento de Murcia, que previam que os monges deviam trabalhar para sustentar o mosteiros, cultivando a agricultura e daí extraírem os insumos necessários para produção de alimentos, bebidas, roupas, etc.

A Ordem Trapista é a mais conhecida por esse modo de vida e por manter até os dias atuais as vida dentro dos muros de acordo com o estabelecido no século XII quando da fundação da Ordem Cistercienses Reformados de Estrita Observância sediada na abadia de Notre-Dame de la Trappe (por isso conhecida como Ordem Trapista). Por terem um modo de vida simples e de baixo custo, os monges trapistas utilizam os melhores insumos na produção de seus alimentos, inclusive a cerveja, cujo objetivo é a alimentação.

Vale relembrar que na idade média o fornecimento de água era precário e seu consumo provocava muitas doenças. A cerveja por ser fervida e fermentada era uma bebida, digamos, livre de riscos, além de fazer parte da dieta. Percebeu-se que os monges não adoeciam ou adoeciam menos que as pessoas das comunidades. O segredo estava na cerveja.

Em 1997 foi criado o selo “Trappist” com a fundação da ITA (International Trappist Associationa), cujo objetivo é o de identificar os produtos (pães, cervejas, queijos, vinhos) cujos mosteiros preservam e respeitam critérios de produção originalmente trapistas, dentre eles: serem produzidos e supervisionados por monges dentro dos monastérios e não acumular lucros, toda renda deve ser utilizada para cobrir o custa de vida dos monges, despesas dos prédios monásticos, sendo toda e qualquer sobra destinada às obras de caridade. Existem em torno de 20 mosteiros trapistas atualmente, dos quais 11 são produtores de cerveja, a maioria na Bélgica.

As cervejas trapistas estão distribuídas em diversos estilos todas complexas, com aromas e sabores caramelados, frutado que remete a ameixa, uva e uva-passa, rum, ervas e especiarias. Os estilos mais conhecidos são Dubbel, Tripel e Quadrúpel, cuja origem dos nomes não se pode precisar, já que todas as histórias deixam margens ao imaginário. A que, talvez, mais se aproxime da realidade era a de que os barris de maturação das cervejas eram marcados com “X”, “XX”, “XXX” que era uma espécie de indicação do nível alcoólico das cervejas.

São excelentes acompanhantes da gastronomia, possibilitando harmonizações espetaculares e diversas. Existem guias em sites da internet que trazem boas sugestões que valem a pena ser provadas. Portanto, ao sair da próxima missa, culto ou da oração que fizer no seu recanto doméstico e quiser tomar uma cerveja, não é pecado. É monástico!

O que acha de agora tomar uma Rochefort 8 do estilo Belgian Dark Strong Ale de coloração marrom, com aroma frutado, complexo, apresentando o malte caramelo que se confirma na boca acrescentado com toques de nozes e café. Utilize um cálice para servir, na sua falta uma taça de vinho para apreciar sem pressa seus 9,2% de graduação alcoólica. Para harmonizar temos a opção de um ossobuco e purê de mandioquinha ou para sobremesa um petit gateau. Ah… não esquece de contar pra gente como foi. Op uw gezonheid! Ou simplesmente, saúde!

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Álvaro Neto

Beer Sommelier formado pela Doemens Akademie de Munique e proprietário da Soul Cervejeiro, em Campina Grande.

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