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Eita, Várzea Alegre boa, só é longe…

Jurani Clementino. Publicado em 6 de janeiro de 2018.

Por Jurani Clementino (*)

O município de Várzea Alegre sempre forneceu mão de obra para diversas partes do país. Não é de hoje que dezenas de trabalhadores anualmente se dirigem para outros estados em busca de trabalho. Talvez o que se tem de mais conhecido é a relação que se estabeleceu entre São Paulo, especialmente o município de São Bernardo do Campo com Várzea Alegre. Visto que milhares de varzealegrenses se instalaram por lá, ocuparam basicamente um bairro inteiro – O Ferrazópolis, e anualmente promovem uma festa de confraternização para reunir a comunidade ali instalada. Vale destacar que, dada a marcante presença dos filhos de Várzea Alegre na região do ABC paulista, o filme “Peões” de Eduardo Coutinho, um dos maiores documentaristas que esse país já teve, começa exatamente no bairro do Juremal com depoimentos de ex-metalúrgicos que, nos anos 70 e 80, participaram dos movimentos grevistas em São Paulo.

No entanto, de Várzea Alegre também saiu gente para trabalhar nos seringais do Acre, nas lojas de Fortaleza, no comércio do Recife, nas plantações de algodão do Paraná, na construção civil do Rio de Janeiro e Minas Gerais, nas fazendas de gado do Pará, Maranhão, Mato Grosso, Goiás… Esta semana fiquei sabendo que no final dos anos de 1950 familiares meus foram vítima de trabalho escravo na região de Goiás. Entre esses parentes estavam uma tia de minha mãe, de nome Cecília, que foi casada com Zé Leandro, e Santinha que é tia de meu pai e viúva de Augusto Grande, um dos homens mais valentes da região. Há relatos de que, num único dia, o Augusto, durante uma briga, cortou a orelha e a garganta do desafeto e como se não bastasse ainda castrou o jumento desse pobre coitado.

Bom, mas retomando a viagem desses trabalhadores para Goiás. O grupo de varzealgrense saiu do Sítio Queixada e tomou um caminhão pau de arara onde hoje fica a BR 230. Teriam sido agenciados por um conhecido, que já havia trabalhado naquela região, mas nenhum deles sabia as condições de trabalho que os esperava por lá. A realidade só foi revelada quando, alguns dias depois, ao entrarem na fazenda perceberam que dois jagunços armados ficavam vinte e quatro horas na porteira de acesso. Foi aí que a ficha caiu. Dali eles não sairiam com facilidade. A não ser fugindo. Tratava-se de uma cilada. Então, como fugir de um lugar distante de tudo. Uma fazenda perdida no meio do país. Sem contato com ninguém. Mesmo assim, meses depois, Augusto, Zé Leandro e outros companheiros, todos de Várzea Alegre, organizaram um plano de fuga. Dois dias antes de fugir a filha de Augusto adoeceu, então ele e Santinha levaram a criança ao hospital e nunca mais voltaram pra fazenda. Mesmo assim, Zé Leandro e os demais resolveram cair na mata, no meio da noite, debaixo de chuva sujeitos a serem devorados por onças selvagens.

Vinte e quatro horas, perdidos na floresta eis que chegaram a Goianésia, município situado a cento e setenta quilômetros de Goiânia, capital do estado de Goiás. Adoentados pediram ajuda. Um dos filhos de Zé Leandro, que o acompanhava na fuga dos pais não suportou e morreu pouco depois de dar entrada no hospital da cidade. Ali mesmo eles enterraram a criança. Sem dinheiro para retornar à terra natal foram trabalhar, numa localidade vizinha, juntando areia e enchendo caminhões que seguiam para a construção de Brasília. Depois que conseguiram o dinheiro e compararam a passagem de volta pra o Ceará, essa família não parou. Morou em São Paulo, trabalhando na construção civil, depois catando algodão nas fazendas do Paraná e há quarenta anos reside no estado do Mato Grosso. Essa é apenas uma das muitas histórias de varzealegrenses perdidos por esse país a fora. Sofrendo, lutando e repetindo aquela clássica frase que tem mil significados: Eita várzea alegre boa, só é longe.

Várzea Alegre – 27 de dezembro de 2017

(*) Jornalista, escritor, professor

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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