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É Natal, é Noel!

Josemir Camilo. Publicado em 25 de dezembro de 2018 às 7:32

A esquina dos assaltos, hoje, era festa; de cruzamento perigoso de carros e motos, agora era de outros veículos e outros pedestres; nada de universitários e funcionários de classe média. Agora, era a vez dos caça presentes. Iracema saiu na frente; de sua rua iria até o posto de gasolina, para evitar a rua dos ricos que já devia ter muitos caça-presentes por lá, tomou um desvio de e seguiu outra rua de ricos, mas de pouca valia, que a maioria era de estudante e, agora, eram férias.

Vai matutando, Iracema, pensando na sopa da noite, que jantar era palavra de arremediado, para cima; uma sopa com pão já ajudava. Quando vê, passa, por si, a moto de Noé, o chato da rua apertada deles, lá, que só quer ser o rico do pedaço, só porque entrega gás na moto, naquela grade que fez atrás. Iracema não percebe ou mal desconfia que, no lugar dos dois bujões de gás estejam vários baldes e uma lata.

Armando, feito boy, de tênis, boné e cabelos louros descolorindo (ele se anarquiza, dizendo que está enferrujando, o cabelo), cruza a linha do trem e vai em direção ao posto, não sem antes dar uma passada na esquina mais fértil do bairro, ali onde dois prédios formam um só edifício, em sua imaginação. Com duas esquinas, ele tem que adivinhar onde, hoje, vai ter mais chances de arranjar presentes.

A família de Vicente saiu cedo, antes das seis, com sua carroça de geladeira; ninguém ficou em casa, além da menina de 11 anos que tinha de fazer o café e o cuscuz, para quando todos voltassem, lá pelas 8, quando o sol começava a esquentar. O sogro e o genro eram responsáveis por guiar o transporte; a mulher, filha do velho que conduzia a expedição, ia com sua filha, e o marido com o filho, numa disputa para quem encontrasse a melhor surpresa de presentes.

Iracema se admira que aquele, lá, na esquina dos dois prédios seja o motoqueiro do gás e cai em si, sobre os baldes que o danado carrega no lugar dos bujões. Tenta acelerar o passo, empurrando o que ela chama de carroça, mas o calçamento não obedece à sua velocidade, fazendo o carro de mão pular bastante. Diminui a marcha e aumenta a raiva; o motoqueiro para a moto e se dirige à esquina, onde está o porteiro botando o segundo grande tonel de lixo. A mulher se irrita e se pergunta se ele não tem vergonha. Mas, da boca pra dentro; passa por ele, dá as costas e pega o trecho de rua, para cima. Vai em busca do presente, em outra rua de barão. E, lá, adiante, em direção ao posto, na rua em que vinha antes do cruzamento, vê que, antes dela, Armando já passou e segue para o prédio dos estudantes, mas sempre olhando para trás e praguejando. O motoqueiro ganha o posto.

Quase que a família de Vicente resolve comprar a briga, mesmo com a geladeira cheia, fazendo ‘coculo’ como ele, orgulhosamente, diz. As crianças se antecipam, correndo instintivamente, como se já soubessem: ele não pega presentes, só lavagem. E, entre disputas, risadagem e auto sarcasmo, a tropa começa a esvaziar os dois tambores azuis. O motoqueiro se dá por satisfeito e sai, ajeitando um grande saco plástico, cheio, pesado, com a mão esquerda, enquanto dá o nó com a direita, esta toda enluvada em outros sacos menores, para apanhar de comida.

Descendo o pequeno pedaço de rua, onde acabara de cruzar com Iracema (mas sem saber seu nome), um novato, embora idoso, vê a esquina já disputada e se arrepende de ter saído de seu bairro, sem antes conhecer a geografia da fome do bairro rico. Empurrando seu carro de mão, ainda vazio, resolve garimpar, de volta, em ruas de seu bairro e bate em retirada, quando vê outra senhora (aquela, rapaz, de boca murcha), com sua carroça (carro de mão, rapaz!), com alguns presentes, vindo por onde vieram o motoqueiro e Iracema. A senhora idosa e trabalhadeira, porque toda manhã é quem faz, religiosamente, esse ponto, e até chega a tomar cafezinho com o porteiro camarada, ela se pergunta, em voz, alta, ao cruzar a esquina milagrosa: deu formiga, hoje, foi gente? Embora sem se dirigir a ninguém, resolve descer como se fosse para o bairro vizinho, junto com o novato, já com despeita (quem é esse cabra que já tá chegando por aqui?). O novato, com inveja da tropa que está assaltando os dois tonéis azuis e, agora, com a companhia da velha, que tem a carroça já com alguma coisa, começa a sentir rivalidade e pensa em outra coisa, já que os dois vão atravessar um pequeno matagal que divide os dois bairros. Saem os dois praguejando contra todos e tudo.

O motoqueiro volta pra sua casa e seus meninos já vão perguntando se achou alguma coisa. É Noel! A família, entre frustações nos tonéis azuis, mas com uma carga mais alta que eles, voltam soltando anedota com os outros que voltaram com carroças vazias (carroça uma merda, carroça é a minha; é de geladeira, a gente puxa, mas vê como pega coisa!). É Natal!

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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