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Em vez de pedra, o perdão

Padre José Assis Pereira. Publicado em 6 de abril de 2019 às 13:05

No centro do Evangelho deste V Domingo da Quaresma o relato da “mulher adúltera” (cf. Jo 8,1-11). Se na semana passada ouvíamos Cristo ensinar-nos sobre a misericórdia do Pai contando-nos a parábola do “filho pródigo” (cf. Lc 15, 1-3.11-32), hoje o Redentor vai muito mais longe porque nos falará desse perdão misericordioso já não com belas histórias, mas com gestos e com a sua própria vida.

Muito provavelmente este episódio pertence aos últimos dias da vida de Jesus, no centro da cena vemos uma mulher indefesa, ameaçada, talvez agredida, enfrentando sozinha os seus acusadores: “Os mestres da Lei e os fariseus trouxeram uma mulher surpreendida em flagrante adultério. Colocando-a no meio deles” (v.3). Talvez ela não estivesse arrependida, não importa! Com certeza ela estava perturbada, assustada e envergonhada. Ela é deixada só, exposta diante da opinião pública com “o seu pecado”, jogada aos pés de Jesus. Esta mulher é a imagem exata do que era, naquele tempo, a mulher na sociedade judaica, considerada uma propriedade do marido. Por isso o adultério mais do que um pecado de luxúria era um pecado contra a propriedade.

Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Moisés na Lei mandou apedrejar tais mulheres. Que dizes tu?” (vv. 4-5) Escribas e fariseus queriam sepultar a pecadora com a pedra de um passado de pecado. Corações tão duros como pedra. Olhares tão sujos como o chão. Mãos tão apertadas como a Lei. E com a pedra da cegueira, mestres da lei queriam atingir com uma só pedrada a autoridade de Jesus, desmoralizando-o e a dignidade de uma mulher, eliminando-a.

Jesus, inclinando-se, começou a escrever com o dedo no chão” (v. 6) e coloca sobre o passado a pedra de uma ruina, a vida de uma mulher, com direito a reconstrução. Eles armaram-se com a hipócrita certeza das suas públicas virtudes. Jesus desarma-os com a verdade dos seus vícios privados: “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra!” (v. 7) E caem uma e outra pedra… E ficou só Jesus e a mulher. Em vez de pedra o perdão.

Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou? Ela respondeu: Ninguém, Senhor. Então Jesus lhe disse: Eu também não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais”. (vv. 10-11) Quanta nova confiança deve ter infundido na mulher estas palavras: volta a viver, volta para casa, retoma a tua dignidade… Podemos estar certos: a experiência daquele encontro, daquele perdão, daquela compreensão infinita por parte de Jesus, reergueu aquela mulher, lhe encheu o coração com a

experiência de um amor novo, tão diferente daquele que a tinha iludido em seu adultério. De modo que ela não deve ter mais procurado um momento de uma dúbia felicidade nos braços de um homem que, depois de tê-la talvez seduzido, a havia deixado tão covardemente abandonada pelas ruas da vida.

O perdão é um ato de “recriação”, de nova geração. “Não relembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos. Eis que eu farei coisas novas, e que já estão surgindo: acaso não reconheceis?” (cf. Is 43,16-21) O profeta Isaías anunciando a recriação de Israel pós exilio, afirma que Deus perdoando esquece os acontecimentos passados, abre um novo caminho, para fazer do pecador ou pecadora uma nova criatura. O perdão de Deus recria no amor e regenera a pessoa, transformando-a por dentro, faz dela outro ser. Agora o amor de Deus alcança a humanidade através de Jesus, Ele é a mão que Deus estende aos pecadores para reconduzi-los ao seu amor e torná-los capazes de amar por sua vez.

Aquela mulher representa todos nós, que somos pecadores, ou seja, adúlteros diante de Deus, traidores da sua fidelidade (do seu amor). E a sua experiência representa a vontade de Deus por cada um de nós: não a nossa condenação, mas a nossa salvação através de Jesus. Ele é a graça, que salva do pecado e da morte… Cristo é o único sem pecado; único, portanto, que podia arremessar a primeira pedra, mas Ele renuncia ao direito de condenar porque, como o Pai, não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (cf. Ez 31,11)”. (Papa Francisco)

Aqueles mestres da Lei e fariseus do evangelho não eram muito piores do que nós. Aquelas palavras de Jesus foi como se Ele tivesse tirado a tampa da consciência de cada um; Jesus sabia o que estava no coração de cada um. Quer dizer, se todos somos pecadores, por que não somos mais humanos ao julgar os outros?

Embora todos sejamos pecadores, acusando os outros como fiscais, julgamo-nos inocentes. Parece-nos a coisa mais natural do mundo “atirar pedras”, jogar a culpa nos outros. Quantas vezes se atiram pedras nos outros, esquecendo nossos próprios telhados de vidro. Quantos de nós talvez guardamos pedras para jogá-las contra os pecadores! Quantos já atiraram pedras com a língua afiada, com atitudes de ódio, de preconceito, de desprezo e de silêncio! Quantos já estão dispostos a jogá-las contra os parentes, vizinhos, companheiros de grupo, chefes de trabalho, governantes, lideranças religiosas…

Ai dos pregadores da moral que cobrem o rosto com a máscara da justiça e da virtude, sem caridade no coração! Sim, devemos ser inflexíveis com o pecado, mas cheios de misericórdia com o pecador. “Como nos faz bem estar cientes de que também nós somos pecadores! Quando falamos mal dos outros – estas são coisas que conhecemos bem – como nos fará bem ter a coragem de deixar cair no chão as pedras que temos para atirar contra os outros, e pensar um pouco nos nossos pecados!” (Papa Francisco)

No nosso mundo, o fundamentalismo e a intransigência falam frequentemente mais alto do que o amor: mata-se, oprime-se, escraviza-se em nome de um deus; desacredita-se, calunia-se, em razão de preconceitos; marginaliza-se em nome da moral e dos bons costumes… Esta lógica, bem longe da misericórdia e do amor de Deus leva-nos a algum lugar? A intolerância alguma vez gerou alguma coisa além da violência, da agressão, da morte, de lágrimas, de sofrimento?… Quantas vezes marcamos os outros com o estigma da culpa e queimamos pessoas em “julgamentos sumários” sem direito a defesa… Por isso diz o ditado “a culpa morreu solteira”, porque ninguém a quer. Procura-se, arranja-se sempre um bode expiatório, tanto a nível político, social e religioso… Hipócritas! Julgamos assim que nos auto justificamos. Contudo, constituirmo-nos como juízes dos outros é um contra senso clamoroso. Isso é competência exclusiva de Deus, o único que conhece integralmente a pessoa com os seus condicionamentos psicológicos e as suas limitações, e, por conseguinte, a responsabilidade e culpabilidade de cada um.

É sempre bom lembrar que o combate ao pecado não deve incluir o desprezo à pessoa do pecador. E muitas vezes, o outro de fato nem é tão mais pecador do que nós, apenas tem um pecado diferente do nosso…

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