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Em nome de Deus fizeram o diabo!

Wilkens Lenon. Publicado em 19 de abril de 2016 às 9:39

wilkensPor Wilkens Lenon

Já dizia o profeta: “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca”. Amos 4:25

Assim votam evangélicos no impeachment:

“Com ajuda de Deus, pela minha família e pelo povo brasileiro, pelos evangélicos da nação toda, pelos meninos do MBL, pelo Vem pra Rua, dizendo que Olavo tem razão, dizendo tchau para essa querida, e dizendo tchau ao PT, partido das trevas, eu voto sim!”  (Dep Marcos Feliciano)

“Que Deus tenha misericórdia dessa nação.” (Voto do evangélico Eduardo Cunha)

São dois votos emblemáticos de “arautos da justiça” na votação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Votos que resume, com eloquência, a ética da bancada da bíblia no Congresso Nacional. O primeiro é o voto do deputado Marco Feliciano e o segundo do Eduardo Cunha. Transformaram o nome de Deus em símbolo da iniquidade política.

Durante toda a campanha pela sua derrubada, Dilma Rousseff têm se comportado com grandeza e generosidade. Nunca vi a presidenta alterar sua voz para depreciar seus adversários políticos, muito pelo contrário, seu comportamento tem sido o espelho da sua reputação. Mas, tenho visto essa mulher ser achincalhada e atacada em sua honra, todos os dias, sempre de forma vil e mentirosa. Outro dia assisti um vídeo em que um advogado evangélico ameaçou cortar a cabeça da presidenta com a ajuda dos militares…“caso ela não renuncie, fuja do país ou se suicide.” Com a mesma sandice, o deputado neofascista, Jair Bolsonaro, que foi eleito com uma grande parte de votos de evangélicos do Rio de Janeiro, diz querer Dilma “infartada ou com câncer” e chama imigrantes de escória. Isso é insanidade, mistura de loucura com fanatismo. E o pior, tem muita gente crente, dentro das igrejas, dizendo amém a esse tipo de comportamento carregado de maldade, ou se omitindo, o que dá no mesmo.

Dói na alma olhar a realidade e perceber que, lamentavelmente, o descrito acima, não é comportamento isolado no meio evangélico. Percebo isso dentro de Igrejas com as quais me relaciono. Muitos evangélicos simplesmente não admitem que Dilma seja uma mulher honesta: ela tem que ser ladra, corrupta, bandida e como tal deve ser tratada, NÃO IMPORTA QUE NADA EXISTA PARA DESABONAR A SUA CONDUTA! É doloroso perceber, com clareza assustadora, o fascismo, fazer morada no coração de pessoas que deveriam ser exemplo de espírito fraterno, tolerância e perdão. Esse é o resultado fático quando a Igreja é desconectada do cotidiano. Fica alienada no seu mundo “espiritual”, sujeita a todo tipo de manipulação grosseira.

O voto do Marco Feliciano é um acinte ao Evangelho do Senhor Jesus Cristo. Como pode o Eterno ajudar num processo viciado e cheio de torpezas contra uma mulher inocente? Quem disse que o Senhor Deus compactua com a injustiça? Porque esse processo não é nunca foi justo. Vestal da moral e dos bons costumes, Feliciano, sabe da forma sebosa como Eduardo Cunha conduziu esse processo. Sabe que a presidenta não cometeu crime nenhum. Sabe que “pedaladas fiscais” não configura crime de responsabilidade, porque um atraso de transferência de recursos do tesouro nacional para os bancos públicos, que foi o que efetivamente aconteceu, não pode ser imputado como crime de responsabilidade à presidenta.

Marco Feliciano e toda a bancada evangélica no Congresso sabem que esse processo é, na verdade, uma grande farsa, arquitetada pela rede Globo e seus satélites, conjuntamente com um bando de empresários egoístas e golpistas liderados pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo em conluio com uma oposição revanchista, mesquinha e vingativa, que não se conforma em perder a quarta eleição presidencial consecutiva. Todo esse circo foi armado para tirar a legítima mandatária do país da cadeira em que foi colocada por 54 milhões de eleitores, para colocar no seu lugar um judas palaciano, Michel Temer, envolvido nos escândalos de corrupção, denunciados pela operação lava-jato.

