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É Natal do Senhor

Padre José Assis Pereira. Publicado em 24 de dezembro de 2016 às 17:50

“Eu vos anuncio uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador, que é Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: Encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura” (Lc 2,10-12).

Em meio a crises, temores e incertezas do momento um Anjo nos traz uma boa notícia, anuncia-a, comunica-a a quem possa acolhê-la. O anúncio acalma, o Anjo traz paz onde há temor, o anúncio clareia a noite, não aquieta nem tranquiliza consciências, mas desaloja temores e fortalece a confiança. Que boa notícia é esta?

No silêncio da noite irrompe a vida, nasce um Menino. O nascimento de uma criança deveria ser sempre um acontecimento que traz alegria. A vida que chega é sempre bem vinda, ainda que seja acompanhada de dúvidas e temores do que não se sabe ou não se compreende. Como não amar a vida, uma criança? “Não pode haver tristeza no dia em que nasce a vida; uma vida que dissipando o temor da morte enche-nos de alegria com a promessa da eternidade”. (São Leão Magno, séc. V)

O mistério, “a magia” desta noite é o encontro com um recém-nascido que chora em um presépio. A Igreja pela sagrada liturgia nos convida: Vamos a Belém! Belém é o lugar do nascimento do menino Jesus. É uma indicação mais teológica do que geográfica: sugerindo que este Jesus é o Messias, da descendência de Davi, anunciado pelos profetas e cuja realização o Povo de Deus aguardava ansiosamente.

A Belém daquele dia não foi acolhedora, fechou suas portas. Não havia lugar para José e Maria na hospedaria, a pobreza e a simplicidade do presépio, a manjedoura dos animais, os panos preparados por Maria que envolvem o recém-nascido e a visita dos pastores que Lucas descreve quando da vinda ao mundo do Filho de Deus é a prova de que Deus escolhe vir ao encontro da humanidade e entra na história na simplicidade, na fraqueza, na fragilidade e na ternura de uma criança, na absoluta pobreza.

Lá está o Menino, o “Emanuel, Deus-conosco”, hoje nascido para nós. Este “hoje” significa que o que celebramos não é um aniversário do nascimento de um ilustre personagem da história da humanidade, mas uma atualização, um memorial, um sacramento do fato salvífico do nascimento humano do Filho de Deus.

Mas, cuidado! Corremos o risco de procurá-lo onde ele não se encontra. O Natal encerra um segredo profundo que, infelizmente, escapa a muitos daqueles que hoje celebrarão “algo”, sem saber exatamente o que.

Muitos não podem nem sequer suspeitar que o Natal nos ofereça a chave para decifrar o mistério último da nossa existência: o porquê do sofrimento e da morte. Ele nos deu a resposta não com palavras, mas sim “a Palavra se fez carne e habitou entre nós”. (Jo 1,14)

Unamos-nos ao coro dos anjos e aos pastores e entremos na gruta de Belém, pois ali está o “Deus conosco”. Natal é o tempo de nos aproximarmos e ficarmos contemplando em silêncio o amor do Pai revelado no menino de Belém.

Contemplando no presépio o menino Jesus, envolvido em panos e posto numa manjedoura, descobriremos, à luz da Palavra de Deus e da fé, que a manjedoura é algo mais significativo do que uma comovente reconstrução cênica do nascimento de Jesus na pobreza.

O presépio, a manjedoura, é o lugar da presença permanente de Deus, humanado, no meio de nós, e o lugar do nosso nascimento para a vida e para o estilo de Deus, como indivíduos e como comunidade: vida de amor e estilo de humildade e de paz.

O presépio é forma mais concreta e sensível de lembrar o nascimento de Jesus, a fim de despertar a fé e a alegria do Natal que somente tem sentido quando abrimos o coração qual manjedoura rústica, mas cheia de ternura, porque foi preparada com amor. A simplicidade, pobreza e acolhimento eloquentes do presépio que hoje contemplamos, apresenta-nos a lógica de Deus que não é igual à nossa.

A salvação de Deus não se manifesta nos grandes encontros internacionais onde os donos do mundo decidem o destino da humanidade, nem nos gabinetes ministeriais, nem nos conselhos de administração das empresas multinacionais, nem nos salões onde se concentram as estrelas do mundo artístico, mas numa gruta de pastores onde brilha a fragilidade, a ternura, a simplicidade de um menino recém-nascido no colo de sua mãe, no meio dos pobres, como José e os pastores.

Não basta reconhecer Jesus como “Salvador do mundo”, é necessário nos ensina o Natal do Senhor, que eu o encontre como os pastores e o reconheça e o acolha como “Salvador”, algo que se pode experimentar e descobrir no cotidiano de nossas vidas.

É necessário colocar no centro da nossa festa, no centro de nossos corações e de nossas vidas, como está no centro do presépio, Cristo Jesus, o Filho de Deus que veio a este mundo. Isso não é fácil! Viver em profundidade o mistério do Natal, fixar nosso olhar em Cristo, razão única da festa do Natal.

E não o é porque são muitos os apelos que ofuscam a compreensão e o sentido desta festa, fazendo-a perder seu significado cristão espiritual; reduzindo-a a uma mera ocasião de troca de presentes, das ceias familiares e confraternizações, às vezes, apenas como um momento de encontro e de desfrute que pouco expressa ou alimenta a verdadeira fraternidade.

Tudo isso unicamente tem sentido quando se compreendeu o mistério que se celebra. A tendência é fixar o coração nas exterioridades, no que é superficial. Sempre está latente o perigo de permanecer na superfície do mistério, nas manifestações externas de alegria próprias desse tempo do ano, mas sem penetrar na verdade profunda e no que significa para cada um de nós.

Despojando-se o Natal, de suas implicações de consumo ele ainda pode converter-se em uma oportunidade para acolher, como presente verdadeiro, presente de Deus a esperança e a alegria autênticas que vêm do mistério do nascimento de Jesus, algo não abstrato, mas algo que transcende a festa, essencial para a fé cristã.

A verdadeira alegria cristã se funda precisamente neste mistério: Cristo nasce para cada pessoa seja qual for sua condição. Sejamos como o Anjo, anunciadores da boa notícia de Deus. A quem gostaríamos de transmitir a alegria da Boa Nova?

Que ao desejarmos hoje votos de Feliz Natal nossas palavras, pensamentos e ações se inundem de vida, de fé e de amor a toda humanidade, a todos os apaixonados pela vida e trabalhemos juntos para que este mundo seja uma Belém acolhedora, uma casa acolhedora como nosso coração onde reside e nasce Jesus, nosso Deus-conosco.

*Por: Padre Assis

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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