Elizabeth Marinheiro: Tessituras

Elizabeth Marinheiro. Publicado em 6 de junho de 2021 às 9:00

Dia três de junho. Corpus Christi!

Acamada, não me foi possível receber o brilhante que chegava a minha casa. Com certo esforço, consegui ler “EU COM OUTROS”, da autoria do Escritor/Crítico JOSÉ MÁRIO SILVA, publicado no Jornal “A União”, do dia 03/06/2021.

Fui tomada de violenta emoção. Violenta emoção ditada por incontroláveis lágrimas. Não tenho condições (agora) de fazer metacrítica em torno do Ensaio de Mário. De pronto, breves palavras: Estudo longo fôlego; originalidade inquestionável; perfeita semântica de sério Estudioso. E mais: ausência de afetivismos, de gratuidades e a perfeita compreensão dos conteúdos.

Portelliana que sou, reafirmo; meu silêncio é mais forte que a fala. Ao Escritor Mário oferto o meu sagrado silêncio! Eis o brilhante:

“Com erudito prefácio de Edmundo Gaudêncio, acumpliciado a uma bela capa da RG Editora, comandada por Ronaldo Evaristo, o livro Eu com Outros pontifica como a nova produção intelectual da professora Elizabeth Marinheiro, na verdade, a sua autobiografia.

Memórias, diários, biografias, autobiografias, autoficções, confissões integram o rol das textualidades que a Teoria da Literatura tem catalogado no território das chamadas escritas de si, nas quais, sem nenhuma pretensão de exaustividade conceitual, tem-se o périplo da subjetividade, pelas cenas e cenários de um real, ou dos vários reais nos quais Elizabeth Marinheiro se consumiu; se consumou, e esculpiu os marcos e marcas de uma identidade tão significativa quanto plural em seus múltiplos fazeres. É essa subjetividade multidirecional que imanentiza o ser/fazer de Elizabeth Marinheiro nas geografias da Paraíba, no Nordeste, do Brasil e do mundo, que ganha protagonismo nas páginas de Eu com Outros, em cujo enredo podemos encontrar o roteiro existencial de uma mulher que, conforme acertado dizer de José Louzeiro, não veio ao mundo para se confinar no universo habitado pelos meramente contemplativos, mas sim no daqueles que à contemplação cuidadosa, souberam unir a ação efetiva e efetivamente transformadora.

Eis o dicionário particular da filha de Dona Marié e seu Agripino Agra, dicionário esse que, de modo rigorosamente parcial, pretendo percorrer nesta breve apresentação da autobiografia da respeitada mestra campinense.

A – ALTERIDADE. Enérgica, exigente, e militarmente disciplinada, Elizabeth Marinheiro é, sobretudo, uma cultivadora de alteridades, uma promotora de inclusões, atitudes típicas de quem sabe, conforme ensinou a hermenêutica de Eduardo Portella, que “somos um ser para o outro e fora do diálogo o que existe é o precipício”. Nesse luminoso itinerário, Elizabeth Marinheiro sempre se configurou como uma descobridora de talentos, nos quais ela investiu, sem perder de vista, um só instante, a radical ética da liberdade e do respeito às individualidades.

A – ARTE. Sendo uma estudiosa do duplo na literatura, vamos ao duplo da letra A, desembarcando, pois, no míticomágico ambiente da Arte, signo recorrente nas várias pedagogias exercidas pela professora campinense; e que ganha singular relevo em sua autobiografia. Arte que matizou o seu magistério de Língua Portuguesa no legendário Colégio Estadual da Prata, o Gigantão, no qual, consorciadamente, Língua e Literatura andavam de mãos dadas em enfoques didáticos verdadeiramente revolucionários e iluminadores. Arte que, hibridamente concebida, conferiu grandeza aos Corais Falados Manuel Bandeira e Cecília Meireles, que jungiam em suas magistrais performances, a dança, o teatro, a música e a literatura. Arte essa que, materializada na criação da Facma – Fundação Artística e Cultural Manuel Bandeira, foi aplaudida aqui, ali, algures, alhures, do Salão Nobre da Academia Brasileira de Letras, às geografias do Velho Mundo.