Eu tenho certeza de que a grande maioria do povo evangélico são pessoas boas, que amam a Deus e tentam viver o evangelho em sua plenitude. Mas, o que lamento é a leviandade de muitos líderes que manipulam o povo em nome de Deus, da bíblia e da boa fé. É terrível a maneira odienta como Silas Malafaia e outros líderes, igualmente ditos evangélicos, usam a televisão e a internet para pregar o ódio ao PT e a qualquer pessoa que ouse defender bandeiras progressistas e políticas públicas de inclusão social. Infelizmente muitos repetem o discurso do ódio, em seus púlpitos e dentro das igrejas, inflamando corações e mentes. Não se preocupam com o povo mais pobre que depende das cotas, dos programas de acesso ao ensino técnico e superior, da política de valorização do salário mínimo, do Minha Casa Minha Vida e de tantas outras políticas de inclusão social que têm abençoado famílias evangélicas por esse Brasil afora. Todos esses avanços foram, de forma virulenta, atacados neste dia 17 de abril de 2016, o domingo da vergonha.

O voto mais acintoso foi o do Eduardo Cunha com a cara de pau de um Pinóquio cínico invocando a misericórdia de Deus como se fosse o homem mais santo do mundo. Será que o povo evangélico, sabe que este sacripanta é réu em processo criminal no Supremo Tribunal Federal e que o Procurador Geral da República está pedindo mais de 180 anos de cadeia por seus crimes? Sabem que este já deveria ter perdido o mandato, mas não conseguem tirá-lo porque, com a ajuda de várias personalidades evangélicas e outros políticos corruptos, ele consegue manobrar e manipular a comissão de ética da Câmara a seu favor, mesmo com todas as provas, que não são poucas? O povo evangélico tem conhecimento que na comissão que votou, em tempo recorde, o parecer sem crime, para tirar a presidenta Dilma Rousseff, existem 36 deputados, dos 65 que a compõem, respondem a processos na Justiça? Que naquele, circo de horrores que foi a votação do impeachment, em que o nome de Deus foi vergonhosamente banalizado, a grande maioria dos políticos, sob a presidência de Eduardo Cunha, responde à justiça por conta de sua má conduta política?.. Em nome de Deus fizeram o diabo!

Diante de tudo isso, como podemos admitir tanta iniquidade para atingir uma presidenta contra quem não existe sequer indício de má conduta? Como posso aceitar que o Eterno Deus compactua com uma armação tão injusta colocada não apenas para tirar Dilma Rousseff, mas também para prejudicar o povo brasileiro? Vai ver, por exemplo, que os empresários da Fiesp e seus sócios estão pensando no bem do Brasil e seu povo. Só que não! Estão mesmo é cheio de iniquidade social e ávidos pelo sacrifício do trabalhador e da trabalhadora brasileira, ainda que isso custe até a última gota do suor do seu corpo.

A Igreja não pode mais continuar alienada da sociedade no meio da qual está plantada. Não pode mais querer salvar apenas a alma quando o corpo é o templo do Espírito e a vida toda é sagrada. Não  pode mais ficar na sua zona de conforto e só participar da sociedade em tempo de eleição quando assiste de camarote a ascensão de políticos corruptos às custas dos votos do seu povo. É hora das comunidades evangélicas dialogarem com a sociedade civil organizada tendo a fraternidade como fundamento das suas relações. É hora de vencer o preconceito e aprender aceitar as diferenças da sociedade tendo a tolerância como parâmetro das relações. Só assim, tornar-se-á relevante no mundo e, enfim, honrará ao Cristo crucificado, que se fez um de nós.

Enquanto isso não acontece, seguiremos assistindo espetáculos vergonhosos, como o do último domingo, na sessão de votação pela queda dessa grande brasileira, a senhora Presidenta da República do Brasil, Dilma Vana Rousseff, que com a sua altivez e serenidade, nos ensina como se comporta um ser humano honrado em tempos de crise.

Que nosso lema seja o anúncio profético de Amós 4:25:

“Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca”.

Que a voz profética seja a nossa prática e a justiça nossa busca incansável.

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Wilkens Lenon

Mestre em Educação Matemática e Tecnológica pela UFPE. Licenciado em Computação pela UEPB. Funcionário da área de TI no MPPB. Ativista cibernético engajado pela causa da cultura livre. [email protected]softwarelivre.org @wlenon

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