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“Entra em beco, sai em beco…”

Noaldo Ribeiro. Publicado em 1 de maio de 2018 às 22:21

A atual situação brasileira, em linguagem metafórica, se assemelha ao título acima, extraído de música cantada por Gilberto Gil. Na canção o final é esperançoso, pois sempre resta uma saída (“há um recurso Madalena…”). No caso agora, não! Não existe certeza, a corda está sendo esticada de tal forma que o esgarçamento das forças que se digladiam não permite identificar qual é o lado fraco.

De qualquer forma, esse embate – que nem de longe lembra as discussões abordadas por Lenin em “O esquerdismo, doença infantil do comunismo” –  certamente chegará ao seu fim, seja qual for.

Por enquanto, as feições deste momento lembram uma verdadeira torre de babel sem o objetivo de se alcançar a morada celeste, mas de provocar um estado de coisas no qual ninguém entenda ninguém como propôs Javé: “Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que não entendam a linguagem um do outro”.   

Para ilustrar essa confusão que não é a primeira da história, como querer fazer crer os profetas do fim do mundo, reproduzimos trechos do jornalista Sibito, publicado no antigo Jornal das Moças (Informativo da Festa de Nossa Senhora das Neves da capital João Pessoa):

“Numa das últimas sessões da A.P.I., o jornalista Sibito pronunciou o seguinte discurso:

– Sr. Presidente, peço a palavra.

– Tenha a palavra jornalista Sibito.

– Sr. Presidente, ocupo pela primeira vez esta tribuna para manifestar a minha indignação pelo movimento de hostilidade, encabeçado pelo endiabrado João Santa Cruz, contra a entrada do professor Cavalcanti…

– João Santa Cruz – Endiabrado é V. Excelência.

– Sibito – O professor Cavalcanti que, não é oposicionista, que é um homem de bem…

– Luís de Oliveira – Protesto! V. Excelência é um canalha! Retire a expressão!

– Presidente – Atenção! Está com a palavra o jornalista Sibito.

– Sibito – Tem razão o Dr. Dustan Miranda quando disse que as folhas da oposição usam uma linguagem…

– Alves de Melo – Não admito! V. Excelência é um bajulador indecente, é doido varrido, é um mequetrefe. A nossa linguagem é elegantíssima…”.

Assim continua o discurso que não chegou a ser proferido pelo jornalista Sibito porque, talvez inconscientemente, seus colegas resolveram seguir o conselho de Javé.

Pois bem, o momento político brasileiro é um pouco disso, porém com uma ligeira diferença:  não há humor e brincadeira na disputa. A briga é pra valer. Diversas forças políticas tentam misturar as linguagens em quantidade ímpar, se bem que com o fim de dividir as opiniões em apenas duas.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Noaldo Ribeiro

* Sociólogo.

falecom@fhc.com.br

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