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Elas

José Mário. Publicado em 25 de outubro de 2016 às 16:25

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Foto: Paraíbaonline

Por José Mario da Silva

Nascido na cidade de Currais Novos, no vizinho Estado do Rio Grande do Norte, mas de há muito radicado na cidade de João Pessoa, em cuja geografia pontifica como um consagrado médico, o Doutor Manoel Jaime tem-se mostrado, de igual maneira, um homem sumamente afeiçoado à literatura, pela qual tem nutrido viva e intensa paixão. Humanista na acepção semântica mais rigorosa da palavra, Manoel Jaime fez do livro, a sua companhia permanente; e da leitura, diria Machado de Assis, “uma espécie de segunda alma”, sem a qual o homem interior resultaria irremediavelmente mutilado. Uma vez por semana, ao lado do médico-escritor-acadêmico Astênio Fernandes, também capturado pela irrefreável paixão pela leitura, Manuel Jaime mergulha no oceano dos grandes clássicos da literatura universal, em cujas páginas conhecimento, elevação do espírito e refinamento estético consorciam-se admiravelmente.

História, Filosofia, Artes Plásticas e Literatura, dentre outros saberes convocados por sua inquieta Inteligência, compõem o paideuma privilegiado do ilustre intelectual paraibano. Leitor voraz e insaciável, Manoel Jaime passou a sentir a imperiosa necessidade de também recriar e transfigurar o mundo em que está inserido, à imagem e semelhança das suas particulares percepções. O resultado dessa irresistível vocação para o ato/processo da criação literária foi traduzido na publicação de quatro livros, nos quais avulta, sem nenhum vestígio de reducionismo conceitual, a figura do cronista, que é uma espécie de cartógrafo lírico e vigilante da fragmentada cidade contemporânea. Contra certa hierarquizadora e sisuda Teoria da Literatura, que insiste em classificar a crônica como um gênero menor, vale a sentença do mestre Affonso Romano de Sant’Anna, para quem “não há gêneros maiores ou menores, o que há são pessoas maiores ou menores diante dos gêneros”. Irrefutável, o dizer do criador de O Canibalismo Amoroso.

Diante da cidade ruína, cidade sombra, cidade luz, cidade semioticamente multidimensional e quase inacabarcável em seus multiplicados contornos, fascínios e abismos, o cronista é o operário da palavra em permanente atitude de reconstrução artística. Com Eduardo Portella, aprendemos que o cronista celebra e denuncia, simultaneamente, a cidade, transida entre a sublimidade e a sordidez. E o faz, ainda com o mestre da crítica poética brasileira, em nome da ordem do desejo, e não do desejo da ordem. Ordem, aqui, identificada com tudo quanto possa amesquinhar o ser humano, adiando, sem data prevista, a eterna utopia de plenificação existencial que todos carregam dentro de si.

É o que faz Manoel Jaime com o delicado livro intitulado Elas, conjunto de narrativas curtas que, confluindo do miniconto para a prosa lírica da crônica, faz da mulher a protagonista de todos os microenredos que ele esculpe com admirável precisão estilística.  Atento à lição expendida por Rubem Braga no cronoema O pavão, segundo a qual “com o mínimo de elementos o artista atinge o máximo de matizes”, Manoel Jaime menos descreve que sugere os vãos e desvãos da existência cotidiana de Bia, Patrícia, Irene, Dona Sila, Dona Benta, Luzinete, Aline, Clarice, Verônica, Lízia, Rita, dentre outras tantas mulheres que integram um vasto código onomástico saturado de diversificados destinos, os quais são com singular cuidado estético e indisfarçável interesse existencial, rastreados pelo cronista, esse arquiteto do provisório e incansável romancista das migalhas do cotidiano, com as quais se esculpe o milagre imperecível da vida.

Pelo olhar caleidoscópico de Manoel Jaime passeiam múltiplas tonalidades afetivas: a do humor, que dissolve a seriedade do existir no irreprimível riso que brota na face como uma resposta possível aos absurdos do cotidiano; da denúncia social, que não se demite de por o dedo nas chagas da vida como ela é e como não deveria ser; da meditação filosófica, sempre ávida em encarafunchar os tecidos mais transcendentes do existir; da contemplação lírica, que aciona os vetores de uma subjetividade sempre comovida diante do pluridimensional espetáculo da vida, dentre outras que matizam os olhares estéticos conferidos pelas crônicas a Elas: às mulheres que, conforme a lúcida palavra da escritora Marília Arnaud: “encantaram o escritor Manuel Jaime”, e o levaram a fazer delas as protagonistas do seu texto livre, leve e solto.

A crônica de Manoel Jaime mostra que a cidade, mais do que uma mera coleção de pedra e cal, é um território saturado de destinos, os quais, transportados para o texto e transformados em linguagem, transcendem a particularidade empírica que lhes dá suporte, e atingem o estatuto de símbolo da condição humana.

Para Eduardo Portella, a sorte ou o infortúnio de uma obra de arte literária são decididos nas teias e tramas da linguagem; naquele território que Carlos Drummond de Andrade chamou de “o penetrar surdamente no reino das palavras”. Em última análise, é na perquirição do jogo poético instaurador da literariedade que uma obra de arte literária fica de pé ou cai. Manoel Jaime, Elas que o digam, foi feliz em sua empreitada.

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José Mário

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