C e D – CORAGEM e DETERMINAÇÃO, eis os signos de que Elizabeth Marinheiro se valeu para, impulsionada por Virgínius da Gama e Melo, sair de sua confortável Guabiraba para buscar a consolidação da sua formação acadêmica em Recife, Porto Alegre e Madrid. Coragem e determinação para enfrentar o novo e, principalmente, para conviver, em momentos diversos, com a solidão e o distanciamento de sua família. Valeu a pena? “Tudo vale a pena / se a alma não é pequena / Deus ao mar o perigo e o abismo deu / mas foi nele que espelhou o céu”, já o proclamou o genial Fernando Pessoa.

Sempre antenada com as modernas correntes da Teoria da Literatura e da Crítica Literária, sem, no entanto, fazer de nenhuma delas o carro-chefe dos seus variados estudos críticos, Elizabeth Marinheiro idealizou e redigiu o Projeto de Pesquisa: Literaturas Marginais e Produção de Textos, trazendo para o centro dos debates a perspectiva multiculturalista de abordagem do texto literário; projeto esse que ensejou, depois da aprovação pelo Ministério da Educação e Cultura, a criação do mestrado de igual título no âmbito da Universidade Estadual da Paraíba, de cuja coordenação a professora campinense foi abruptamente retirada. Desembarcamos, pois, no signo P, da Perseguição a que a Elizabeth Marinheiro esteve exposta em mais de uma circunstância. Aqui, para não faltar com a verdade consigo mesma, Elizabeth Marinheiro, transparentemente, dá nome aos bois, numa autobiografia que, realista em suas formulações, não teme o acerto de contas com a história, sobretudo, com a opaca história daqueles que, vendo mirrados os seus pomares, vingam-se atingindo os frondosos pomares alheios.

V – VIAGEM. Walter Benjamin, num dos seus ensaios mais famosos, discorre acerca de dois tipos basilares de narradores: os sedentários e os viajantes; os que ficam em suas glebas natais e os que partem. Em Eu com Outros, o narrador elizabethiano consorcia essas duas dimensões, dado que, estando sempre na Guabiraba, Elizabeth Marinheiro não menos fez de várias espacialidades do Brasil e do mundo, o seu privilegiado mapa de Chegadas e Andanças.

R – RELAÇÕES. Sabedora, com Guimarães Rosa, que “a verdade não está na entrada, nem na saída, mas no meio, na travessia”, Elizabeth Marinheiro mostra-se em Eu com Outros como um verdadeiro nó de relações. Relações com amigos, alunos, e, sobretudo, com os grandes mestres, com os quais ela conviveu, dos quais aprendeu imorredouras lições, os quais ela trouxe para Campina Grande, nos memoráveis e incomparáveis Congressos Internacionais de Teoria e Crítica Literária, um capítulo à parte na história do pensamento da Rainha da Borborema. No mês de setembro, durante sete dias consecutivos, Campina Grande se transformava na Capital da reflexão literária, vivenciada na companhia dos maiores expoentes da Teoria e da Crítica Literária nacional e internacional. A sessão Depoimentos, presente na autobiografia Eu com Outros, dá bem a medida das relações profícuas que a criadora de Vozes de uma Voz entabulou com grandes personagens de um aberto e descentrado livro chamado Literatura, da qual a professora campinense é intérprete fiel e consumada mestra.

Em termos machadianos, poderíamos dizer que a literatura é uma espécie de segunda alma de Elizabeth Marinheiro. Literatura que é a morada das palavras e o refúgio da linguagem, o esconderijo estético no qual a escritora campinense se abriga; e de que necessita, assim como todos necessitamos, para conviver, sempre aquecida pelas inapagáveis chamas da esperança, com os torvelinhos que nos visitam, com as pedras que, inevitavelmente, interpõem-se em nosso caminho.

Eu com Outros, a Autobiografia de Elizabeth Marinheiro, é diário íntimo e confissão pública; é memória particular e história comunitária. É o poético, o figurado, as conotações e denotações de uma vida timbrada pelos signos da ascensionalidade, vida forjada pelas lutas e arrebatada para os patamares da imortalidade. Eu com Outros é escrita de si, do outro, e dos vários outros, com os quais, pelos desbordantes caminhos da literatura, estabelecemos uma enaltecente fraternidade do espírito.”

AO MEU LEITOR

A Crítica não é camisa de força imposta ao objeto literário. Estilhando-se a discursividade, prevalece, ao mesmo tempo, ser o mesmo e ser o outro.

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